Um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar – Resenha: Afirma Pereira de Antonio Tabucchi

Afirma Pereira foi minha segunda experiência na TAG (A primeira foi Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami). A caixinha de agosto me surpreendeu, tanto pela beleza, quanto pelo conteúdo, a edição é linda e o livro tem uma simplicidade genial. Antonio Tabucchi é um italiano que viveu por anos em Lisboa, e desde que recebi a caixinha via coincidências com a minha própria vida por toda parte, ele nasceu em Vecchiano um pequeno vilarejo que eu costumava ir ano passado (2019) e onde tenho muitas recordações positivas, ele morou em Lisboa cidade que amo e escreve tanto em português quanto em italiano, minhas duas línguas do coração.

O livro, escrito na década de 90, está ambientado no final da década de 30 em Lisboa, um lugar oprimido pelo Estado Novo português, regime imposto por Salazar. A ditadura salazarista, um governo autoritário de inspiração fascista, durou até 74, ano em que aconteceu a Revolução dos Cravos, movimento militar que levou o país a democracia que existe hoje. Medo, repressão, censura e violência, esse é o contexto social que Pereira sem encontra quase sem querer.

Pereira é um jornalista obeso e apático que vive a vida da maneira mais mecânica possível. Todos os dias ele acorda e sai para trabalhar, é colunista de cultura de um jornal que apoia a ditadura, come omeletes, toma limonadas, traduz contos francês e conversa com o retrato de sua mulher morta. É católico e se vê como um bom cidadão, tem poucos amigos e uma saúde precária. Não apoia a ditadura mas também não faz nada para se envolver, pensa que aquilo não é problema seu.

Isso muda quando ele conhece Monteiro Rossi e o contrata para escrever necrológios. Logo de cara ele percebe que Rossi não tem talento, nem vontade de fazer aquilo. O que o menino quer, ou parece querer, é arranjar problemas políticos induzidos por sua namorada Marta que é claramente comunista, isso são palavras de Pereira, não minhas. Aos poucos vemos o personagem despertar, ele ajuda financeiramente Rossi sem esperar nada em troca, como se fosse um pai, e passa a ter conversas mais politizadas com pessoas a sua volta, como seu amigo Silva e o doutor Cardoso, dois personagens que tem opiniões diversas sobre o que está acontecendo.

As cento e cinquenta e sete páginas são narradas em forma de relato, e o que eu achei curioso é que Tabucchi usa o verbo “afirmar”, ao invés do comum “dizer”. Mostrando assim como podemos brincar com as palavras sem perder o conteúdo, além disso, encontrei muitas repetições que deixariam qualquer professor de Escrita Criativa de cabelo em pé. Isso afirma a genialidade de Tabucchi que construiu com simplicidade um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar.

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