10 DICAS DE COMO ESCREVER UM PERSONAGEM COMPLEXO | Como criar personagens profundos?

Uma das maiores dificuldades que eu como escritora passei é criar personagens fortes, que prendam a atenção das pessoas que estão lendo a história. Como Assis Brasil disse quem move a história é o personagem, então por isso eu trouxe algumas dicas para você não ficar mais em dúvida na hora de criar eles. Vamos lá?

O personagem é a alma da história, é com ele que as pessoas vão se identificar. Ele pode ser um vilão, um herói, alguém super ingênuo, ou cruel. Ele pode ser qualquer coisa que você quiser, de verdade, e se você colocar as dicas que eu vou dar aqui nesse artigo em prática, ele vai se transformar em alguém profundo e interessante, podendo ser querido ou odiado, do jeito que você quiser. Claro, que você não precisa colocar todas essas dicas em sua história, mas é bom saber que existe uma infinidade de características para transformar seus personagens em pessoas reais. Eu quero que você tenha controle sobre o que vai estar ou não na sua história, para você escolher o que faz mais sentido pra você.

De qualquer forma sempre vai existir os personagens planos e os redondos, como dizem nos livros sobre escrita, você pode escolher que cara dar para esse personagem, você quer que ele seja mais complexo? Ou mais simples? O que você quer mostrar com cada um deles? Não existe uma fórmula mágica, você tem que colocar os ingredientes que fazem mais sentido para você.

Enfim, vamos para as 10 dicas de como escrever um personagem complexo e profundo?

1) Características físicas

O primeiro passo para definir seu personagem é olhando pra ele do lado de fora. Qual é a cor de sua pele, seu formato físico, a cor do seu cabelo, porque todas essas coisas podem influenciar o seu “eu” interior. Então, você pode criar uma imagem mental dele, definindo quais tipos de roupa esse personagem usa, se ele tem furos na orelha, se ele tem tatuagens, se ele precisa de óculos. Você não precisa deixar todas essas informações claras na história, mas é muito importante que você consiga visualizar ele com força na sua imaginação. O modo como o corpo do personagem fala, diz muito sobre quem ele é. 

Eu escrevi a história de uma personagem que se preocupava muito com sua aparência física, ela mantinha uma dieta rígida e malhava todos os dias na academia. Ela tinha o corpo perfeito aos olhos de fora, mas por dentro ele escondia todas as cobranças que sua mãe tinha feito em relação ao seu peso quando ela era uma criança. E ao longo da história, enquanto ela se libertava dessas cobranças maternas e sociais, seu corpo foi mudando, ele criou mais curvas e ela já não se preocupava com elas. Enfim, esse é um exemplo de como o corpo pode contar uma história. 

2) Desejos e objetivos

Acredito que todas as pessoas tem desejos na vida, existe algo ali que elas almejam. Algumas pessoas criam objetivos para alcançar esses desejos, outras estão presas em ciclos e não conseguem visualizar com clareza aquilo que elas querem. Então, os desejos e objetivos podem ser algo bem claro, que está presente na vida da pessoa e ela segue essas vontades concretamente, ou pode ser apenas um incômodo do desejo não realizado que não é externado. O desejo do personagem é o que faz ele ser quem é e é o que movimenta a trama, até a falta de desejo diz muito sobre quem o personagem é. Isso se relaciona também com a profissão do personagem e quais são suas vontades em relação as conquistas pessoais e financeiras.

3) Hobbies e interesses

Acho que essas coisas se aproximam muito dos desejos e objetivos, mas acredito que os hobbies e interesses são aquilo que as pessoas fazem em seu tempo livre. O que elas fazem apenas por prazer? Por que esses hobbies são importantes para os personagens? Pode ser algo artístico, como fotografar com câmeras analógicas (esse é o meu hobbie), pode ser tocar algum instrumento. Pode estar relacionado a educação também, o personagem pode adorar aprender sobre o império Otamano, ou quer muito aprender uma nova língua. Os hobbies podem estar relacionados a esportes, a amizades. E esses interesses e paixões dizem muito sobre a personalidade do personagem.

4) O que ele mostra e o que ele esconde

Esse é um ponto muito interessante porque sempre me lembro que todos temos algo que escondemos e coisas que mostramos. Isso é super comum, nossos defeitos são escondidos muitas vezes como algo vergonhoso e nossas qualidades podem ser aumentadas. O que os personagens vão mostrar ao mundo e o que eles sentem podem ser coisas completamente diferentes, nossas palavras passam pelo filtro do eu. As palavras são projeções daquilo que queremos passar, assim como nossas roupas e nosso modo de se portar. Acho que aqui entra também o que chamamos de comunicação não verbal, os gestos e as atitudes do personagem. E podemos mostrar um pouco os defeitos dele e como ele gere essas frustrações em relação si mesmo.

5) Contradições

Depois disso a gente entra nas contradições, por exemplo, o personagem pode querer muito uma coisa e fazer outra. Ele pode pensar de modo muito crítico sobre alguém e ao mesmo tempo elogiar essa pessoa para um terceiro. Aqui nós podemos trazer ambiguidades entre o que o personagem pensa e o que ele faz. As contradições aparecem porque somos seres complexos, vivendo uma vida cheia de altos e baixos, e temos que fazer escolhas por mais difícil que essas escolhas sejam. Então coloque pequenas contradições na vida e pensamento do seu personagem. 

6) Especificidades

Eu adoro esse termo, porque acho que as especificidades são as coisas mais importantes em uma história. Sabe aquela pequena coisa que dá o tom para todo o texto? Por exemplo a sua personagem é advogada, mas você não vai dizer só isso, que ela é advogada, você vai dizer que ela é uma advogada trabalhista que trabalha em um escritório onde eles auxiliam empregados de fábricas. Entende? Você vai sempre além da superficialidade. Vou dar mais um exemplo: a sua personagem não gosta apenas de fotografia, ela sai para fotografar com uma Leica que herdou da avó e revela seu próprio filme em casa. Eu sempre falo que são essas pequenas coisas que dão vida para o seu personagem.

7) Mundo interno

Isso traz características interessantes também. Saber o que o personagem pensa e como ele vê o mundo dá um toque especial para história. O mundo interno de cada pessoa é diferente, porque cada pessoa teve suas próprias experiências e carrega diversos tipos de referências, que podem ser tanto musical, quanto estéticas quanto de valores pessoais. O mundo interno carrega muita coisa, desde acontecimentos na infância, até pequenas coisas do dia a dia, aqui podemos enxergar como o personagem encara o mundo com o filtro dessas referências e como ele imagina a própria vida.

8) A sombra

Claro, ninguém é perfeito, o seu personagem vai carregar as coisas que estão escondidas dentro dele, aquilo que ele não quer mostrar de jeito nenhum. Aí a gente volta ali para a quarta dica aquilo que o personagem mostra ou esconde, mas aqui o que ele esconde é de um modo muito intenso, no caso da sombra não é apenas alguma esquisitice que o personagem tem vergonha, é algo muito mais profundo, muito mais difícil de lidar, é algo que vai além da aparência física, do externo, sabe? É algo que está escondido e o personagem não vai querer mostrar para ninguém. Ele pode ou não ter consciência dessa sombra, pode ser uma coisa muito arraigada dentro de si.

9) Crenças

E as crenças englobam tudo que ele acredita como pessoa, não só sua religião, que claro também pode ser assinalada. Mas aqui entra seus valores, o que ele julga certo e errado, como ele vê a moralidade, o que ele acredita da vida enquanto um ser social. Muitas vezes as crenças podem ser limitantes, então, é muito interessante colocar o personagem em confronto com suas próprias crenças. Elas podem vir do lar em que o personagem cresceu, como eram seus pais e no que eles acreditavam e qual era visão de mundo da família ou da comunidade que o personagem estava inserido. As crenças muitas vezes ditam as atitudes e pensamentos do personagem.

10) Percepção de si 

Como esse personagem se vê em comparação ao que os outros vem dele? qual é a percepção que ele tem de si mesmo? Isso é interessante pois muitas vezes ele pode ter uma ideia exagerada de seus defeitos, e não ver qualidades em si próprio, e ao contrário é muito comum também, ele pode se ver como uma pessoa incrível e sem defeitos. Você tem que se perguntar, o que o personagem vê quando se olha no espelho? Ele é feliz com sua aparência física? Ele gosta do que tem dentro de si mesmo? 

Enfim, isso é muito importante porque traz ambiguidade e complexidade para o personagem. 

Essas foram as 10 camadas de complexidade que você pode estudar e pensar para criar um personagem forte e interessante que vai caminhar junto com a história.

Você sente falta de alguma camada? Me conta nos comentários! E me conta também se vídeo foi útil para você.

O COPO VAZIO DE NATALIA TIMERMAN | Resenha do livro que fala sobre Ghosting e relações líquidas!

Mirela, uma mulher de 32 anos sofreu pelo desaparecimento do cara que ela estava ficando. E não foi um desaparecimento de filme de terror não, ele apenas nunca mais respondeu suas mensagens, e acabou com todo o contato que eles tinham do dia para noite.

Copo vazio foi o segundo livro que lemos no Clube do Livro Contemporâneas nesse ano, o primeiro foi Primeiro eu tive que morrer da Lorena Portela. O nosso livro de fevereiro foi escrito pela Natalia Timerman, uma psiquiatra e psicoterapeuta paulistana. A mulher tem um currículo extenso, e por coincidência ela fez a mesma formação de escritores que eu lá no Instituto Vera Cruz. Se um dia eu escrever um livro tão potente quanto o dela eu vou ficar muito feliz.

Seu primeiro livro foi Desterros – Historias de Um Hospital-Prisão onde ela conta a história de detentos e funcionários que passaram pelo sistema carcerário paulistano enquanto ela trabalhava no Centro Hospitalar do Carandiru. Seu segundo livro Rachaduras foi lançado em 2019, é uma coletânea de contos indicada ao Jabuti.

Em 2021 ela lançou seu primeiro romance Copo Vazio que saiu pela editora Todavia. Foi o maior burburinho em volta desse livro ano passado né? Muita gente leu e comentou e é interessante refletir sobre o porque desse livro ter feito tanto sucesso. E eu vou dar minha opinião aqui, antes de entrar na resenha: Acredito que seja porque muitas mulheres já passaram pela mesma situação que Mirela.

Mirela é uma arquiteta de 32 anos, ela conhece Pedro, um homem que parece ser tudo que ela sempre quis. A história começa no futuro, quando Mirela já bem mais velha encontra Pedro em um supermercado. Assim ela relembra seus dias ao lado dele, os dias que se passaram depois de seu sumiço e tudo que ela viveu sofrendo por ele.

Eles se conheceram em um aplicativo de namoro, saíram algumas vezes e as coisas foram ficando intensas, pelo menos do ponto de vista da Mirela. Aos poucos vamos descobrindo qual era a natureza da relação dos dois e como as coisas entre eles foram desenvolvendo, em uma narrativa eletrizante que te prende até o final. O livro fala sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá imaginando o que aconteceu.

É incrível como a Natália conseguiu representar muito bem a vulnerabilidade feminina e as inseguranças que temos em relação aos relacionamentos. Para Mirela o relacionamento está caminhando para algo a mais, Pedro também parece estar envolvido e a todo momento ficamos procurando pistas de sua fuga próxima. Ele não dá certeza nenhuma para ela, e foi por isso que ela encheu seus pensamentos de projeções do que poderia ser essa relação.

Ele dá corda, até chama ela para viajar com ele para visitar sua avó. Ele alimenta as expectativas dela mesmo não estando tão afim assim, e depois ele some, sem dar explicações, sem terminar, sem nada, ele apenas some. Mirela manda mensagens e ele não responde, então, ela começa a entrar em um redemoinho de inseguranças e incertezas que mechem com sua autoestima. Mirela sofre por ele e essa perda afeta seu trabalho e seus relacionamentos mais próximos. E os futuros. A carência afetiva se intensificou pela ansiedade que o sumiço dele causou.

Na minha opinião o que Pedro fez foi cruel, por mais que eles não tivessem em um relacionamento, faltou responsabilidade afetiva. Eles se viram com frequência por 3 meses, eles conversavam constantemente, e já estavam envolvidos com os amigos um do outro. Ele poderia ter sido mais sincero ao invés de deixar ela assim. De qualquer forma as atitudes de Pedro sempre eram ambíguas, inclusive depois do sumiço, ele ainda orbitava na vida da Mirela, curtindo fotos, causando uma ansiedade extrema nela.

Esse livro é importante para abrir nossos olhos em relação a algumas atitudes masculinas extremamente tóxicas, como a falta de responsabilidade afetiva e a certeza de que eles tem de que podem tratas as mulheres da maneira que quiserem. Outra coisa que esse livro nos mostra é que isso pode acontecer com qualquer uma de nós e já aconteceu diversas vezes, muitas meninas do clube tinham histórias muito similares e diziam ter passado por coisas muito parecidas.

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Enfim, eu gostei muito desse livro, a Natália escreve muito bem. Ela vai entregando a história aos poucos. Cada capítulo é uma surpresa, pois ela intercala o passado e o presente da personagem, ao estilo durante e depois, sabe? Durante o relacionamento e depois do relacionamento. Foi muito interessante ver a escalada e a transformação ao nada desse relacionamento cruel.