A loucura feminina no Brasil colônia – Resenha: Carta à Rainha Louca

O primeiro livro do nosso clube do livro contemporâneas foi Carta à Rainha Louca de Maria Valéria Rezende.

Ela nasceu em 1942 em Santos, minha terrinha. Saiu da cidade quando tinha 18 anos para estudar Língua, Literatura Francesa e Pedagogia, é mestre em Sociologia e se dedicou a educação popular, primeiro na periferia de São Paulo, depois no sertão nordestino. Ela rodou o mundo como educadora, fez parte de uma rede latino americana de educação. Ensinava o povo, camponeses e sindicalistas, à ler e escrever. Esteve em Cuba e na Nicarágua. Segundo o El Pais ela caminhava com Fidel Castro pelas ruas de Cuba e tomava cafezinhos com Gabriel García Marquez. Nos anos 60 ela estava comprometida com a revolução, deu abrigo a perseguidos políticos durante a ditadura militar e ensinou sindicalistas e camponeses a ler e a escrever.

Tornou-se freira aos 24 anos porque “queria andar pelo mundo, então era muito mais inteligente ser freira missionária” disse ela em uma entrevista ao El Pais. Além disso, ela tem uma visão progressista sobre os votos de castidade, pobreza e obediência, fiquei encantada ao ler a entrevista. Quanto mais eu lia sobre ela mais a admiração por essa senhora, que tem vários livros publicados, crescia em mim. Em seus livros ela fala de assuntos diversos que compõem as dores de ser mulher.

Ganhou três jabutis, em três categorias diferentes, Infantil, Juvenil e por fim, Melhor Romance e Livro do Ano de Ficção por “Quarenta dias” em 2015. “Outros Cantos” ganhou o Prêmio Casa de las Américas em Cuba, o Prêmio São Paulo de Literatura e lhe rendeu o terceiro lugar no Jabuti de 2017. Carta à Rainha Louca, nosso livro do mês, ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos de 2020, venceu o Prêmio Rumos do Itaú Cutural, e foi finalista do Jabuti de 2020.

Resenha de Carta à Rainha Louca da Maria Valéria Rezende!

Nesse livro conhecemos Isabel das Santas Virgens que está presa no convento do Recolhimento da Conceição em Olinda. É 1789 e ela começa a escrever uma carta para a Rainha Maria I, rainha de Portugal conhecida como “A louca”. Isabel clama por justiça em um relato conturbado, onde ela faz críticas verozes tanto a religião quanto a sociedade colonial, onde ela, mulher pobre e sozinha no mundo depende da sorte para viver nessa terra hostil.

A leitura é um pouco confusa no começo, tive que usar da leitura ativa, e de um dicionário, para entender as minúcias escondidas no texto de Maria Valéria Rezende, que fez uma releitura histórica belíssima, tanto do vocabulário quanto da condição da mulher, que era uma ninguém sem um homem. Ela mostra com crueza e muita ironia como funcionava as classes sociais no Brasil colonial. Os fazendeiros, os trabalhadores e os escravizados compunham uma sociedade desigual onde poucos tinham muito e muitos não tinham nada. Esse era o caso de Isabel, que fora dama de companhia da sinhazinha Blandina, filha de um fazendeiro.

Isabel dormia na senzala mas era “livre” – tão livre quanto uma mulher poderia ser em um sistema patriarcal -, seu pai foi um português que chegou no Brasil para ocupar um cargo de confiança junto ao dono das terras em que viviam, a mãe morreu no parto. Ela vivia ao lado de Blandina e a via como uma irmã. As duas tiveram a mesma educação e se apaixonaram pelo mesmo homem: Diogo, personagem cheio de histórias mentirosas.

“Tento fazer esse livro com uma linguagem plausível no século XVIII e legível no século XXI. Na verdade, desconfio da minha cabeça de século XXI para falar no lugar de uma mulher do século XVIII. Então, a mulher diz uma porção de coisas que seria impossível ela dizer no século XVIII. Mas aí ela rasura. Porque ela diz “eu devo estar louca de estar pensando numa coisa dessas, que eu nunca ouvi ninguém dizer”. Acho que é uma maneira metafórica de dizer que muita coisa é verdade ainda.” Maria Valéria Rezende

Carta à Rainha louca é dividido em quatro partes onde Isabel crítica a vida que leva no convento, as ordens religiosas, os “homens de bem”, a grande falta de materiais e produtos básicos, as leis de compra e venda, a escravidão, e a prisão, da mente e do corpo, que lhe foi imposta apenas por ser uma mulher que desafia a imposição de gênero. Vemos, também, um pouco sobre a corrida do ouro, brincadeiras sobre gênero e o valor que as palavras têm. Muito bem escrito e com algumas rasuras propositais onde ela deixa suas críticas mais mordazes. Isabel é uma personagem inspiradora que faz muito com o pouco que tem e tenta levar a vida a sua maneira mesmo quando está encarcerada em um convento.

“As rasuras são uma espécie de autocensura, porque ela está em contradição.Ela tem uma atitude feminista, faz uma crítica feminista contra o mundo colonial e percebe que diz coisas que nunca ouvira ninguém dizer e por isso, deve ser meio doida.”

Resenha: Kindred – Laços de Sangue de Octávia Butler. Mulher, negra, escritora premiada.

Para quem não sabe eu escrevo, terminei um livro em 2020, que será lançado em breve, e estou preparando o próximo, que será tanto uma distopia quanto uma utopia. Por esse motivo comecei a estudar livros de ficção científica, gênero literário do qual não estou acostumada. Também fiz um curso sobre isso e a professora indicou diversos livros, incluindo Kindred da Octávia Butler.

Octávia Butler sentada em uma poltrona em frente a uma estante cheia de livros

Decidi começar por ele pois a história de vida da Butler é incrível: ela cresceu em um Estados Unidos segregado, onde a supremacia branca forçava os negros a viverem com uma má remuneração e excluídos da sociedade. Apesar disso, ela nasceu em Pasadena, na Califórnia, uma cidade mais progressista, mas não tanto, onde ela pôde estudar e se desenvolver intelectualmente. Sua mãe fazia trabalhos domésticos para famílias brancas, destino de muitas mulheres negras até os dias de hoje. Butler queria fazer diferente e ela teve a oportunidade de se dedicar a escrita desde muito jovem. Foi incentivada pela mãe, que comprou sua primeira máquina de escrever e a ajudou financeiramente seu trabalho.

Enfrentou um preconceito duplo por ser mulher e negra. Diziam a ela que nunca seria uma escritora. Esse lugar era permitido, apenas, para homens brancos. Isso fica evidente quando vemos muita literatura ruim mas aclamada feita por eles. Butler escreve com maestria, e mereceu, absolutamente, todos os prêmios que recebeu. É bastante conhecida no Estados Unidos, mas as edições de seus livros só chegaram recentemente ao Brasil. O racismo latente e estrutural nos mostra esse silenciamento diário que escritoras negras sofrem.

Octávia Butler escreveu praticamente a sua vida inteira e morreu jovem, aos 58 anos, ninguém sabe ao certo o que aconteceu mas provavelmente sofreu um derrame cerebral e, logo após, uma queda. Seus livros trazem personagens marginalizados que lutam pela sobrevivência em um mundo desigual. Kindred foi minha primeira experiência com sua escrita e não será a última.

Resenha de Kindred – Laços de Sangue e o racismo estrutural

Livro Kindred fotografado em cima de uma mesa de madeira

Dana é uma escritora negra que acaba de se casar com um homem branco, também escritor. Ele vende livros, ela ainda não, isso já nos mostra a diferença gritante entre os dois gêneros e as duas raças. O casal vive nos anos 70, são felizes e apaixonados, até que Dana começa a sentir enjôo, uma gravidez seria preferível, mas ela volta no tempo para salvar um menino branco, Rufus, que se afoga. Ela o salva mas os pais dele não a agradecem, ao invés disso, apontam uma amar para o seu rosto, ela volta para casa com o mesmo enjôo de antes. Kindred começa já impactante, nesse momento Dana não entende o que aconteceu, nem que essas viagens no tempo seriam constantes.

Pouco tempo depois ela voltou para salvar Rufus mais uma vez e descobre que está em Maryland, um estado do norte estadunidense vizinho a capital Washington e a Pennsylvania antiescravagista. Vejam: Octávia Butler não escolheu um estado do Sul para mostrar as monstruosidades da escravidão, ela escolheu um estado do Norte, que orgulhosamente lutou contra a escravidão na guerra de sucessão. A sutileza dessa escolha foi uma das coisas que mais me impressionou no livro. Dana também descobre que Rufus é um de seus antepassados e essa ligação entre os dois é o que mantém a história funcionando, pois por mais que ela odeie ele e suas atitudes ela não pode matá-lo e fugir para o futuro, pois ela nunca existiria. Resumindo: Dana, que no presente vive na Califórnia, retorna para início do século 19 em uma Maryland escravagista, sempre para salvar um menino, que se torna adolescente e depois homem.

Na terceira vez que isso acontece seu marido, Kevin, vai com ela. Ele se torna um “senhor” e ela uma mulher escravizada mas muito letrada. Os brancos se assustam com isso mas a respeitando porque ela tem um dono. À partir dai vemos um retrato fiel sobre o que acontecia nas fazendas da época: a diferença entre os escravizados da casa e os do campo, as injustiças que eles sofriam, a violência com que eram tratados e a destruição de famílias negras — era muito comum um escravagista vender filhos de pessoas escravizadas para punir ou lucrar. Dana presenciou tudo isso e teve que agir com cautela sobreviver, ela foi julgada por todos.

Enquanto eu lia esse livro, li também Mulher, raça e classe da Angela Davis, e acredito que as duas leituras se complementaram, pois pude ver em um panorama completo o que acontecia naquele Estados Unidos pré guerra civil. Octávia Butler escreve maestria, a narrativa te prende até o último parágrafo. Os personagens são bem construídos e às vezes sentia que lia um relato verdadeiro e não uma história de ficção. E, na minha opinião, o melhor momento da literatura é quando ela se mistura com a realidade de maneira tão cristalina que acreditamos estar estudando história. Butler deu uma verdadeira aula com esse seu livro. Não vejo a hora de ler mais.