Resenha: Água de barrela de Eliane Alves Cruz – A saga familiar que os leitores brasileiros precisam! Da Nigéria até o Rio de Janeiro.

Eliana Alves Cruz traz uma narrativa potente sobre seus antepassados. É mais de um século de história nessa belíssima saga familiar, que se inicia na Nigéria do século XIX e termina no Rio de Janeiro do século XXI. As memórias foram resgatadas com cuidado pela própria Eliana, que teve ajuda de sua tia Nunu, uma senhora de mais de 90 anos, diagnosticada com esquizofrenia. As memórias eram límpidas, como se ela ainda fosse uma menina. Eliana mais tarde descobriu que essas memórias combinavam com os relatos históricos, o que faz deste livro ainda mais verossímil.

Resenha- Água de barrela de Eliane Alves Cruz - A saga familiar que os leitores brasileiros precisam! Da Nigéria até o Rio de Janeiro.

Akin SangoKunle (Xangocunlé) foi sequestrado, ainda menino, em sua terra natal, o reino de Oiò, na atual Nigéria; junto de seu irmão, assassinado brutalmente pelos raptores; e a cunhada grávida, Ewà Oluwa. Eles passaram meses em condições insalubres em um navio negreiro, quando o tráfico de pessoas já tinha sido proibido pela coroa inglesa. No livro o tempo passa com grande velocidade e os acontecimentos históricos se entrelaçam a vida dessas pessoas que foram escravizadas, silenciadas, e brutalizadas, pelos brancos barões da região do Recôncavo Baiano: os Tosta, família influente e rica às custas do sangue negro. Alguns de seus membros eram amigos pessoais dos monarcas portugueses e fizeram parte tanto da monarquia, quanto da nova república.

Chegando ao Brasil, os dois foram escravizados no engenho de açúcar Nossa Senhora da Natividade. Lá conhecem pessoas que foram importantes na história de Eliana, como Umbelina e Das Dores, mãe e filha; e Isabel. Elas dão início a uma grande linhagem de mulheres incríveis. Akin é nomeado Firmino e Ewà se torna Helena, que logo dá à luz a Anolina. O bebe iria se tornar cozinheira da Casa Grande. Ela dá a luz a Martha, mas não sabemos como ela engravidou, o que era muito comum, pois o corpo da mulher negra era visto como um objeto no qual o “senhor” branco poderia usufruir à vontade.

Martha tem um futuro melhor, se casa com Adônis, foi o primeiro a ler e escrever (escondido, porque só assim poderia ter educação), filho de Das Dores. Eles tem duas filhas, Damiana, a primeira que teve uma educação formal; e Dodó que trabalhou exaustivamente com uma das herdeiras dos Tosta até a morte. Essas mulheres acreditavam, e estavam certas, que o estudo daria uma vida melhor para seus filhos e filhas. Fizeram o que puderam, com o pouco dinheiro da Barrela, para que eles se tornassem, advogados, juízes, jornalistas e pudessem enfim fazer parte de uma sociedade igualitária.

Eliana nos trouxe esse breve relato da longa história de sua família fazendo com que a gente nunca se esqueça da brutalidade e apagamento que as pessoas negras sofreram, e sofrem, para que a segregação, o embranquecimento e a opressão continuem ainda fortes.