O chapéu de palha da minha avó – Uma mini memória

Olho para uma foto instantânea que foi tirada na praia do Arpoador alguns anos atrás. Visto uma camisa rosa clara que tinha sido comprada em um brechó de Paris, alguns anos antes da foto. Paguei 1 euro, quando o euro ainda não custava 4 reais. Eu amo essa camisa. Estava de maiô, um óculos Ray-ban redondo e um chapéu de palha que foi da minha avó. Lembro de estar no apartamento dela, no quarto extra, nunca na sala, onde minha prima, meu irmão e eu passávamos o dia assistindo televisão e brincando. Atrás da porta tinha três ganchos, ou era apenas um?, com o chapéu de palha pendurado. Achava ele lindo, era redondo e tinha uma aba longa, além disso, uma fita preta o contornava.

Ele foi parar na minha casa. Lembro de colocar o chapéu na minha cabeça todos os dias, ele ficava enorme e pinicava um pouquinho. Acho que pedi emprestado para minha avó e ela me deu. Usei por um bom tempo. Naquele dia, da foto na praia, o vento fazia o chapéu voar e cair na areia, aconteceu umas 4 vezes. Não era prático, então, parei de usar. Mas ainda tenho ele guardado, vira e mexe ainda pego e o coloco na minha cabeça, não fica mais tão grande assim. Agora ele tem um furo. Talvez, eu não tenha cuidado dele direito, mas continua lindo, continua importante. Minha avó não lembra mais do chapéu, nem de mim.

Quando minha avó lembrava, ela saia por aí com o chapéu e um óculos de sol com grau, retangular, como aqueles que voltaram à moda. Tenho esse óculos guardado também e pretendo colocar uma lente nova, sem grau. Minha avó baixinha e gordinha, com os cabelos pintados de preto sorrindo por aí com o chapéu de palha e o óculos de sol, em alguma viagem, talvez. Não sei se essa memória é real ou se produzi a partir de uma foto. As memórias são incertas, já não lembro como ela falava, nem sobre o que gostava de conversar. Lembro que ela tentou me ensinar a tocar piano, mas não dei muita bola. Ela me ensinou a costurar e isso eu aprendi.

As memórias se perdem, se modificavam. Os objetos — o chapéu de palha, o óculos retangular — ficam. Mas o que seriam deles sem as memórias? Seriam apenas células acumuladas e mortas que se entrelaçam. Os objetos só ganham significado quando colocamos sentimento neles.

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