A misoginia existe e existirá até darmos um basta – Resenha: Minha vida de rata de Joyce Carol Oates

Recebi este livro da TAG curadoria em outubro e não pretendia ler tão cedo. Primeiro porque achei um absurdo eles mandarem um livro cheio de gatilhos (já havia lido resenhas sobre ele) sem avisar, mostrando descaso com quem está lendo. Isto e outras pequenas coisas me fizeram cancelar a assinatura (vou falar sobre isto em breve). Segundo porque a Joyce Carol Oates é uma escritora estadunidense e eu não sou muito fã de escritores de lá. Só li porque estava companhia de amigas, Oli e Clarisse, e se não fosse isto não teria terminado.

Este foi meu primeiro contato com a obra da Joyce, que já foi cotada para o Nobel diversas vezes, e não gostei. Encontrei erros de construção gravíssimos e fiquei o tempo todo questionando: “Duas coisas acontecendo ao mesmo tempo?”, “Aquilo que Violet, a personagem principal, está registrando é sonho ou é real?”. Não temos como saber. Na verdade, muitas coisas que ela mostra no livro não acontecem, isto me deixou confusa, ela faz muitas insinuações que acabam não sendo verdades. Além disso a opinião da própria autora se sobrepõe na narrativa de Violet, opiniões contraditórias com a submissão da personagem. É uma leitura muito desagradável, não só pelas atrocidades que acontecem, mas também pelo modo como ela escreve.

Apesar disso, Minha vida de rata aborda assuntos importantíssimos, como a misoginia e o racismo, temas principais da obra. Violet é a filha mais nova de uma família irlandesa, o pai é um patriarca violento e abusivo, a mãe é uma mulher submissa e frustada, os filhos são cópias deles. Quando os irmãos mais velhos de Violet matam brutalmente um menino negro a família entra em crise. Ela é atacada dentro de casa e em um momento de fragilidade delata os irmãos. Assim começa sua vida de rata, é expulsa e vai morar com uma tia.

Violet é uma das muitas meninas que são desrespeitadas ao longo da vida, pelos pais, por assistentes sociais, por professores. Mostrando assim o descaso que a mulher sofre na sociedade. Foi nos imposto a submissão e o que pensamos não tem valor. Somos inferiores e isto está claro neste livro. Não somos educadas como deveríamos, como os meninos são, para serem fortes e contestadores. Por isso não nos amam como amam eles. Os meninos serão poderosos, nós não.

Violet também passa por abusos sexuais na adolescência e na vida adulta. Vive carregando o peso de ter dedurado os irmãos, quer ser perdoada e voltar para a família. Anseia pelo amor que lhe foi tirado. Passa uma vida querendo agradar, se anulando sem se impor. Vemos aqui como a socialização feminina é forte e está dentro de cada uma de nós. Corremos o risco de ser Violet, muitas de nós foram. Ao meu ver, este livro nos mostra que a socialização feminina não falha. Isto sempre será a coisa mais difícil de desconstruir. A misoginia existe e existirá até darmos um basta.

Você já pensou como a socialização feminina nos fere? Como ela nos criou para sermos bibêlozinhos que sempre dizem sim? Temos que conversar sobre isto!

2 Replies to “A misoginia existe e existirá até darmos um basta – Resenha: Minha vida de rata de Joyce Carol Oates”

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