Cuidado: os contos deste livro podem ser assustadores, assim como o ser humano que é falho e imprevisível. Resenha: Antes do Baile Verde de Lygia Fagundes Telles

Antes do Baile Verde foi meu primeiro contato com Lygia Fagundes Telles, algo que eu já queria fazer há muito tempo, até porque dizem que eu escrevo de forma similar a ela. Entrei em uma leitura coletiva que foi muito enriquecedora pois pude ver como a escrita da Lygia traz diversas interpretações para um mesmo conto. Cada um tinha sua percepção sobre as tramas e isso foi lindo.

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira que nasceu em São Paulo em 1923, estudou direito no Largo de São Francisco, uma das primeiras mulheres a frequentar o curso. Lá participou de rodas literárias, onde conheceu Oswald de Andrade e Mário de Andrade, escritores modernistas. Seu primeiro livro foi lançado em 1938, financiado por seu pai, que ensinou a ela que o verde é a cor da esperança. Ele, grande apostador, sempre escolhia o verde na roleta, ela, grande contista, sempre trazia o verde em seus contos, a única cor que amadurece. Lygia também foi uma das principais escritoras a lutar contra a censura do AI-5.

Lygia Fagundes Telles

Publicado pela primeira vez em 1970, Antes do Baile Verde é uma antologia pessoal da escritora que escolheu os contos à dedo entre os tantos que já publicados. Lançado muitos anos após Ciranda de Pedra (1954), romance que marca o nascimento de Lygia para uma escrita, segunda ela, mais madura, Antes do Baile Verde é, junto com Ciranda de Pedra, marco do início do universo “Lygiano”. Ou seja, à partir deles encontramos muitos elementos e signos semelhantes que se repetem ao longo de sua obra. Os livros posteriores foram, a pedido da própria autora, descontinuados.

Os contos deste livro são densos e complexos mas foram escritos de uma forma tão fina que nos faz ter certeza de que cada situação ou objeto colocado ali traz sentindo para a história. Lygia nos mostra a vida humana como ela é, sem dramalhões, ou felicidades exageradas. Os sentimentos como opressão, ciúmes, arrependimento, solidão, desilusão são mostrados de uma forma leve e sutil, quando percebemos já estamos hipnotizados e assustados. Sim, os contos deste livro podem ser assustadores, assim como assim como o ser humano que é falho e imprevisível.

É maravilhoso ver como ela lapida suas histórias de forma muito inteligente, deixando tudo dito e ao mesmo tempo tudo vago. Os finais abertos são sua marca registrada, criando assim, diversas interpretações para uma mesma história. A descoberta dessa autora tão famosa na literatura nacional e mundial foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida literária, esse ano, pois não é sempre que lemos algo, assim, tão refinado.

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