Resenha: Se deus me chamar não vou de Mariana Salomão Carrara

Maria Carmem é uma menina de 11 anos sentada em frente a um computador contando a história de seu breve ano. Seus pais são donos de uma loja de velhos, uma loja que vende produtos ortopédicos. Ela passa o dia na loja com eles. É uma menina inteligente que sonha em ser escritora, por isso inicia este relato divertido e, também, triste. Ela só tem tamanho, como a mãe sempre diz, e está fora do padrão estético, por isso os coleguinhas zombam dela na escola. Em casa não recebe muita atenção dos pais. Ela experimenta desde muito nova a solidão. Maria Carmem relata seu dia a dia na escola, sua paixonite por Carlos e a amizade com a vizinha adolescente que odeia sexo. A personagem narradora também conta sobre a entrada de Leo na vida dos pais. Maria Carmen viu Leo na televisão dando dicas de como como vender mais, como os pais sempre reclamavam de grana ela mandou um e-mail para ele que apareceu na loja de velhos e acabou se aproximando da família.

Esse livro mexeu comigo pois lembro de me sentir como Maria Carmem quando tinha sua idade. Sentia que não pertencia e passei por situações parecidas, como a falta de amiguinhos e o sentimento constante de que ninguém iria gostar de mim, pois não era bonita como as outras meninas. A solidão na infância é uma coisa muito real e devemos conversar mais sobre isso com os pequenos e ensinar eles a não zoar o amiguinho. Se deus me chamar não vou é um livro sensível, divertido e delicado. A leitura é gostosa, Maria Carmem tem um humor ácido e os acontecimentos são interessantes. O final é lindo e muito bem pensado. Adorei!

O chapéu de palha da minha avó – Uma mini memória

Olho para uma foto instantânea que foi tirada na praia do Arpoador alguns anos atrás. Visto uma camisa rosa clara que tinha sido comprada em um brechó de Paris, alguns anos antes da foto. Paguei 1 euro, quando o euro ainda não custava 4 reais. Eu amo essa camisa. Estava de maiô, um óculos Ray-ban redondo e um chapéu de palha que foi da minha avó. Lembro de estar no apartamento dela, no quarto extra, nunca na sala, onde minha prima, meu irmão e eu passávamos o dia assistindo televisão e brincando. Atrás da porta tinha três ganchos, ou era apenas um?, com o chapéu de palha pendurado. Achava ele lindo, era redondo e tinha uma aba longa, além disso, uma fita preta o contornava.

Ele foi parar na minha casa. Lembro de colocar o chapéu na minha cabeça todos os dias, ele ficava enorme e pinicava um pouquinho. Acho que pedi emprestado para minha avó e ela me deu. Usei por um bom tempo. Naquele dia, da foto na praia, o vento fazia o chapéu voar e cair na areia, aconteceu umas 4 vezes. Não era prático, então, parei de usar. Mas ainda tenho ele guardado, vira e mexe ainda pego e o coloco na minha cabeça, não fica mais tão grande assim. Agora ele tem um furo. Talvez, eu não tenha cuidado dele direito, mas continua lindo, continua importante. Minha avó não lembra mais do chapéu, nem de mim.

Quando minha avó lembrava, ela saia por aí com o chapéu e um óculos de sol com grau, retangular, como aqueles que voltaram à moda. Tenho esse óculos guardado também e pretendo colocar uma lente nova, sem grau. Minha avó baixinha e gordinha, com os cabelos pintados de preto sorrindo por aí com o chapéu de palha e o óculos de sol, em alguma viagem, talvez. Não sei se essa memória é real ou se produzi a partir de uma foto. As memórias são incertas, já não lembro como ela falava, nem sobre o que gostava de conversar. Lembro que ela tentou me ensinar a tocar piano, mas não dei muita bola. Ela me ensinou a costurar e isso eu aprendi.

As memórias se perdem, se modificavam. Os objetos — o chapéu de palha, o óculos retangular — ficam. Mas o que seriam deles sem as memórias? Seriam apenas células acumuladas e mortas que se entrelaçam. Os objetos só ganham significado quando colocamos sentimento neles.

Resenha de Um Teto Todo Seu da Virginia Woolf

Esse livro é um dos grandes ensaios de Virginia Woolf que deve ser lido por todos. Ela começa contando a história de uma mulher, que está passeando por um campus universitário (Oxfordbridge) e se depara com inúmeras proibições: ela não pode entrar na biblioteca sem autorização, ou campainha, de um homem. Depois ela participa de um jantar luxuoso e o compara com o jantar no campus das mulheres, que é pobre e sem graça. As mulheres brancas e europeias nunca estiveram em pé de igualdade com seus pares, elas eram propriedades dos pais, irmãos e maridos e é sobre isto que ela discorre aqui. Por que a literatura escrita por mulheres é tão escassa? Ela exemplifica tal pergunta ficcionando a vida de uma irmã de Shakespeare que tinha o mesmo talento que ele, mas todos os empecilhos do seu gênero. Mulheres não eram educadas, não iam a escolas, nem a universidades. O pensamento lógico era deixado de lado e ela aprendia apenas a ser uma boa dona de casa. Quando casava tinha que cuidar do marido e das proles. Não tinha tempo para escrever, nem poderia, se você pega fazendo isso seria castigada.

Li esse livro pela primeira vez em 2018. Foi uma experiência linda, pois já estava começando a questionar minhas leituras. Naquele ano eu foquei em ler mais mulheres. Além disso ele me fez ver que eu poderia escrever. Virginia foi uma mulher branca, européia de classe média, que vivia em uma Londres da década de 20. Ou seja, suas reivindicações são para a sua classe e o momento em que vivia. Dentro deste contexto ela fez um belo trabalho. Podemos achar antiquado e ultrapassado, e às vezes é. Mas ela explica os motivos que fizeram as mulheres e os trabalhadores, sem instrução academia, serem os grupos que menos publicaram livros. Os tempos mudaram (Quase um século desde a publicação desse livro!), mas eu acho importantíssimo olhar para o passado para entender o tipo de literatura que consumimos e fazemos.

Resenha: Tempo de Graça, Tempo de Dor de Frances de Pontes Peebles

Esse livro conta a história de duas amigas que se conheceram ainda criança no engenho de açúcar Riacho Doce. Uma é Das Dores, a Jega, órfã criada pela cozinheira da casa e maltratada por todos. A outra é Graça, a patroinha. Ela se tornam inseparáveis, como irmãs. Se apaixonam pela música depois que a mãe de Graça as levou em um concerto na capital. Desde então elas sonham em se tornarem cantoras de rádio. Graça perde a mãe, cresce e se vê obrigada a casar. Elas então fogem de uma escola religiosa onde o pai as prendeu depois de espantarem, de um modo brutal, um dos pretendentes de Graça. Acabam na Lapa, e é aí que a história engata. Vemos a beleza do samba e percebemos que uma tem mais talento, para cantar, que a outra, que é uma excelente letrista. Ares de Carmen Miranda permeiam a história. O livro é narrado em primeira pessoa: Das Dores nos conta sobre a vida de Graça, desde a infância, até o estrelato em Hollywood.

Foi lindo ver a Lapa dos anos 30 e o início do samba no Rio. Samba que começou no recôncavo baiano e que foi apoiado por Mães de Santo quando criminalizado. As personagens não são amáveis, mas reais. A amizade entre Das Dores e Graça é intensa, sexual e destrutiva. As duas se amam, mas, também, se invejam. Os sentimentos reprimidos nos mostram como era difícil ser uma mulher naquela época, e como ainda é. Vemos, também, como Hollywood sugava, até a última gota, os vulneráveis. Como pano de fundo temos a segunda guerra e a ditadura de Vargas. O livro nos mostras os altos e baixos de uma história emocionante que traz personagens icônicos como a Madame Satã.

Desabafo de uma jovem escritora, ou, como comecei a escrever

Eu escrevo. Sempre escrevi. Quando tinha doze anos eu escrevia um blog sobre as gêmeas Olsen, meu icone máximo. Depois passei a escrever sobre moda. Eu amava moda, achava que poderia mudar o mundo com ela. Meu sonho era ser jornalista de moda. À la Suzy Menks, nunca Anna Wintour. Ou estilista. Então, escolhi, feliz, Design de Moda como faculdade. Porém, descobri na moda brasileira um ctrl-c, ctrl-v, que variava de acordo com o mercado. Uma emaranhado de possibilidades barradas e falta de criatividade. Enquanto estava entre empregos que não gostava, abria páginas no Word decidida a escrever um livro. Isso demorou para acontecer. Foi no final de 2018, lutando contra a depressão que deixei a moda de lado, com um dinheiro guardado decidi morar fora para reconhecer minha cidadania italiana, outro sonho antigo. No período em que fiquei na casa dos meus pais, esperando a documentação ficar pronta, encontrei uma oficina gratuita de escrita criativa. Minha mente explodiu. Comecei a escrever ficção. As palavras saiam com tanta fluidez. Meu deus!. Eu consigo fazer isso, pensei. Eu vou fazer isso, pensei. Comecei com contos. Depois poesias, expelidas de mim em meio a incertezas. Iniciei um romance. Fui morar fora. Continuei a escrever. Voltei, já querendo voltar, talvez para Dublin, ou Berlim. Fiz um curso de formação de Sommelier de cerveja para encontrar emprego com mais facilidade quando voltasse. Pandemia. Fiquei presa no Brasil e decidi me dedicar ao meu livro e as minhas leituras. Criei este Instagram. Terminei o livro que havia começado em 2019. Comecei a pós. A vida continua e o resto vocês verão aqui.