A PEDIATRA DE ANDREA DEL FUEGO | Resenha de um livro impactante sobre a medicina e padrões de gênero

A Campainha das Letras me mandou esse e-book ano passado e eu lembro do enorme burburinho que ele causou lá no bookstagram quando foi lançado. A narrativa é estimulante e muitas vezes absurda. Carrega temas muito importantes como a quebra dos padrões de gênero e a visão da maternidade.

Lemos a pediatra no Clube do livro Contemporâneas, que é um espaço de trocas sobre literatura e sobre a vida, em março. Minhas últimas resenhas foram de livros que lemos lá no clubinho, você encontra elas aqui.

Um dos livros votados foi A pediatra da Andrea del Fuego. Ela tem um nome super forte né? E também tem uma carreia extensa na literatura. Seu primeiro romance, Os Malaquias, venceu o premio José Saramago. Isso foi lá em 2011, dez anos e algumas publicações depois, em 2021 ela lança A pediatra, e eu ouvi falar que ela escreveu esse livro em um mês!

Resenha de A pediatra de Andrea del Fuego – Um dos livros escritos por mulheres da literatura brasileira contemporânea mais legais que lemos!

Essa pediatra tem nome, ela se chama Cecília, uma mulher muito obstinada, egocêntrica e totalmente pragmática, ela se passa por uma vilã canalha, o que eu acho curioso pois toda a sua personalidade tem características que nossa sociedade considera masculinas. Ou seja, quando um homem age como ela costuma agir ele não é tão julgado quanto a Cecília foi. Por que ela foge do padrão da “feminilidade” adocicado e sentimental.

Vou destrinchar a personalidade aqui para você entender melhor sobre o que estou falando:

Ela é casada, mas tem um amante, o marido sofre de depressão e ela deixa bem claro que não vai ser cuidadora de ninguém. O amante tem uma esposa grávida e ele indica Cecília para ser a neonatologista do bebê. Para quem não sabe neonatologistas cuidam de bebes recém nascidos (estou dizendo porque eu mesma não sabia disso), principalmente durante o parto. Logo após o nascimento de Bruninho, eles se pegam em uma salinha do o hospital, enquanto a mulher ainda está na sala de parto.

O amante se chama Celso, e ele termina com ela logo após o nascimento do bebe Bruninho. Eles ficam um ano longe mais ou menos, pois ele morava em outra cidade. Quando a mulher está esperando o segundo filho eles se mudam para São Paulo, e eu acredito que foi por causa de Cecília. Os amantes retomam a relação. Cecília começa a se afeiçoar por Bruninho e muita confusão acontece por conta desse relacionamento confuso. Bom, para você saber tem que ler o livro, pois é cada bizarrice que essa mulher faz que você não vai acreditar.

Ela é sozinha, o marido foi embora e ela vive apenas com sua empregada, que está grávida. Cecília odeia crianças e está certa de que nunca será mãe. Seus pacientes são tratados sem nenhum afeto ou consideração, ela não suporta o desespero das mães, e até despreza elas. Cecília cresceu com um pai pediatra e uma mãe enfermeira, e é curioso que sua relação com o pai é muito mais próxima do que com a mãe. Do pai ela herdou a profissão e um posto na sociedade. Ela tem consciência disso e diz que faz o que faz apenas de modo protocolar sem nenhum entusiasmo.

Sinto que tem um grande vazio dentro dela que ela preenche com paranóias de que todas as pessoas são inferiores a ela. Mas também tem pequenas amostras de uma sociopatia em sua personalidade, que faz ela perseguir e intimidar as pessoas. Sim, ela é também uma perseguidora. Uma stalker.

O livro também entra em uma discussão interessante sobre o parto humanizado em banheira em casa, algo que Cecília é extremamente contra. Além de retratar com crueza o trabalho de parto e todas as suas consequências, confesso que eu que já tinha medo de engravidar fiquei com mais ainda, então deixo um alerta aqui, esse livro pode conter gatilhos para mulheres grávidas.

A relação de Cecília com Deise sua empregada também é permeada de uma superioridade paternalista que incomoda muito. Como eu já disse Deise está grávida e Cecília não suporta a ideia de uma mulher grávida em sua casa, ou uma possível criança. Além disso Cecília entra em um emaranhado de julgamentos e acredita que todas as pessoas ao seu redor são horríveis. É muito interessante ler esse livro desse modo, pois, por ser escrito em primeira pessoa nós só sabemos sobre os personagens (o Celso, a Deise, o Robson, que pai do filho da Deise, os pais de Cecília) pelo filtro deturpado da mente dela.

Esse livro é um retrato de uma mente perturbada, interessante e que quebra os padrões de gênero, que esperam que mulheres sejam sempre emocionais e dóceis. Também escancara os pensamentos de uma médica protocolar que não escolheu seguir a medicina por amar ajudar as pessoas e sim por um bom salário, ou porque foi imposto pela sociedade.

Você vai se irritar com esse livro mas também pode amar. Eu li super rápido e achei muito interessante.

Essa foi mais uma dica de livros escritos por mulheres que trouxe aqui! A pediatra é um bom livro.

Espero que goste! Me conta nos comentários o que achou!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: