Resenha: O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood – O segundo da trilogia Maddaddão

Segundo livro da trilogia Maddaddão, da escritora Margaret Atwood, O Ano do Dilúvio não é a continuação de Oryx e Crake. É, na verdade, um livro independente que pode ser lido antes mesmo do seu antecessor. Alguns acontecimentos se conectam no fim dos dois livros. Algumas surpresas que são reveladas no primeiro livro fazem parte do contexto do segundo. Na minha opinião os dois livros fazem parte de um todo e poderiam estar juntos em uma edição só. A premissa é a mesma: uma pandemia destruiu a humanidade e a história de alguns dos sobreviventes é narrada.

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

Oryx e Crake explica a origem da pandemia e se passa em um lugar mais privilegiado: dentro dos complexos. O Ano do Dilúvio mostra a vida na plebelândia (nome dado a vida fora dos complexos), dentro de uma seita religiosa chamada Jardineiros de Deus. Aqui Margaret volta a explorar a religiosidade, como vez em O Conto de Aia, mas de uma maneira completamente diferente. A religião dos jardineiros é voltada para a ecologia e eles vivem da forma mais natural possível, fugindo dos padrões sociais vigentes nesse futuro distópico, com seus próprios cânticos, deuses e estilo de vida. Eles acreditavam que um dilúvio seco destruirá a humanidade, e foi exatamente que aconteceu.

O tempo é marcado pelos anos que a seita existe, o ano 1 foi o ano de sua criação, o ano 25 foi o ano do dilúvio/apocalipse. A história é narrada do ponto de vista de duas personagens, Toby e Ren, ex-jardineiras que sobreviveram a pandemia, à partir do ano 10.

Em comparação a Oryx e Crake a narrativa do O Ano do Dilúvio é mais lenta. Um livro com uma escrita bem simples mas com conteúdo denso. Relacionamentos, violência, abuso sexual, são envoltos em uma ironia que beira ao humor ácido. É assustador como vemos nossa sociedade atual refletida nesse livro. Margaret Atwood sempre diz que tudo que está nesse livro existe, de alguma forma, hoje em dia.

Resenha: Oryx e Crake de Margaret Atwood – O primeiro da trilogia Maddadão

Margaret Atwood é uma escritora canadense conhecida por O Conto de Aia, livro de 85 que virou série em 2017, que conta a história de uma mulher em um futuro distópico extremamente religioso. O Conto de Aia ganhou prêmios e teve milhões de cópias vendidas pelo mundo. Mas Margaret Atwood não é uma escritora de um sucesso só, outras de suas obras também venceram prêmios importantes, como Vulgo Grace, que, também, se tornou série (disponível no Netflix); e o Assassino Cego. Mas hoje venho para comentar uma trilogia escrita, recentemente, por Margaret Atwood: Oryx e Crake (2013), O Ano do Dilúvio (2009) e Maddaddão (2017). 

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

A trilogia conta a história de um grupo de pessoas que se conectam ao longo dos anos, entre o passado, que para nós seria um futuro especulativo; e o presente, um mundo pós apocalíptico, onde a raça humana acaba devido a uma pandemia mundial. Os dois primeiros livros não são sequenciais, juntos formam um todo, onde os personagens vivem simultaneamente. É bem interessante ler, pois vemos algumas situações de diversos ângulos, sem ser pedante ou repetitivo. Por exemplo: a história contada em Oryx e Crake é sobre a vida de Jimmy e seus amigos íntimos, ao mesmo tempo as vidas de Toby e Ren, são contadas em o Ano do Dilúvio, e os personagens se cruzam nos dois livros. O último livro da trilogia, Maddaddão começa no mundo pós apocalíptico assim que as histórias acabam nos dois livros anteriores. 

Oryx e Crake nos mostra um mundo diferente daquele que conhecemos: as grandes corporações dominaram a vida urbana, a comida virou artificial e os porcos estão tão grandes e inteligentes que se tornaram um problema. Tudo é manipulado e observado de perto por aqueles que comandam as corporações. As familiaridades com os dias de hoje são gritantes. Os sentimentos de desesperança e angustia rodeiam a história que é repleta de violência.

Os capítulos se alternam entre passado e presente da vida do personagem principal: O Homem das Neves ou Jimmy. Aos poucos descobrimos o que aconteceu com ele e como ele chegou até aquele ponto no apocalipse final, o único humano vivo, morando em uma casa na árvore precária e sendo responsável por um grupo de humanos coloridos chamados de Filhos de Crake. A leitura começa devagar mas depois da metade fica eletrizante. Apesar de ser um romance de ficção especulativa a narrativa é densa e complexa, abordando temas sensíveis como relacionamentos abusivos – amorosos e familiares -, exploração sexual infantil, banalização da violência e falta de ética na ciência. O livro também traz questões ecológicas e ambientais, que são exploradas com profundidade no O Ano do Diluvio, o segundo livro da trilogia

A leitura desse livro trouxe questionamentos importantes, pois ele mostra o lado mais podre da sociedade e nos leva para um futuro que pode se tornar realidade. É uma leitura para corajosos, mas não se intimide, a curiosidade te leva até o fim.