O legado de Milan Kundera – Resenha de A imortalidade

O primeiro livro que li de Milan Kundera foi o famoso A insustentável leveza do ser, que me causou diversos sentimentos contraditórios. O personagem principal é um machista e faz sua mulher, Tereza, sofrer. Apesar disso, o modo como a história foi conduzida, e os outros personagens que apareceram fizeram deste livro um dos meus preferidos. Desde então busco ler outras obras do autor. Li O livro do riso e do esquecimento e A lentidão, livros que me marcaram. Até que me deparei com A imortalidade, um livro que segundo o próprio Kundera, dentro do livro, seria a versão “melhorada” de A insustentável leveza do ser.

Kundera é um Checo exilado na França que completa, neste ano, 92 anos. Cresceu em uma família de músicos eruditas, seu pai foi um grande musicólogo e pianista. Por isso vemos muitas referências músicais em suas obras. Ele também estudou Literatura em Praga. Foi admitido e expulso do Partido Comunista Checo duas vezes, pois criticava a soberania russa. A Checoslováquia estava sob domínio Russo desde 68, como vemos em A insustentável leveza do ser. Ele lutou contra o domínio da União Soviética até 75, quando fugiu para a França, pois estava sendo perseguido pelo governo. Viveu como um exilado, teve seus direitos como cidadão checo cassados e suas obras foram proibidas em seu próprio pais. Kundera só recuperou sua cidadania em 2019.

O livro A imortalidade nasceu para ser um não romance. Ele queria que fosse um livro que não pudesse ser adaptado, depois que a adaptação de A insustentável leveza do ser, com Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche, chegou ao Oscar em 88. Além disso, Kundera proibiu as adaptações de seus romances. A imortalidade traz personagens fictícios e reais. Neste livro Kundera ficciciona a vida pós morte de grandes autores como Goethe e Hemingway, e coloca si próprio como espectador de seus personagens, misturando gêneros e pensamentos com um tema a seguir: a imortalidade.

Os livros que li do Kundera não me envolvem logo no início e esse não foi diferente. Ele escreve livros para serem descobertos aos poucos, mas acredito que essa demora se dá porque não acredito nas ideias dele sobre mulheres e relacionamentos. De qualquer forma, a construção do livro é excepcional. Então, só fui entender o que o livro pretendia lá para a segunda metade.

Sabendo disso, vamos a narrativa: o livro é dividido em 7 partes. Agnes nos é apresentada logo no ínicio quando ela faz um gesto, que se repete ao longo da história. Ela é descrita como uma “velha”, ideia que não compro, já que tem seus 50 anos. Depois conhecemos seu marido Paul e sua filha Brigitte. Laura, irmã de Agnes, se torna importante lá pela parte 3, onde seu relacionamento com Bernard é esmiuçado, assim como a vida do tal.

A história desses personagens é intercalada com a vida de Goethe. Em um primeiro momento vemos a história dele com Bettina von Armin e como ela busca a imortalidade nessa relação. Bethoveen é citado, assim como Napoleão. O ponto alto é quando Goethe tem um diálogo pós morte fictício com Hemingway, dois homens de duas gerações diferentes conversam sobre seus legados.

Kundera também é um personagem ativo, mas ele só (exceto no final em uma pequena cena onde ele conhece alguns personagens) interage com, o amigo, Professor Avenarius, o motor que faz a história girar (esse sim, interage com os personagens e muda a vida deles). Na parte 6 descobrimos um novo personagem, Rubens. Na minha opinião foi a passagem mais chata do livro, pois esse personagem é um mulherengo e como já disse acima, acho que Kundera não sabe escrever sobre relacionamentos amorosos. Rubens tem experiências que me parecem falsas e irreais.

Ele consegue reunir todos esses personagens e vivências de maneira belíssima, cada qual a sua maneira, sempre filosofando sobre a morte e o que deixamos para trás. O livro tem sacadas inteligentes sobre a sociedade moderna do fim do século XX. Ele fala sobre política, sobre o mundo das aparências, sobre relações familiares, meios de comunicação e outros temas contemporâneos. A história é bem construída e os desfechos são interessantes. Gostei muito pois tudo se conecta de alguma maneira. Kundera brinca com seus personagens e não deixa nada passar despercebido.