Simone de Beauvoir: Uma vida – de Kate Kirkpatrick | Resenha da biografia do ícone feminista e escritora do século 20!

A vida de Simone de Beauvoir é um retrato claro da posição da mulher na sociedade. Ela teve uma carreira brilhante, passou pelos exames de filosofia mais difíceis da França, estudou e leu muito. Até hoje ela é lembrada como a seguidora de Sartre, a mulher que esteve ao seu lado toda a vida e que reproduziu suas ideias. Mas a vida de Simone de Beauvoir vai muito além de seu relacionamento com Sartre. Ela foi uma intelectual prolífica, amou muitas pessoas e foi uma feminista engajada.

Kate Kirkpatrick

A biógrafa Kate Kirkpatrick nos mostra isso na biografia Simone de Beauvoir: Uma vida. Hoje vou fazer uma resenha sobre esse livro!

Eu não poderia começar essa resenha sem antes comentar a vida e obra de Kate Kirkpatrick, que é professora da Kings College em Londres. Em entrevista para Quatro cinco um ela disse que não tinha ambições de escrever uma biografia, ela é uma filósofa e pesquisadora de Jean-Paul Sartre, e acreditava que para estudar a filosofia dele deveria entender o contexto intelectual francês no qual ele estava inserido. Então, lia Simone Beauvoir, e fez um estudo detalhado das cartas que os dois trocaram quando eram jovens.

Kirkpatrick também analisou as cartas que Beauvoir trocava com seus amantes e amigos, ela também estudou afundo os diários de Simone. Para assim entender qual eram as nuances de seus relacionamentos e estudos. Escreveu de forma lúcida sobre a vida da moça bem comportada que se tornou ícone, odiada pela maioria que insiste em não entender a sua obra, mas aclamada por mulheres que se sentiram representadas por seus livros.

“Em conversa em um café em Londres, Kirkpatrick explicou, de maneira clara e contundente, que a razão principal que a levou a escrever Simone de Beauvoir: uma vida (Crítica/Planeta) foi a confirmação, através de um cuidadoso estudo de diários e cartas de Beauvoir que foram publicados recentemente, de uma suspeita que tinha havia anos: a maneira como Beauvoir foi retratada ao longo da história, inclusive em biografias anteriores, não fazia jus à sua contribuição à filosofia ocidental.”

Mariana Schiller para a Quatro cinco um.

Em dezessete capítulos Kirkpatrick traz a vida de Simone, e revela as discordâncias entre suas cartas e autobiografias. Conta sobre os relacionamentos nunca mencionados por Simone em seus textos autobiográficos. Desmente acusações inconcebíveis sobre seu posicionamento politico e sexual. E principalmente: mostra a Simone que deveria ser conhecida por todos, a filosofa dedicada, que tinha suas próprias opiniões e criticava com afinco a sociedade em que vivia.

Kirkpatrick também trouxe uma nova visão sobre o relacionamento de Simone e Sartre. Ela os coloca em uma relação de iguais e tira a centralidade dele de sua vida. Simone amou Sartre, mas não era um amor único e incondicional.

Sartre era o “amigo incomparável de seus pensamentos” como a Simone sempre dizia, mais que um relacionamento amoroso, eles tiveram uma bela amizade. Sartre deu diversas entrevistas onde dizia que Simone criticava todas as suas obras, e ele nunca publicava nada sem ela ter lido e comentado. Eles trabalharam juntos, na obra de ambos, e levavam em consideração a opinião um do outro. Por isso, eu acredito que não dá para falar sobre Sartre sem falar sobre Simone.

Simone amou muito! Teve diversos amantes, homens e mulheres, e acreditava na liberdade sexual e amorosa. Ela viveu apenas com um deles, Claude Lanzmann e o ajudou intelectualmente e financeiramente, ele era um intelectual judeu, e cineasta, seu primeiro filme sobre o holocausto foi financiado por Beauvoir. Ela respeitava as ideias de todos eles, que eram a família dela, e continuaram amigos para o resto da vida.

Entre os membros dessa família estão: Olga e Wanda Kosakiewicz, elas irmãs, e Simone teve um caso com Olga e Sartre com Wanda; Jacques-Laurent Bost, que teve um caso com Simone e Olga ao mesmo tempo, mas não juntos, e ele acabou se casando com Olga. Claude Lanzmann, que viveu com Simone no mesmo teto por anos. Bianca Lamblin, que apesar das polêmicas ficou ao lado de Simone, como amiga, para o resto da vida. Nathalie Sorokine que foi amante da Simone quando ambas eram jovens (Simone 27 e Nathalie 20). Sorokine se mudou para os Estados Unidos e abriu as portas de sua casa para Simone sempre que ela ia pra la. E Nelson Algren, que podemos dizer que foi o romance mais intenso de Simone, mesmo com um oceano de distância. O curioso é que Sartre nunca escreveu uma palavra ruim sobre Simone, mas Nelson sim, diversas vezes.

Mas ela se arrependeu de muitas coisas que fez em sua juventude, principalmente os relacionamentos com as alunas. Ela tinha 26/27 quando começou a ficar com alguma delas. Seu relacionamento com Sartre às vezes machucava as terceiras partes, principalmente quando ele resolvia seduzir as amantes de Simone, já que ele era um sedutor incontrolável. Então, com o passar dos anos ela refletiu sobre isso, sobre o amor, e sobre a liberdade. Simone foi uma mulher de reflexões, primeiro sobre a filosofia que lia incansavelmente, Hegel, Kierkegaard, Marx, Freud, Descartes e muitos outros. Depois sobre a condição da mulher na sociedade, e sofreu muitos ataques depois que sua obra O segundo sexo foi lançado. Ela era a bruxa, amarga que não sabia amar, e isso nos atravessa até os dias de hoje. A uma mulher não é permitido pensar, refletir e seguir uma vida de intelectual.

Além disso ela foi veemente contra a ocupação nazista, participou da resistência francesa contra a ocupação alemã, escreveu um livro inteiro sobre isso, Os mandarins. Acreditava que políticas progressistas de esquerda deveriam ser apoiadas, principalmente quando se referia as escolhas da mulher e do aborto. Foi para a União Soviética diversas vezes com o Sartre, já que ele tinha uma amante lá, e criticava as ambiguidades do regime comunista. Esteve no Brasil, na China, nos Estados Unidos, em Cuba e em muitos outros lugares, como já disse nos 50 fatos sobre a Simone, ela era uma viajante. Lutou contra a ocupação francesa na Argélia e no seus últimos anos apoiou diversas causas libertárias.

Recebeu cartas de mulheres que leram a sua obra e se identificaram. Essas mulheres queriam fugir de sua vida, porque quando jovens elas acreditavam que maternidade e o matrimonio seriam cheios de amor, mas que anos depois se viram sozinhas, e descobriam que não construíram nada de significativo e libertador. Simone respondia o máximo de cartas que conseguia e ao longo de sua vida escreveu sobre seus privilégios, sobre a velhice e sobre politica. Kate Kirkpatrick consegue resumir todos os anos de vida Simone de Beauvoir em 553 páginas, em uma narrativa que te prende e te estimula a ler cada vez mais até o fim do livro e da vida de Simone, que foi extremamente interessante e cheia de nuances, como as nossas.

Eu recomendo a leitura desse livro para você descobrir a vida dessa grande mulher!

50 FATOS SOBRE Simone de Beauvoir – Biografia, O Segundo Sexo, Os Mandarins, As Inseparáveis e mais!

Simone de Beauvoir foi uma pensadora muito importante para o século 20. Ela foi uma filósofa, uma escritora dedicada e uma estudiosa disciplinada. Ela questionou a sociedade em que vivia e quebrou diversos padrões de sua época, e levantou questões sobre a liberdade, o amor, o gênero e a sexualidade.

Simone de Beauvoir dando autógrafos no Brasil em 1960

Para fazer esse post eu li a Biografia dela escrita pela Kate Kirkpatrick, e ao longo dos anos eu li diversas obras da Simone de Beauvoir, como O Segundo Sexo, Os Mandarins, Mal-entendido em Moscou.

Também fiz um curso da revista Cult sobre a Simone com a Doutora em filosofia pela USP Juliana Oliva. Vocês viram que eu queria estar bem preparada pra fazer esse vídeo, né?

Dia 09 de janeiro foi o aniversário da Simone de Beauvoir que foi uma escritora e pensadora francesa.

Ela contribuiu não só para o pensamento feminista do século vinte mas também esteve na resistência francesa contra o nazismo em Paris. Foi uma intelectual extremamente culta e prolífica. Tem diversos livros, ensaios, textos jornalísticos públicados. Sua obra vai muito além de O Segundo Sexo, apesar de ser um livro importantíssimo tanto para a filosofia existêncialista, quanto para o movimento feminista que teria força mais de dez anos depois de seu lançamento.

Vi que tem muita desinformação sobre a Simone de Beauvoir na internet, então quis trazer 50 fatos sobre ela de fontes sólidas. Todas as fontes utilizadas para esse vídeo estão lá no fim do post, porque aqui a gente trabalha com fatos pesquisados e estudados.

Bora conhecer os 50 fatos sobre a Simone de Beauvoir?

  1. Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris, às 04 e meia da manhã no dia 09 de janeiro de 1908.
  2. Ela era filha de Georges Bertrand de Beauvoir um advogado que sonhava em ser ator e Françoise Brasseur, filha de um banqueiro bem sucedido, mas que nunca pagou o dote de Françoise porque perdeu tudo.
  3. Um dos antepassados aristocratas de Simone perdeu a cabeça na revolução francesa e depois disso as pretensões nobres da família perderam completamente a força.
  4. Ela e a irmã Hélène estudaram na Adéline Desir Institut, escola católica e privada exclusivamente para meninas.
  5. Desde nova ela já chamava a atenção de seus pais por seus estudos e inteligência. Ela sempre foi muito aplicada, era sempre a melhor da turma.
  6. Ela foi uma leitora precoce e devorava livro atrás de livro, e isso continuou ao longo de sua vida.
  7. Uma personagem literária que inspirou Simone na infância foi a Jo March de Little Women de Louisa May Alcott. Porque ela não queria se casar para seguir carreira literária.
  8. Teve uma infância rígida seguindo os moldes burgueses de uma mãe extremamente católica e um pai egoísta, preguiçoso e machista.
  9. Aos 9 anos Simone conhece a Zaza, Élisabeth Lacoin, que foi sua amiga mais próxima até a morte precoce de Zaza em 29. “As inseparáveis” livro recém lançado pela Record fala sobre essa amizade.
  10. Em 1925 ela foi aprovada no exame de acesso as universidades, de Matemática e Literatura, e licenciou-se nas duas matérias.
  11. Nesse período ela fez duas tentativas de escrita de um primeiro romance, mas nenhuma delas foi para frente. Seu sonho era ser escritora e colocar todas as suas perguntas filosóficas dentro da ficção.
  12. Ela também começou a trabalhar educando proletários do norte da França e depois no instituto em que estudou.
  13. Em 1927 ela obteve seu certificado em História, Filosofia, Filosofia geral e Grego na Sorbonne, ao lado de muitos outros pensadores que se tornariam famosos. Lembrando que as mulheres naquela época não tinham esse tipo de educação, elas nem podiam votar ou ter uma conta bancária.
  14. Foi nessa época que ela chegou a conclusão de que o casamento é “fundamentalmente imoral” já que ele é definido como algo eterno e as vontades podem mudar.
  15. O ano de 1929 foi de grande importância na vida da Simone. Ela se tornou a primeira mulher a dar aulas em um Liceu masculino,
  16. Conheceu Jean Paul Sartre em um grupo de estudos para se preparar para um exame importante. Ele se tornaria seu parceiro e amigo pelo resto da vida;
  17. Ela perdeu a amiga Zaza que morreu apaixonada por outro amigo e colega de Simone, Maurice Merleau-Ponty;
  18. Ao lado de Sartre Simone passou em um exame nacional chamado agregátion para se tornar professora vitalícia do sistema público francês, altamente prestigioso e competitivo.
  19. Aos 21 anos, ela foi a pessoa mais jovem de todos os tempos a passar nesse exame;
  20. Foi também nesse ano que ela e Sartre fizeram um pacto poliamoroso, ela tinha 21 anos e ele 24. Nesse pacto eles deveriam ser cem por cento honestos sobre suas conquistas e leais um com o outro.
  21. Segundo os diários de Simone, nessa época ela não estava apaixonada apenas por Sartre mas também por outros dois homens, René Maheu, amigo de ambos, e seu primo Jacques.
  22. O pacto deles provocou muita curiosidade dos moralistas e é motivo de especulação até os dias de hoje. Muito elogiado e também muito criticado.
  23. Uma curiosidade é que houve um ano em que Simone publicou em nome de Sartre e ninguém notou. A verdade é que essa relação ofuscou Simone, enquanto Sartre era ovacionado, e isso acontece até os dias de hoje.
  24. Entre 1931 e 1935 Simone viveu a vida de uma professora provinciana e morou em Marselha e Rouen para dar aulas.
  25. Voltou para Paris em 36 como professora no Liceu Molière.
  26. Nessa época Simone tinha 27 anos e teve casos famosos com três alunas, Olga que tinha 19 anos, Bianca que tinha 17 anos e Nathalie Sorokine que tinha 20. Olga nunca ficou com Sartre, mas Bianca sim. Elas continuaram amigas para o resto da vida.
  27. Simone também se apaixonou por Bost, ele por sua vez tinha um caso com Olga, e acabou se casando com ela, ele era aluno de Sartre. Uma bagunça né?
  28. Em 39 a Segunda Guerra Mundial começou. Sartre e Bost são convocados. Sartre foi trabalhar no corpo meteorológico e Bost seria soldado. Simone teve seu primeiro “colapso nervoso”, e isso foi se repetindo durante toda a guerra.
  29. Simone começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance A Convidada, que seria lançado em 43, inspirada em sua relação com Olga, Bost e Sartre. A filosofia desse livro pode ser comparada com O Ser e o Nada de Sartre que foi escrito depois.
  30. Em 40 Paris foi invadida pelos alemães, Simone fugiu para o interior com a família de Bianca, mas logo voltou a Paris. Bost foi baleado e evacuado do Front, mas sobreviveu. Sartre foi preso.
  31. Quando Sartre voltou a Paris em 41 eles se uniram com outros intelectuais na resistência francesa contra a ocupação nazista.
  32. Em 43 Simone perdeu seu cargo no sistema de ensino francês depois de uma acusação formal da mãe de uma de suas amantes: Nathalie Sorokine, mas ela negou as acusações contra Simone no tribunal dizendo que as relações entre elas eram consensuais e ela já era maior de idade, então, Simone não foi condenada. Mas ela perdeu o emprego porque suas relações com mulheres e seu relacionamento aberto com Sartre não combinavam com os ideias do governo alemão.
  33. Simone conseguiu um emprego na Rádio Vichy. Na época haviam duas rádios nacionais, a Rádio Paris, que era difundida pelos naziastas, e a Rádio Vichy, onde era possível trabalhar sem ser visto como um colaborador dependendo do que se fazia. Simone falava sobre música na Idade Média.
  34. Em 45 a Guerra acabou e Simone estava produzindo como nunca. Escreveu diversos artigos filosóficos e ensaísticos, fundou uma revista com Sartre e Ponty: Les Temps modernes, Tempos Modernos em português, escreveu uma peça, e dois romances que ficariam muito conhecidos: O sangue dos outros e Todos os homens são mortais. Ela também começou a pensar no livro O Segundo Sexo.
  35. Desde muito nova ela questionava com profundidade o que significava ser mulher para ela e para sociedade. E esse pensamento, junto com suas criticas sobre o que era liberdade dentro do existencialismo, foram a base para a criação de O Segundo Sexo.
  36. Publicado em 49, esse livro foi duramente criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda. Inclusive por seus colegas intelectuais como Camus.
  37. Ele não nasceu para ser um livro feminista. Ela o escreveu como um processo investigativo com dados concretos sobre a vida da mulher em sociedade, e também porque estava irritada com abre aspas “os volumes de idiotices” que eram lançados sobre as mulheres. (Tem resenha completa de O Segundo Sexo aqui)
  38. Simone era muito fã de Virginia Woolf e além de ter lido todos os seus livros ela também a considerava uma grande influência intelectual.
  39. Os Mandarins veio em 54, e esse livro foi muito elogiado pela crítica, ganhou até o prêmio Goncourt. Ele conta a história de um grupo de pessoas que tentavam retomar a vida depois da Segunda Guerra Mundial. Aqui ela mostra personagens fictícios que fazem parte da resistência, além de seus questionamentos em relação a união soviética. Inclusive crítica o governo russo, e propõe uma nova política de esquerda. (Também tem uma resenha completa dele aqui. EU AMEI ESSE LIVRO)
  40. Simone era uma viajante, conheceu o mundo inteiro, foi para Ásia, para a Africa, rodou a Europa inteira, foi para as Américas e desembarcou no Brasil em 1960.
  41. Ela e Sartre permaneceram dois meses aqui e conheceram o Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Fortaleza e Manaus. Essa visita foi organizada por ninguém menos que Jorge Amado e Zélia Gattai. Ela até conheceu o Juscelino Kubitschek.
  42. Em 60 Simone conhece Sylvie Le Bon, mulher que se tornaria sua amiga mais próxima até o fim de sua vida.
  43. Desde que Simone começou a trabalhar ela mandava dinheiro tanto para a irmã Helénè, quanto para mãe Françoise. Ela era a grande provedora da família
  44. E de alguns amigos, muitas vezes passou fome para poder ajudar todas as pessoas que estavam ao seu redor, inclusive suas amantes e as amantes de Sartre.
  45. Nesse período ela tinha 50 anos e lançou suas três biografias mais famosas: Memórias de uma moça bem comportada, em 58, na qual ela relembra sua juventude puritana; A força da idade, onde ela relembra uma Paris ocupada e dedica a sua relação com Sartre, Bost e Olga; e A força das coisas, em 63, onde ela comenta a vida que leva no pós guerra e suas publicações.
  46. Em 65 ela lança o livro Mal Entendido em Moscou, onde ela fala sobre as ambiguidades existentes na união soviética;
  47. Em 67 ela lança A mulher desiludida e logo depois, em 70, A velhice, com pensamentos que passavam por ela a décadas sobre o envelhecimento e a morte.
  48. Em 80 ela perde Jean Paul Sartre, e se vê sozinha, então ela adota Sylvie Le Bon, após passar um período no hospital e não ter ninguém que pudesse lhe acompanhar, já que a irmã estava em Portugal.
  49. Em 81 ela lança sua última biografia, A cerimônia do adeus, onde ela narra os últimos anos de Sartre e a sua vida na velhice.
  50. Simone de Beauvoir morreu em 86 de complicações de uma pneumonia, e seria lembrada por muitas décadas após sua morte. Os recém lançamentos de cartas e livros nunca publicados vieram do acervo de Sylvie Le Bon-de Beauvoir, que herdou tudo de Simone.

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Bom, esse foi o compilado de informações sobre essa autora tão famosa e importante! Os próximos serão sobre a Virginia Woolf e a Angela Davis. Me conta o que achou nos comentário!

Fontes:

CANDIANI, Heci Regina. Simone de Beauvoir. InBlogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia. [S. l.], 22 abr. 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/simone-de-beauvoir-2/. Acesso em: 4 jan. 2022.

KIRK PATRICK, Kate. Simone de Beauvoir: Uma vida. 1. ed. Brasil: Crítica, 2020. 553 p. v. 1.

JEAN Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: ISHAD, Vivien. Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/copy_of_noticias/jean-paul-sartre-e-simone-de-beauvoir-no-brasil-em-1960. Acesso em: 4 jan. 2022.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Brasil: Nova Fronteira, 2018. 936 p.

BEAUVOIR, Simone de. Os mandarins. ed. atual. Brasil: Nova Fronteira, 2017. 736 p.

BEAUVOIR, Simone de. Mal entendido em Moscou. Brasil: Nova Fronteira, 2015. 89 p.

5 motivos para ler mais mulheres hoje!

As privações relegadas ao sexo feminino sempre foram muitas. Não tínhamos educação formal, poder econômico, nem liberdade de escolha. Quando colocamos as questões de raça e classe as coisas pioram. Até pouco tempo atrás as mulheres eram consideradas inferiores em vários aspectos. Em 115 anos de prêmio Nobel, apenas 13 mulheres foram vencedoras. Nos 60 anos do Jabuti, só 19,9% dos 84 vencedores na categoria romance foram mulheres. E essa discrepância continua.

O machismo no mundo literário existe. Como podemos acabar com isso?

1. Por que tão poucos homens leem livros escritos por mulheres?

Segundo o The Guardian existe uma relutância do público masculino ao ler escritoras mulheres. Uma pesquisa demostrou que das 10 escritoras bestsellers apenas 19% de seu público era masculino. Em comparação aos escritores, 55% eram masculinos. O que explica isso? Eu acredito que ainda nos veem como inferiores e que nossa produção intelectual é desnecessária.

2. Os prêmios que as mulheres não recebem!

Ainda segundo o The Guardian a novelista Kamila Shamsie, que já foi jurada em alguns concursos testemunhou essa assimetria. “Mulheres juradas escolhem livros dos dois sexos, já os jurados, na maioria das vezes, escolhem livros de outros homens”. Veja, por exemplo no Brasil, o concurso de literatura do SESC só escolhe homens há anos. Ou seja, quando entramos em uma competição já estamos em desvantagem.

3. As desculpas que os homens dão!

Muitos dirão: “Se o livro daquela mulher fosse bom teria se tornado um clássico”, ou “Não me importo com o gênero quando escolho um livro para ler”. Esse discurso demonstra uma falta de conhecimento histórico e um pouco de misoginia. Levantando uma outra questão: “Será que grandes clássicos escritos por homens seriam tão clássicos assim se fossem escritos por mulheres?”. Eu duvido.

4. Os pseudônimos que são uma necessidade!

Imagina como não era terrível ter que se esconder atrás de um nome masculino para ser aceita intelectualmente. As irmãs Brönte se tornaram os irmãos Bell; Mary Ann Evans se tornou George Eliot; Colette teve que assinar com o nome do marido, Willy. Assim como Mary Shelley, que assinava apenas como Shelley, o marido. Mulheres que ousavam usar seu próprio nome eram duramente criticadas. Até os dias de hoje elas tem que esconder seu nome feminino para serem aceitas, como J.K Rowling, que foi orientada a esconder o Joanne, e N.K Jemisin, que escondeu o Nora.

5. Criando uma voz própria

Considerando tudo isso podemos dizer que as narrativa escritas por homens definem uma realidade universal feita por eles, homem branco e hétero. Que nem de longe é realidade de todos. E tudo que está fora disso é considerado um nicho. Como metade da população pode ser considerada um nicho? Os livros escritos por mulheres também podem uma verdade universal para nós. Quando lemos mulheres podemos encontrar nossa própria voz na voz de nossas irmãs que escrevem. E isso é extremamente importante.

Quem foi Patrícia Galvão a.k.a Pagu – Greves, prisões, torturas, modernismo.

Pagu foi muitas coisas, primeiro uma mulher à frente do seu tempo que tinha sido criada no seio de uma família tradicional, feita para casar e ter filhos. não aceitou essa condição, isso um século atrás, quando a mulher ainda não podia votar, ter conta em banco, nem viajar sem autorização do marido. Ela foi uma grande ativista comunista em uma época de intensa perseguição. Aos 14 engravidou e fez um aborto. Aos 15 começou a trabalhar como jornalista com um pseudônimo, profissão que a acompanharia para sempre. Aos 19 já contribuía para a revista Antropofágica. Enfim, esse é só o começo de uma vida agitada.

TRIÂNGULO AMOROSO DO MODERNISMO

Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral eram o grande casal do Modernismo brasileiro. Porém, tudo mudou quando uma jovenzinha de 18 anos se juntou a eles. Pagu que já trabalhava como jornalista passou a colaborar com a revista Antropofagia. O casal ficou encantado com a moça mas foi ele, Oswald, que decidiu se separar para se casar com Pagu. Foi um escândalo, Tarsila ficou arrasada, assim como a sociedade paulistana. O casal não estava nem aí, se uniram em uma cerimônia pra lá de excêntrica no Cemitério da Consolação, em São Paulo, em 30. Tiveram um filho e ficaram juntos até 34. Terminaram devido as constantes traições do escritor. Pagu, desquitada, foi morar sozinha com o filho, outro escândalo.

PARQUE INDUSTRIAL

Seu primeiro livro foi publicado em 1933: Parque industrial, o primeiro romance proletário brasileiro. Nessa época ela deixou o jornalismo de lado e foi trabalhar no chão de fábrica. Em tons de roteiro Pagu, com o pseudônimo Mara Lobo, conta a história de um grupo de pessoas que trabalha nas fábricas do Brás, estudantes e pessoas da elite. As histórias se entrelaçam e se tornam até caricatas na grande e importante critica que Pagu faz da sociedade paulista. Ela consegue expor temas muito fortes, como violências, desigualdades, descasos, de maneira crua e sincera.

PRISÕES E TORTURAS

Sua primeira prisão aconteceu quando ela estava no meio de uma greve de estivadores em Santos. Naquele mesmo dia enfrentou a cavalaria para proteger o corpo de um companheiro. Pagu participou ativamente do Partido Comunista Brasileiro e foi perseguida, principalmente, depois do levante armado de Prestes em 35. Nessa ocasião foi presa e torturada por dias, isso a levou a depressão e a uma tentativa de suicídio. Ela rompeu com o partido comunista para seguir a linha trotskista. Foi presa pelo menos 23 vezes.

GRANDES VIAGENS

Podemos dizer que Pagu se jogou no mundo. Deixou o filho com Oswald (escândalo) e foi para China, onde dizem ter ficado muito amiga do último imperador chinês. Dele ganhou sementes de soja, e foi assim que a soja foi introduzida no Brasil. Depois disso ela fez a rota de trem transiberiano (meu sonho) e entrou na Europa. Filiada ao Partido Comunista Francês foi presa algumas vezes em Paris por ser uma agitadora e deportada.

TEATRO E ARTES

Depois das torturas ela se casa pela segunda vez e tem seu segundo filho. Volta a trabalhar com jornalismo, e estuda artes cênicas. A família se muda para Santos e lá ela coordena Teatro Universitário Santista e assume a presidência da União dos Teatros Amadores da cidade. Se torna colunista sobre teatro em um jornal local e dirige algumas peças, como Fando e Lis, que recebeu vários prêmios. Além disso ela se tornou patrona da arte na região, escrevendo críticas nos jornais, onde viveu até sua morte em 62 de um câncer no pulmão.

Resenha de Um Teto Todo Seu da Virginia Woolf

Esse livro é um dos grandes ensaios de Virginia Woolf que deve ser lido por todos. Ela começa contando a história de uma mulher, que está passeando por um campus universitário (Oxfordbridge) e se depara com inúmeras proibições: ela não pode entrar na biblioteca sem autorização, ou campainha, de um homem. Depois ela participa de um jantar luxuoso e o compara com o jantar no campus das mulheres, que é pobre e sem graça. As mulheres brancas e europeias nunca estiveram em pé de igualdade com seus pares, elas eram propriedades dos pais, irmãos e maridos e é sobre isto que ela discorre aqui. Por que a literatura escrita por mulheres é tão escassa? Ela exemplifica tal pergunta ficcionando a vida de uma irmã de Shakespeare que tinha o mesmo talento que ele, mas todos os empecilhos do seu gênero. Mulheres não eram educadas, não iam a escolas, nem a universidades. O pensamento lógico era deixado de lado e ela aprendia apenas a ser uma boa dona de casa. Quando casava tinha que cuidar do marido e das proles. Não tinha tempo para escrever, nem poderia, se você pega fazendo isso seria castigada.

Li esse livro pela primeira vez em 2018. Foi uma experiência linda, pois já estava começando a questionar minhas leituras. Naquele ano eu foquei em ler mais mulheres. Além disso ele me fez ver que eu poderia escrever. Virginia foi uma mulher branca, européia de classe média, que vivia em uma Londres da década de 20. Ou seja, suas reivindicações são para a sua classe e o momento em que vivia. Dentro deste contexto ela fez um belo trabalho. Podemos achar antiquado e ultrapassado, e às vezes é. Mas ela explica os motivos que fizeram as mulheres e os trabalhadores, sem instrução academia, serem os grupos que menos publicaram livros. Os tempos mudaram (Quase um século desde a publicação desse livro!), mas eu acho importantíssimo olhar para o passado para entender o tipo de literatura que consumimos e fazemos.