Resenha de Enterre seus mortos: O melhor da literatura brasileira contemporânea!

Ana Paula Maia é um nome conhecido na literatura brasileira contemporânea, escreveu sete romances, dois que ganharam o Prêmio São Paulo de Literatura (Assim na terra como embaixo da terra em 2018, e Enterre seus mortos em 2019) e dois que pertencem a uma saga, a saga dos brutos. Ela também é roteirista, escreveu para o cinema e o teatro, e está com uma série em cartaz no Globo Play chamada Desalma.

O livro que escolhemos para fazer parte do Clube do livro Contemporâneas foi Enterre seus mortos. Uma narrativa seca e forte que conta a história de dois homens que trabalham como removedor de animais mortos na estrada. Esses corpos vão para um grande triturador fazendo com que os personagens presenciem a morte da maneira mais crua possível. Edgar Wilson (uma homenagem a Edgar Allan Poe) é um personagem recorrente na obra de Ana Paula Maia, ele é um homem simples que executa tarefas. Seu colega Tomás é um ex padre excomungado pela igreja católica. Aos poucos percebemos que eles lidam com a morte de maneiras diferentes.

“Não pressentir o mal não é sinônimo de que ele não existe ou desapareceu. São os opostos devidamente dosados que mantêm o sistema equilibrado e, assim, se o mal se ausentou, é provável que o bem também o tenha feito.” Página 43.

Em uma mistura de faroeste e romance policial os dois personagens estão inseridos em um não lugar, um espaço onde as coisas acontecem e ninguém vê. A religião domina a vida das pessoas que são largadas a própria sorte sem um aparelho social eficiente. E é assim que a história começa, Edgar Wilson encontra o corpo de uma mulher rodeado por urubus. Não podendo deixá-lo lá ele leva para o depósito em que trabalha. Espera pela polícia que demora para aparecer e no fim diz que não poderá fazer nada naquele momento.

Edgar e Tomás encontram outro corpo. Então, eles buscam dar um fim digno aos dois. Nessa busca eles se deparam com a corrupção, injustiças e acidentes. Fazendo com que a nossa indignação, em relação a tudo que acontece, só aumente. A leitura é seca e bem rápida, eu senti que lia um roteiro de uma série de suspense do Netflix, é uma narrativa muito visual. Ficamos em busca de saber o que acontecerá e a tensão vai aumentando aos poucos até o fim do livro. É necessário estômago forte para as cenas mais sangrentas, mas vale muito à pena como um todo.

Atos de coragem VS. inseguranças.

Atos de coragem e insegurança
Photo by Katrina Wright on Unsplash

Escrever é um ato solitário. Até o momento em que você dá um texto seu para alguém ler, você já deve ter escrito pelo menos umas 200 páginas. Para mim isso só acontece quando algo está finalizado ou em vias de. Até lá fico remoendo sozinha os defeitos e as qualidades dele. Isso quando tenho coragem de mostrar para alguém, a insegurança de que algo não está tão-bom-assim me consome. Acho que somos seres inseguros por natureza (no caso a natureza é a sociedade que nos fala que não somos boas o suficiente) e isso causa um estrago danado nos nossos projetos.

É tão fácil se comparar ao amiguinho que está dando certo na página ao lado, sem lembrar que “dar certo” é algo muito relativo. Na verdade, ouso dizer, que isso nem existe. Por exemplo: você pode estar fazendo um doutorado e nunca ter tido um trampo que desse um bom retorno financeiro; ou você pode estar nadando em grana sem ter alcançado níveis acadêmicos altos; você pode ter se tornado um escritora publicada com seu primeiro livro, mas não fez as viagens que sonhou; ou fez todas essas viagens e não publicou seu primeiro livro. A vida é feita de momentos temporais de escolhas e vontades. Tudo pode mudar, até seus gostos e profissões.

A insegurança nos impede de ver as coisas que já alcançamos. Achamos que podemos perder tudo quando algo não acontece como queremos. Eu terminei de escrever um romance sem nunca ter tido educação universitária em comunicações ou letras, e isso é uma coisa gigante para mim. São 218 páginas que eu escrevi sozinha. Mas, eu ainda estou insegura em colocar ele no mundo, prevejo críticas e tenho medo que isso abale a escritora que existe dentro de mim. Como vou saber o que pode acontecer sem deixar que leiam?

Para toda insegurança existe um “leap of faith”* que precisa ser saltado. Então, dentro de algumas semanas meu livro estará no ar na plataforma Kindle e em mim existe uma combinação de friozinho na barriga com um leve enjoo, que só vai passar depois desse grande ato de coragem.

*salto de fé

5 motivos para ler mais mulheres hoje!

As privações relegadas ao sexo feminino sempre foram muitas. Não tínhamos educação formal, poder econômico, nem liberdade de escolha. Quando colocamos as questões de raça e classe as coisas pioram. Até pouco tempo atrás as mulheres eram consideradas inferiores em vários aspectos. Em 115 anos de prêmio Nobel, apenas 13 mulheres foram vencedoras. Nos 60 anos do Jabuti, só 19,9% dos 84 vencedores na categoria romance foram mulheres. E essa discrepância continua.

O machismo no mundo literário existe. Como podemos acabar com isso?

1. Por que tão poucos homens leem livros escritos por mulheres?

Segundo o The Guardian existe uma relutância do público masculino ao ler escritoras mulheres. Uma pesquisa demostrou que das 10 escritoras bestsellers apenas 19% de seu público era masculino. Em comparação aos escritores, 55% eram masculinos. O que explica isso? Eu acredito que ainda nos veem como inferiores e que nossa produção intelectual é desnecessária.

2. Os prêmios que as mulheres não recebem!

Ainda segundo o The Guardian a novelista Kamila Shamsie, que já foi jurada em alguns concursos testemunhou essa assimetria. “Mulheres juradas escolhem livros dos dois sexos, já os jurados, na maioria das vezes, escolhem livros de outros homens”. Veja, por exemplo no Brasil, o concurso de literatura do SESC só escolhe homens há anos. Ou seja, quando entramos em uma competição já estamos em desvantagem.

3. As desculpas que os homens dão!

Muitos dirão: “Se o livro daquela mulher fosse bom teria se tornado um clássico”, ou “Não me importo com o gênero quando escolho um livro para ler”. Esse discurso demonstra uma falta de conhecimento histórico e um pouco de misoginia. Levantando uma outra questão: “Será que grandes clássicos escritos por homens seriam tão clássicos assim se fossem escritos por mulheres?”. Eu duvido.

4. Os pseudônimos que são uma necessidade!

Imagina como não era terrível ter que se esconder atrás de um nome masculino para ser aceita intelectualmente. As irmãs Brönte se tornaram os irmãos Bell; Mary Ann Evans se tornou George Eliot; Colette teve que assinar com o nome do marido, Willy. Assim como Mary Shelley, que assinava apenas como Shelley, o marido. Mulheres que ousavam usar seu próprio nome eram duramente criticadas. Até os dias de hoje elas tem que esconder seu nome feminino para serem aceitas, como J.K Rowling, que foi orientada a esconder o Joanne, e N.K Jemisin, que escondeu o Nora.

5. Criando uma voz própria

Considerando tudo isso podemos dizer que as narrativa escritas por homens definem uma realidade universal feita por eles, homem branco e hétero. Que nem de longe é realidade de todos. E tudo que está fora disso é considerado um nicho. Como metade da população pode ser considerada um nicho? Os livros escritos por mulheres também podem uma verdade universal para nós. Quando lemos mulheres podemos encontrar nossa própria voz na voz de nossas irmãs que escrevem. E isso é extremamente importante.

Resenha de O peso do pássaro morto – Aline Bei na sua estréia na literatura brasileira

Pegue tudo que você sabe sobre prosa e jogue fora. Uma nova era dentro da literatura brasileira está começando. Aline Bei chegou devagarinho dentro de uma editora pequena a Nós e se destacou, não só pelo seu carisma e coragem, mas pela sua narrativa diferentona e bonita. Ela passeia pelo teatro e pela literatura e isso está estampado no seu livro de estreia, que foi escrito em versos, como um grande poema em prosa.

O peso do pássaro morto ganhou o Prêmio São Paulo de literatura de 2018, na categoria melhor romance de autor com menos de 40 anos.

Aline Bei trouxe força para a literatura brasileira contemporânea.

O livro pode ser lido em um dia, apesar dos temas fortes a leitura é fácil. Conhecemos uma personagem sem nome que poderia ser qualquer uma de nós. Uma menina, sonhadora, curiosa que está descobrindo o mundo e como ele funciona. Porém, como na vida de qualquer mulher, esse descobrimento não será fácil. Logo na infância ela perde pessoas próximas e queridas, importantes no seu dia a dia. A personagem amadurece através do tempo e a autora traz fragmentos de sua vida da idade dos 8 até os 52 anos.

Na adolescência, em meio a descobertas ela sofre uma violência que empaca seu crescimento. Acho interessante apontar o modo como essas situações tão doloridas afetam para sempre a vida de alguém que sofreu a violência. A personagem tem muita dificuldade de se relacionar com outras pessoas, ela virou uma casca. Viu o filho crescer e não se conectou com ele, viu a vida passar sem se jogar. Ela perdeu os sonhos, as vivências, as relações naquela fatídica noite, e sabe disso. Ela sente dor, ela sofre, mas sempre sozinha.

Esse livro nos mostra que aquela mulher somos todos nós, os traumas passam de geração em geração até termos um respaldo para quebrar esse ciclo de dor. Mas isso não é fácil. Aline Bei é sensacional colocando isso no papel. O peso do pássaro morto é um livro que recomendo a todos.

Quem foi Patrícia Galvão a.k.a Pagu – Greves, prisões, torturas, modernismo.

Pagu foi muitas coisas, primeiro uma mulher à frente do seu tempo que tinha sido criada no seio de uma família tradicional, feita para casar e ter filhos. não aceitou essa condição, isso um século atrás, quando a mulher ainda não podia votar, ter conta em banco, nem viajar sem autorização do marido. Ela foi uma grande ativista comunista em uma época de intensa perseguição. Aos 14 engravidou e fez um aborto. Aos 15 começou a trabalhar como jornalista com um pseudônimo, profissão que a acompanharia para sempre. Aos 19 já contribuía para a revista Antropofágica. Enfim, esse é só o começo de uma vida agitada.

TRIÂNGULO AMOROSO DO MODERNISMO

Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral eram o grande casal do Modernismo brasileiro. Porém, tudo mudou quando uma jovenzinha de 18 anos se juntou a eles. Pagu que já trabalhava como jornalista passou a colaborar com a revista Antropofagia. O casal ficou encantado com a moça mas foi ele, Oswald, que decidiu se separar para se casar com Pagu. Foi um escândalo, Tarsila ficou arrasada, assim como a sociedade paulistana. O casal não estava nem aí, se uniram em uma cerimônia pra lá de excêntrica no Cemitério da Consolação, em São Paulo, em 30. Tiveram um filho e ficaram juntos até 34. Terminaram devido as constantes traições do escritor. Pagu, desquitada, foi morar sozinha com o filho, outro escândalo.

PARQUE INDUSTRIAL

Seu primeiro livro foi publicado em 1933: Parque industrial, o primeiro romance proletário brasileiro. Nessa época ela deixou o jornalismo de lado e foi trabalhar no chão de fábrica. Em tons de roteiro Pagu, com o pseudônimo Mara Lobo, conta a história de um grupo de pessoas que trabalha nas fábricas do Brás, estudantes e pessoas da elite. As histórias se entrelaçam e se tornam até caricatas na grande e importante critica que Pagu faz da sociedade paulista. Ela consegue expor temas muito fortes, como violências, desigualdades, descasos, de maneira crua e sincera.

PRISÕES E TORTURAS

Sua primeira prisão aconteceu quando ela estava no meio de uma greve de estivadores em Santos. Naquele mesmo dia enfrentou a cavalaria para proteger o corpo de um companheiro. Pagu participou ativamente do Partido Comunista Brasileiro e foi perseguida, principalmente, depois do levante armado de Prestes em 35. Nessa ocasião foi presa e torturada por dias, isso a levou a depressão e a uma tentativa de suicídio. Ela rompeu com o partido comunista para seguir a linha trotskista. Foi presa pelo menos 23 vezes.

GRANDES VIAGENS

Podemos dizer que Pagu se jogou no mundo. Deixou o filho com Oswald (escândalo) e foi para China, onde dizem ter ficado muito amiga do último imperador chinês. Dele ganhou sementes de soja, e foi assim que a soja foi introduzida no Brasil. Depois disso ela fez a rota de trem transiberiano (meu sonho) e entrou na Europa. Filiada ao Partido Comunista Francês foi presa algumas vezes em Paris por ser uma agitadora e deportada.

TEATRO E ARTES

Depois das torturas ela se casa pela segunda vez e tem seu segundo filho. Volta a trabalhar com jornalismo, e estuda artes cênicas. A família se muda para Santos e lá ela coordena Teatro Universitário Santista e assume a presidência da União dos Teatros Amadores da cidade. Se torna colunista sobre teatro em um jornal local e dirige algumas peças, como Fando e Lis, que recebeu vários prêmios. Além disso ela se tornou patrona da arte na região, escrevendo críticas nos jornais, onde viveu até sua morte em 62 de um câncer no pulmão.

Resenha de Apague a luz se for chorar – Literatura brasileira contemporânea

Uma das belezas do Clube do Livro Contemporâneas é conhecer novas escritoras brasileiras. No mês de julho lemos um livro de Fabiane Guimarães chamado Apague a luz se for chorar. O livro, que foi sua primeira publicação formal, traz a história de Cecília e João, dois jovens veterinários que trabalham com eutanásia de animais na zoonoses de Brasilia. A vida dos dois não se entrelaçam ao longo da narrativa, elas se intercalam até o final, um capítulo dedicado a Cecília e um ao João.

Cecília foi uma criança que morria de medo da morte iminente dos pais, que eram mais velhos do que a maioria. Além disso eles eram super protetores e financeiramente estáveis. Buscando sua independência emocional e financeira, mesmo estando desempregada, fugiu de Brasilia, cidade dos pais, depois de terminar um casamento porque foi traída. No meio dessa confusão de sentimentos ela recebeu a notícia de que os pais morreram juntos. Tentando processar o que aconteceu ela descobre que eles receberam a visita de um homem misterioso. Logo depois ela conhece Caio, um meio irmão perdido que busca se aproximar dela. É nesse emaranhado paranóias que ela passa a desconfiar de Caio, o suspense se instala e nós entramos na mente de Cecília.

João tem uma vida completamente diferente, ele sustenta a si e seu filho Adam, que tem paralisia cerebral. A criança foi fruto de uma traição e a mãe abandonou ele com o pai. Aos olhos de fora ele é o pai ideal, lindo e que ama seu filho. As mulheres ficam loucas atrás dele. Mas nós leitoras sabemos que ele não é perfeito. Ele tem muita dificuldade de se relacionar com o menino e o deixa aos cuidados de dona Faustina, a baba. Apesar disso ele tem uma meta: juntar dinheiro para levar Adam para China em busca de um tratamento experimental. Nesse processo ele terá atitudes cômicas e também tristes.

O livro inteiro é permeado pelo cuidado que os personagens tem a seus familiares e a busca por independência e crescimento pessoal, mesmo que eles não percebam isso. O suspense está entrelaçado no texto e isso me fez querer saber sempre mais. Li o livro em duas noites e me surpreendeu positivamente. Acho incrível como as narrativas contemporâneas tem o poder de conversar conosco de uma forma tão clara. Esse livro é isso, cada pessoa que o lê pode se identificar de alguma maneira em algum aspecto. E eu acho isso lindo.