Um dos mais importantes livros feministas já escritos – Resenha de: O segundo sexo de Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo não foi escrito para ser um livro feminista. Simone de Beauvoir não tinha esta pretensão, mas ele se tornou um grande símbolo da segunda onda do feminismo burguês europeu/americano. Há alguns dias escrevi uma resenha sobre Os Mandarins, livro posterior ao Segundo Sexo, grande romance de Beauvoir. Lá, também, escrevi uma pequena biografia sobre está magnífica escritora, que também foi professora, filósofa, participante da resistência francesa contra a ocupação Alemã, abertamente bissexual e extremamente politizada.

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Simone de Beauvoir por Cartier Bresson

Publicado em 49, poucos anos após a segunda guerra mundial o livro foi criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda (diferente de Os Mandarins, de 54, que seria bem aceito), mas vendeu mais de 22 mil cópias na primeira semana de seu lançamento. Simone nos diz em seu livro de memória, a Força das Coisas, que a idéia para escrever um livro sobre a condição feminina veio de uma conversa com Sartre, que a perguntou se ela já havia se questionado sobre o que é ser mulher. Simone conta, então, que isto nunca fora uma questão pois ela não sentira obstáculos por seu sexo, nem para escrever, nem para trabalhar.

O volume 1 do Segundo Sexo é dividido em três partes: Destino, História e Mitos. Cada uma serve como introdução ao pensamento de Beauvoir que virá no volume 2. A primeira parte investiga dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras. Nos mostra que nos animais não existe o feminino como nós conhecemos: a fantasia de ser mulher. Ela também investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas, e que alguns valores diferem de acordo com contexto social e econômico de cada mulher.

Esses dados biológicos são de extrema importância (…). Mas o que recusamos é a ideia de que constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definir uma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 60.

Tanta força inspira aos homens um respeito misturado de terror e que se reflete em seu culto. Nela se resume toda a Natureza estranha.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 104.

A Segunda Parte é onde Beauvoir estuda a história pregressa da mulher desde o surgimento da agricultura. Aqui ela identifica as diferenças femininas e masculinas nos primórdios, começando pelos nômades ela passa pelos gregos, romanos, beduínos, muçulmanos, Europa cristã, até o fim dos anos 40. A mulher ficou em casa pois as tarefas domésticas eram mais próximas da maternidade, ou seja, a mulher não produzia nada novo e não alimentava sua independência saindo para caçar como os homens. Apesar disso o trabalho doméstico era muito mais cansativo e trabalhoso. Simone analisa o Mito Feminino da deusa e mostra como os homens tinham medo da maternidade e como endeusavam mulheres pois viam misticidade no parto. Mesmo deusa quem comandava e liderava eram homens.

A terceira e última parte é dedicada aos mitos criados sobre a mulher: a virgem, a mãe, a boa esposa. Cada sociedade tem o seu tipo de mulher ideal, e todos eles impõem algo a mulher que a impede de transcender a espécie. Sempre propriedade, anexada ao homem ela o reflete perante a sociedade. Simone analisa profundamente a obra de cinco escritores: Motherlant, D.H. Lawrence, Claudel, Breton e Stendhal. Cada um com sua própria convicção e olhar sob a feminilidade e o papel da mulher no mundo, o que pode ser maçante para quem não conhece esses escritores, meu caso. Ela nos dá panorama interessante sobre o que estava sendo produzido na França e como algumas obras influenciaram o modo como as mulheres, e a feminilidade, eram vistas em um contexto coletivo.

Resenhar o Segundo Sexo, assim como lê-lo, não foi uma tarefa fácil, o livro é cheio de referências históricas e culturais, toda página tem algum grifo interessante ou um dado importante. Por ser um grande artigo de investigação tentei resumir o que estava escrito para mostra a idéia geral do contexto no qual este livro foi escrito. Este não é um livro com viés politico, nem datado. Simone é imparcial e escreveu uma obra prima que analisa a condição feminina de diversas classes sociais. Para mim, este é um dos maiores livros que o academicismo francês nos deu.

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