Resenha: Fique comigo de Ayòbámi Adébáyò – Uma obra prima da literatura nigeriana contemporânea.

Escrever uma resenha sobre este livro será fácil, pois afirmo que foi uma das melhores leituras deste ano. Depois de ter lido uma série de livros que não me encantaram (Todos os nossos ontens, O jogo da amarelinha, Minha vida de rata, Flores para Algernon) eu me deparei com esta obra magnífica.

Escritoras nigerianas estão mostrando ao mundo seus talentos.

Devo agradecer Ayòbámi Adébáyò por isto, a escritora nigeriana que fez sua estréia aos 29 anos com o livro Fique comigo em 2017, escreve com uma maestria que poucos fazem, ela nos envolve em sua trama surpreendente. Foi estudante de Letras na Nigéria e depois se especializou em Escrita Criativa na Inglaterra, onde ganhou uma bolsa de estudos. Em 2015, antes da sua estréia, ela já era citada como um dos grandes nomes da literatura nigeriana por seus contos. Hoje trabalha como editora em uma revista literária chamada Saraba na Nigéria.

A maternidade compulsória causa dor e sofrimento.

O livro conta a história de um jovem casal, Yejide e Akin, apaixonado que apesar de se bastarem começam a ter problemas. Yejide não consegue engravidar, sua saúde está ótima, assim como a de Akin, a razão para eles não terem filhos é incerta. A culpa recai, sempre, sobre a mulher que passa a ser indigna de seu marido. Ela sente a pressão dos familiares que se envolvem na vida do casal mais do que deveriam.

A poligamia é aceita, e incentivada, na cultura nigeriana. Então, Akin se casar, “forçado” pela mãe, pela segunda vez. Yejide fica arrasada e decide que deve dar um herdeiro ao marido antes de Funmi, a segunda esposa. A personagem principal está longe de ser uma mulher fraca e submissa, ela trabalha fora e deixou clara sua posição sobre a monogâmica logo no início do relacionamento, mas não foi respeitada. Órfã de mãe, morta durante o parto, Yejime só tinha o pai, que a culpava indiretamente pela morte da mulher que ele mais amava, apesar de nunca ter sido uma esposa legitima.

A narrativa é dividida entre presente, anos 2000, e passado, anos 80, época em que houve na Nigéri, disputas políticas violentas. Descobrimos a história pelos olhos de Yejide. Akin também narra alguns capítulos, mas de uma maneira secundária. Os personagens conversam entre si ao longo dos capítulos. Ayòbámi constrói personagens fortes e complexos que viram seu amor ser destruído pelas mentiras e a pressão social. Acho que este livro não existiria se o casal tivesse tido uma conversa franca sobre seus sentimentos, mas isso é sempre mais difícil, principalmente em uma sociedade onde os costumes e cultura são tão fortes.

Bom, se quiser ler, lembre-se: este é um livro incrível onde o choro é inevitável.

5 Motivos que me levaram a cancelar a TAG livros.

Assinei a tag curadoria pela primeira fez em julho deste ano (2020). Queria entender como funcionava e como eram os livros. Recebi cinco caixinhas no total e aos poucos percebi que o modo como eles trabalham não funcionaria para mim. Nesses cinco meses me deparei com pequenas coisas que aos poucos se tornaram grandes. Além disso o valor da assinatura é alto e a experiência não é tão agradável quanto eu esperava.

5 motivos que me levaram a cancelar a TAG

1. Assinei o plano curadoria e veio um livro inédito.

Assinei o plano Curadoria esperando uma edição lindíssima de um livro que já existisse aqui no Brasil, mas o primeiro que recebi foi Sul da fronteira, oeste do sol um livro inédito. Apesar da edição ser muito bonita fiquei chateada com esta pequena mentira logo de cara, mas enfim, as expectativas eram minhas, então, continuei assinando.

2. Livros sem edição recente no Brasil

Como havia dito recebi cinco livros deles e apenas um tinha edição recente aqui: Tudo de bom vai acontecer da nigeriana Sefi Atta. Ou seja, apesar de não ser inédito, a única forma de ler algum desses livros é se associando a TAG. Na época eu estava fazendo resenhas dos recebidos (Sul da fronteira, oeste do sol, Afirma Pereira, Todos os nossos ontens) e senti que não fazia sentido falar sobre livros que apenas assinantes da TAG leriam. Senti que a curadoria pudesse ser um pouco enviesada fazendo com que as pessoas ficassem presas a eles. Ao meu ver também parece ser um laboratório para as editoras verem o que funciona para o mercado brasileiro.

3. Contato excessivo com ex associados.

Quando fui cancelar minha assinatura recebi uma enxurrada de e-mails e mensagens no WhatsApp perguntando se eu tinha certeza do cancelamento, tipo ex namorado que não aceitou o término. Não gosto de receber mensagens e e-mails deste tipo, primeiro porque se eu cancelei, o fiz porque quis, eles só pararam quando respondi que aquelas mensagens estavam me incomodando, depois de umas 10 recebidas.

4. Enviaram um livro que fala sobre abuso e violência sem avisar.

Em outubro eles enviaram Minha vida de rata, um livro cheio de abusos e violências que não foram avisados. Enviaram o livros às cegas podendo ativar gatilhos de pessoas que não sabiam o que havia ali dentro. Além disso, é um o livro ruim, não gostei da escrita e nem da edição. Não teria lido, nem comprado se não tivesse recebido em casa sem saber o que seria.

5. Precarização do trabalho

Meses atrás a TAG iniciou um programa de parceria que convidava páginas do Instagram a falarem sobre eles em troca de uma caixinha. Para ganhar este mimo nós teríamos que vender um número absurdo de assinaturas. Eles esqueceram que o que fazemos aqui é trabalhoso e complexo, e o que nos move é o amor que sentimos pelos livros. Além disso, só uma pessoa com uma conta grande conseguiria vender o tanto de assinatura que eles esperavam. Eles viram que ninguém se interessou e retiraram a proposta do ar.


Lembrando que essas conclusões são uma opinião minha e respeito quem pense de um modo diferente. Quando assinei a TAG em julho fiz como um teste, queria ver se esse tipo de clube funcionaria para mim. Não tive uma boa experiência com a TAG pois todo mês era uma decepção nova e um sentimento negativo que as caixinhas traziam, principalmente, depois de tentar cancelar pela primeira, continuei porque queria a edição de Tudo de bom vai acontecer, e cancelei definitivamente depois de Minha vida de rata.

Agora quero saber de vocês! Gostam da TAG?

Este livro pode ser insosso mas nos ensina sobre humanidade – Resenha: Flores para Algernon de Daniel Keyes

Flores para Algernon estava quase um ano parado na minha estante, pois tinha medo de começar e não gostar. A literatura estadunidense não me agrada, apesar de haver algumas exceções, claro, sou apaixonada pela escrita da Patti Smith e estou feliz por ter descoberto Octavia E. Butler, mas, no geral, acho que eles escrevem de um modo insosso. E foi esta sensação que tive ao longo deste livro, não que ele seja ruim, não é, mas falta tempero. O autor Daniel Keyes foi professor de escrita criativa por muitos anos, ganhou prêmios importantes da ficção científica e trabalhou na Marvel. Seu currículo é extenso e imponente, sua escrita não. Duvido que ele teria sido tão cotado se fosse negro, ou mulher.

Escrito no fim dos anos 50 em uma Nova Iorque pós segunda guerra mundial, onde a guerra fria era, ainda, uma criança e o homem não havia pisado na lua. Época em que cientistas estadunidenses, inspirados nos nazista, fizeram diversos experimentos em humanos, desde separar bebês gêmeos até dar doses cavalares de LSD para “ver” o que acontecia. Inclusive, muitos dos cientistas alemães que apoiaram o terceiro Reich foram importados para a terra da “liberdade”.

Logo no início do romance nos é apresentado Charlie e Algernon, duas cobaias, bichos de laboratório, o primeiro é um humano, apesar de não ser visto desta forma, o outro é um rato. Algernon passou por uma cirurgia para ficar inteligente, Charlie passará pela mesma. Ele é um homem em seus 30 anos, com dificuldade de aprendizado e um quociente de inteligência abaixo do normal. Ele quer mudar essa sua condição, entendemos o motivo ao longo da história, então sua professora o inscreve para o programa. Charlie é sensível, educado e ingênuo, ele escreve relatórios de progresso e é por meio deles que descobrimos o que ele vê e sente. No início eles são mal escritos e depois se tornam cada vez melhores.

Ao longo deste processo Charlie se lembra de como as pessoas foram agressivas e rudes com ele, apenas, porque ele não compreendia o mundo como uma pessoa comum, foi maltratado pela mãe, por colegas, pela irmã. Uma tristeza envolve os capítulos e nos faz pensar no modo como nossa sociedade lida com pessoas diferentes, que são feridas fisicamente e psicologicamente. Ou seja, nós temos o dever de mudar estes comportamentos e não permitir que coisas assim aconteçam.

Nos capítulos em que Charlie se torna inteligente, encontramos uma inteligência mal construída mostrada através da fala do personagem que diz saber muitos idiomas e lê rapidamente. Nesta parte descobrimos um Charlie prepotente e arrogante, muito diferente do homem doce de alguns capítulos antes. Vemos, então, o quão importante é a inteligência emocional e como, aos poucos, construimos ela com nossas experiências e vivências. Este livro pode ser insosso, com personagens previsíveis e totalmente planos mas ele nos ensina sobre humanidade, sobre o cuidado e o respeito que devemos ter com as pessoas, independente de quem seja, ou como seja. Uma verdadeira lição de vida.