3 escritoras brasileiras contemporâneas para conhecer hoje!

Faz um tempo que quero escrever sobre esses três livros que recebi ano passado. Li os três super rápido, mas por conta das demandas da vida demorei um pouco para começar a leitura, e mais ainda para escrever sobre eles, por favor, não desistam de mim. Foi uma supresa ótima! O Rumo ao farol tem me proporcionado conhecer escritoras maravilhosas que estão lançando seus primeiros livros (de muitos espero eu).

Resenha de três livros de escritoras brasileiras e independentes!

O primeiro que li foi Conta Comigo da Michele M. Fernandes. Nesse livro conhecemos a história de três mulheres diferentes, divididas por contos que remetem a cidade de Porto Alegre. Cada um tem uma característica própria e carrega seu mistério: uma mulher perdida, uma mulher com super poderes e uma mulher que busca firmar sua identidade sendo uma mulher trans. A narrativa é bem fluida e gostosa de ler, o tempo passou super rápido durante a leitura. Gostei bastante.

O segundo foi Talvez fôssemos outras da Renata Ferri. Também um compilado de contos muito gosto de se ler. Ela traz histórias múltiplas que caminham entre primeira e terceira pessoa, sempre muito próximo do personagem. Tem briga em família, um triângulo amoroso, um conto sobre o processo de luto, e também sobre a escrita. Os contos são diversos e cada um carrega um mistério interessante que me prendeu, sabe? Eu adorei que os contos estão recheados com ilustrações, o que traz um dinamismo bonito para o texto.

O terceiro que li foi Amanhã seremos outros da Marília Santos Krüger, o nome é muito parecido com o da Renata, né? Achei uma coincidência interessante. Esse livro já me impactou logo com a capa, achei a edição muito bonita. Dentro o livro carrega contos pequenos mas muito poderosos. A Marília foge do óbvio e trouxe como protagonistas uma casa, uma criança, um casal. Ela explora tipos narrativos diversos, e experimenta com sabedoria. Às vezes caminha pela prosa poética, às vezes se atém ao realismo, mas todas as história são fortes e carregam um suspense gostoso.

Foi um prazer ler esses livros e conhecer essas autoras maravilhosas que estão começando. Sinto que muita coisa boa vai surgir a partir disso. Adoro ver quanto coisa boa tem na nossa literatura contemporânea!

Quero saber de você, já conhecia alguma dessas autoras? Gostaria de conhecer?

A PEDIATRA DE ANDREA DEL FUEGO | Resenha de um livro impactante sobre a medicina e padrões de gênero

A Campainha das Letras me mandou esse e-book ano passado e eu lembro do enorme burburinho que ele causou lá no bookstagram quando foi lançado. A narrativa é estimulante e muitas vezes absurda. Carrega temas muito importantes como a quebra dos padrões de gênero e a visão da maternidade.

Lemos a pediatra no Clube do livro Contemporâneas, que é um espaço de trocas sobre literatura e sobre a vida, em março. Minhas últimas resenhas foram de livros que lemos lá no clubinho, você encontra elas aqui.

Um dos livros votados foi A pediatra da Andrea del Fuego. Ela tem um nome super forte né? E também tem uma carreia extensa na literatura. Seu primeiro romance, Os Malaquias, venceu o premio José Saramago. Isso foi lá em 2011, dez anos e algumas publicações depois, em 2021 ela lança A pediatra, e eu ouvi falar que ela escreveu esse livro em um mês!

Resenha de A pediatra de Andrea del Fuego – Um dos livros escritos por mulheres da literatura brasileira contemporânea mais legais que lemos!

Essa pediatra tem nome, ela se chama Cecília, uma mulher muito obstinada, egocêntrica e totalmente pragmática, ela se passa por uma vilã canalha, o que eu acho curioso pois toda a sua personalidade tem características que nossa sociedade considera masculinas. Ou seja, quando um homem age como ela costuma agir ele não é tão julgado quanto a Cecília foi. Por que ela foge do padrão da “feminilidade” adocicado e sentimental.

Vou destrinchar a personalidade aqui para você entender melhor sobre o que estou falando:

Ela é casada, mas tem um amante, o marido sofre de depressão e ela deixa bem claro que não vai ser cuidadora de ninguém. O amante tem uma esposa grávida e ele indica Cecília para ser a neonatologista do bebê. Para quem não sabe neonatologistas cuidam de bebes recém nascidos (estou dizendo porque eu mesma não sabia disso), principalmente durante o parto. Logo após o nascimento de Bruninho, eles se pegam em uma salinha do o hospital, enquanto a mulher ainda está na sala de parto.

O amante se chama Celso, e ele termina com ela logo após o nascimento do bebe Bruninho. Eles ficam um ano longe mais ou menos, pois ele morava em outra cidade. Quando a mulher está esperando o segundo filho eles se mudam para São Paulo, e eu acredito que foi por causa de Cecília. Os amantes retomam a relação. Cecília começa a se afeiçoar por Bruninho e muita confusão acontece por conta desse relacionamento confuso. Bom, para você saber tem que ler o livro, pois é cada bizarrice que essa mulher faz que você não vai acreditar.

Ela é sozinha, o marido foi embora e ela vive apenas com sua empregada, que está grávida. Cecília odeia crianças e está certa de que nunca será mãe. Seus pacientes são tratados sem nenhum afeto ou consideração, ela não suporta o desespero das mães, e até despreza elas. Cecília cresceu com um pai pediatra e uma mãe enfermeira, e é curioso que sua relação com o pai é muito mais próxima do que com a mãe. Do pai ela herdou a profissão e um posto na sociedade. Ela tem consciência disso e diz que faz o que faz apenas de modo protocolar sem nenhum entusiasmo.

Sinto que tem um grande vazio dentro dela que ela preenche com paranóias de que todas as pessoas são inferiores a ela. Mas também tem pequenas amostras de uma sociopatia em sua personalidade, que faz ela perseguir e intimidar as pessoas. Sim, ela é também uma perseguidora. Uma stalker.

O livro também entra em uma discussão interessante sobre o parto humanizado em banheira em casa, algo que Cecília é extremamente contra. Além de retratar com crueza o trabalho de parto e todas as suas consequências, confesso que eu que já tinha medo de engravidar fiquei com mais ainda, então deixo um alerta aqui, esse livro pode conter gatilhos para mulheres grávidas.

A relação de Cecília com Deise sua empregada também é permeada de uma superioridade paternalista que incomoda muito. Como eu já disse Deise está grávida e Cecília não suporta a ideia de uma mulher grávida em sua casa, ou uma possível criança. Além disso Cecília entra em um emaranhado de julgamentos e acredita que todas as pessoas ao seu redor são horríveis. É muito interessante ler esse livro desse modo, pois, por ser escrito em primeira pessoa nós só sabemos sobre os personagens (o Celso, a Deise, o Robson, que pai do filho da Deise, os pais de Cecília) pelo filtro deturpado da mente dela.

Esse livro é um retrato de uma mente perturbada, interessante e que quebra os padrões de gênero, que esperam que mulheres sejam sempre emocionais e dóceis. Também escancara os pensamentos de uma médica protocolar que não escolheu seguir a medicina por amar ajudar as pessoas e sim por um bom salário, ou porque foi imposto pela sociedade.

Você vai se irritar com esse livro mas também pode amar. Eu li super rápido e achei muito interessante.

Essa foi mais uma dica de livros escritos por mulheres que trouxe aqui! A pediatra é um bom livro.

Espero que goste! Me conta nos comentários o que achou!

O COPO VAZIO DE NATALIA TIMERMAN | Resenha do livro que fala sobre Ghosting e relações líquidas!

Mirela, uma mulher de 32 anos sofreu pelo desaparecimento do cara que ela estava ficando. E não foi um desaparecimento de filme de terror não, ele apenas nunca mais respondeu suas mensagens, e acabou com todo o contato que eles tinham do dia para noite.

Copo vazio foi o segundo livro que lemos no Clube do Livro Contemporâneas nesse ano, o primeiro foi Primeiro eu tive que morrer da Lorena Portela. O nosso livro de fevereiro foi escrito pela Natalia Timerman, uma psiquiatra e psicoterapeuta paulistana. A mulher tem um currículo extenso, e por coincidência ela fez a mesma formação de escritores que eu lá no Instituto Vera Cruz. Se um dia eu escrever um livro tão potente quanto o dela eu vou ficar muito feliz.

Seu primeiro livro foi Desterros – Historias de Um Hospital-Prisão onde ela conta a história de detentos e funcionários que passaram pelo sistema carcerário paulistano enquanto ela trabalhava no Centro Hospitalar do Carandiru. Seu segundo livro Rachaduras foi lançado em 2019, é uma coletânea de contos indicada ao Jabuti.

Em 2021 ela lançou seu primeiro romance Copo Vazio que saiu pela editora Todavia. Foi o maior burburinho em volta desse livro ano passado né? Muita gente leu e comentou e é interessante refletir sobre o porque desse livro ter feito tanto sucesso. E eu vou dar minha opinião aqui, antes de entrar na resenha: Acredito que seja porque muitas mulheres já passaram pela mesma situação que Mirela.

Mirela é uma arquiteta de 32 anos, ela conhece Pedro, um homem que parece ser tudo que ela sempre quis. A história começa no futuro, quando Mirela já bem mais velha encontra Pedro em um supermercado. Assim ela relembra seus dias ao lado dele, os dias que se passaram depois de seu sumiço e tudo que ela viveu sofrendo por ele.

Eles se conheceram em um aplicativo de namoro, saíram algumas vezes e as coisas foram ficando intensas, pelo menos do ponto de vista da Mirela. Aos poucos vamos descobrindo qual era a natureza da relação dos dois e como as coisas entre eles foram desenvolvendo, em uma narrativa eletrizante que te prende até o final. O livro fala sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá imaginando o que aconteceu.

É incrível como a Natália conseguiu representar muito bem a vulnerabilidade feminina e as inseguranças que temos em relação aos relacionamentos. Para Mirela o relacionamento está caminhando para algo a mais, Pedro também parece estar envolvido e a todo momento ficamos procurando pistas de sua fuga próxima. Ele não dá certeza nenhuma para ela, e foi por isso que ela encheu seus pensamentos de projeções do que poderia ser essa relação.

Ele dá corda, até chama ela para viajar com ele para visitar sua avó. Ele alimenta as expectativas dela mesmo não estando tão afim assim, e depois ele some, sem dar explicações, sem terminar, sem nada, ele apenas some. Mirela manda mensagens e ele não responde, então, ela começa a entrar em um redemoinho de inseguranças e incertezas que mechem com sua autoestima. Mirela sofre por ele e essa perda afeta seu trabalho e seus relacionamentos mais próximos. E os futuros. A carência afetiva se intensificou pela ansiedade que o sumiço dele causou.

Na minha opinião o que Pedro fez foi cruel, por mais que eles não tivessem em um relacionamento, faltou responsabilidade afetiva. Eles se viram com frequência por 3 meses, eles conversavam constantemente, e já estavam envolvidos com os amigos um do outro. Ele poderia ter sido mais sincero ao invés de deixar ela assim. De qualquer forma as atitudes de Pedro sempre eram ambíguas, inclusive depois do sumiço, ele ainda orbitava na vida da Mirela, curtindo fotos, causando uma ansiedade extrema nela.

Esse livro é importante para abrir nossos olhos em relação a algumas atitudes masculinas extremamente tóxicas, como a falta de responsabilidade afetiva e a certeza de que eles tem de que podem tratas as mulheres da maneira que quiserem. Outra coisa que esse livro nos mostra é que isso pode acontecer com qualquer uma de nós e já aconteceu diversas vezes, muitas meninas do clube tinham histórias muito similares e diziam ter passado por coisas muito parecidas.

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Enfim, eu gostei muito desse livro, a Natália escreve muito bem. Ela vai entregando a história aos poucos. Cada capítulo é uma surpresa, pois ela intercala o passado e o presente da personagem, ao estilo durante e depois, sabe? Durante o relacionamento e depois do relacionamento. Foi muito interessante ver a escalada e a transformação ao nada desse relacionamento cruel.

RESENHA PRIMEIRO EU TIVE QUE MORRER DA LORENA PORTELA | Uma escritora brasileira independente!

O primeiro livro do Clube do livro contemporâneas de 2022 traz uma narrativa que se aproxima de questões muito atuais. Escrito por Lorena Portela, que é uma cearense que mora em Londres, o livro Primeiro eu tive que morrer está fazendo sucesso nas redes.

Acredito que muitas mulheres se identificaram com a protagonista que viaja para Jericoacoara para se recuperar de um burnout. Lorena fez todo o processo de escrita e impressão do livro de forma independente, e para mim esse é um dos pontos altos da obra, pois ela nos mostra que se temos um sonho poderemos realizá-los por nós mesmas. Claro, ela teve ajuda de muitas mulheres para a construção dele. Ao longo das páginas vemos obras lindas de artistas que deixaram sua impressão nesse livro.

A escrita é simples e leve, o livro fluí. É uma história que já conhecemos: a nossa história enquanto mulheres. A personagem principal poderia ser qualquer uma de nós, ela não tem nome, mas as coisas que ela passa são comuns: o trabalho extra para uma mulher se posicionar no mercado, a responsabilidade e culpa dentro dos relacionamentos, o assédio, às vezes silencioso, e às vezes escancarado. Até o momento do “não aguento mais!”

A personagem vai para Jeri por 2 meses, para se recuperar do stress que é trabalhar em uma agência de publicidade. Lá ela fica na pousada de duas amigas, Sabrina e Ana, que são um casal. Elas abrigam a amiga em troca de uma pequena ajuda com a pousada. Outra personagem que aparecerá é Glória, uma espanhola que teve um affair com nossa protagonista uns anos antes em Lisboa e que estará na América Latina.

Ela também conhece Amália, uma mulher misteriosa, que faz coisas bizarras com ela, tipo quase a afogar no mar. Amália também é muito homofóbica. Essa mulher faz ela duvidar de si mesma e de sua relação com Glória. Fiquei com muito raiva dessa mina, e eu já teria mandado ela catar coquinho (para não dizer uma palavra feia aqui, não é mesmo? Você me entende né?). Enfim, temos também Guida e Luana, vó e neta que são um porto seguro para a personagem.

O livro é em primeira pessoa e é uma escrita bem simples mesmo, eu já falei isso, mas ele carrega a vida dessas mulheres incríveis. Histórias que não podemos esquecer e que devemos sempre exaltar. Lorena escreveu a história que eu também estou escrevendo, parece até que ela leu meus pensamentos.

A ambientação do livro é uma delicia, se passa em um lugar paradisíaco. Um lugar perfeito para uma fuga, até do próprio corpo, para então se reestabelecer de uma maneira mais saudável. Alcançando talvez a completude?

Simone de Beauvoir: Uma vida – de Kate Kirkpatrick | Resenha da biografia do ícone feminista e escritora do século 20!

A vida de Simone de Beauvoir é um retrato claro da posição da mulher na sociedade. Ela teve uma carreira brilhante, passou pelos exames de filosofia mais difíceis da França, estudou e leu muito. Até hoje ela é lembrada como a seguidora de Sartre, a mulher que esteve ao seu lado toda a vida e que reproduziu suas ideias. Mas a vida de Simone de Beauvoir vai muito além de seu relacionamento com Sartre. Ela foi uma intelectual prolífica, amou muitas pessoas e foi uma feminista engajada.

Kate Kirkpatrick

A biógrafa Kate Kirkpatrick nos mostra isso na biografia Simone de Beauvoir: Uma vida. Hoje vou fazer uma resenha sobre esse livro!

Eu não poderia começar essa resenha sem antes comentar a vida e obra de Kate Kirkpatrick, que é professora da Kings College em Londres. Em entrevista para Quatro cinco um ela disse que não tinha ambições de escrever uma biografia, ela é uma filósofa e pesquisadora de Jean-Paul Sartre, e acreditava que para estudar a filosofia dele deveria entender o contexto intelectual francês no qual ele estava inserido. Então, lia Simone Beauvoir, e fez um estudo detalhado das cartas que os dois trocaram quando eram jovens.

Kirkpatrick também analisou as cartas que Beauvoir trocava com seus amantes e amigos, ela também estudou afundo os diários de Simone. Para assim entender qual eram as nuances de seus relacionamentos e estudos. Escreveu de forma lúcida sobre a vida da moça bem comportada que se tornou ícone, odiada pela maioria que insiste em não entender a sua obra, mas aclamada por mulheres que se sentiram representadas por seus livros.

“Em conversa em um café em Londres, Kirkpatrick explicou, de maneira clara e contundente, que a razão principal que a levou a escrever Simone de Beauvoir: uma vida (Crítica/Planeta) foi a confirmação, através de um cuidadoso estudo de diários e cartas de Beauvoir que foram publicados recentemente, de uma suspeita que tinha havia anos: a maneira como Beauvoir foi retratada ao longo da história, inclusive em biografias anteriores, não fazia jus à sua contribuição à filosofia ocidental.”

Mariana Schiller para a Quatro cinco um.

Em dezessete capítulos Kirkpatrick traz a vida de Simone, e revela as discordâncias entre suas cartas e autobiografias. Conta sobre os relacionamentos nunca mencionados por Simone em seus textos autobiográficos. Desmente acusações inconcebíveis sobre seu posicionamento politico e sexual. E principalmente: mostra a Simone que deveria ser conhecida por todos, a filosofa dedicada, que tinha suas próprias opiniões e criticava com afinco a sociedade em que vivia.

Kirkpatrick também trouxe uma nova visão sobre o relacionamento de Simone e Sartre. Ela os coloca em uma relação de iguais e tira a centralidade dele de sua vida. Simone amou Sartre, mas não era um amor único e incondicional.

Sartre era o “amigo incomparável de seus pensamentos” como a Simone sempre dizia, mais que um relacionamento amoroso, eles tiveram uma bela amizade. Sartre deu diversas entrevistas onde dizia que Simone criticava todas as suas obras, e ele nunca publicava nada sem ela ter lido e comentado. Eles trabalharam juntos, na obra de ambos, e levavam em consideração a opinião um do outro. Por isso, eu acredito que não dá para falar sobre Sartre sem falar sobre Simone.

Simone amou muito! Teve diversos amantes, homens e mulheres, e acreditava na liberdade sexual e amorosa. Ela viveu apenas com um deles, Claude Lanzmann e o ajudou intelectualmente e financeiramente, ele era um intelectual judeu, e cineasta, seu primeiro filme sobre o holocausto foi financiado por Beauvoir. Ela respeitava as ideias de todos eles, que eram a família dela, e continuaram amigos para o resto da vida.

Entre os membros dessa família estão: Olga e Wanda Kosakiewicz, elas irmãs, e Simone teve um caso com Olga e Sartre com Wanda; Jacques-Laurent Bost, que teve um caso com Simone e Olga ao mesmo tempo, mas não juntos, e ele acabou se casando com Olga. Claude Lanzmann, que viveu com Simone no mesmo teto por anos. Bianca Lamblin, que apesar das polêmicas ficou ao lado de Simone, como amiga, para o resto da vida. Nathalie Sorokine que foi amante da Simone quando ambas eram jovens (Simone 27 e Nathalie 20). Sorokine se mudou para os Estados Unidos e abriu as portas de sua casa para Simone sempre que ela ia pra la. E Nelson Algren, que podemos dizer que foi o romance mais intenso de Simone, mesmo com um oceano de distância. O curioso é que Sartre nunca escreveu uma palavra ruim sobre Simone, mas Nelson sim, diversas vezes.

Mas ela se arrependeu de muitas coisas que fez em sua juventude, principalmente os relacionamentos com as alunas. Ela tinha 26/27 quando começou a ficar com alguma delas. Seu relacionamento com Sartre às vezes machucava as terceiras partes, principalmente quando ele resolvia seduzir as amantes de Simone, já que ele era um sedutor incontrolável. Então, com o passar dos anos ela refletiu sobre isso, sobre o amor, e sobre a liberdade. Simone foi uma mulher de reflexões, primeiro sobre a filosofia que lia incansavelmente, Hegel, Kierkegaard, Marx, Freud, Descartes e muitos outros. Depois sobre a condição da mulher na sociedade, e sofreu muitos ataques depois que sua obra O segundo sexo foi lançado. Ela era a bruxa, amarga que não sabia amar, e isso nos atravessa até os dias de hoje. A uma mulher não é permitido pensar, refletir e seguir uma vida de intelectual.

Além disso ela foi veemente contra a ocupação nazista, participou da resistência francesa contra a ocupação alemã, escreveu um livro inteiro sobre isso, Os mandarins. Acreditava que políticas progressistas de esquerda deveriam ser apoiadas, principalmente quando se referia as escolhas da mulher e do aborto. Foi para a União Soviética diversas vezes com o Sartre, já que ele tinha uma amante lá, e criticava as ambiguidades do regime comunista. Esteve no Brasil, na China, nos Estados Unidos, em Cuba e em muitos outros lugares, como já disse nos 50 fatos sobre a Simone, ela era uma viajante. Lutou contra a ocupação francesa na Argélia e no seus últimos anos apoiou diversas causas libertárias.

Recebeu cartas de mulheres que leram a sua obra e se identificaram. Essas mulheres queriam fugir de sua vida, porque quando jovens elas acreditavam que maternidade e o matrimonio seriam cheios de amor, mas que anos depois se viram sozinhas, e descobriam que não construíram nada de significativo e libertador. Simone respondia o máximo de cartas que conseguia e ao longo de sua vida escreveu sobre seus privilégios, sobre a velhice e sobre politica. Kate Kirkpatrick consegue resumir todos os anos de vida Simone de Beauvoir em 553 páginas, em uma narrativa que te prende e te estimula a ler cada vez mais até o fim do livro e da vida de Simone, que foi extremamente interessante e cheia de nuances, como as nossas.

Eu recomendo a leitura desse livro para você descobrir a vida dessa grande mulher!

MELHORES LEITURAS DO ANO | bell hooks, Dostoiévski, Maria Valéria Rezende, Fernanda Melchor e mais!

Nesse vídeo eu vou fazer uma retrospectiva das minhas melhores leituras do ano. 2021 Está terminando, então não poderia faltar essa listinha aqui no blog, né? Você não vai se arrepender se fica até o final porque as leituras foram boas, tá bom? Vem comigo!

Ual, que ano ein gente? Esse ano foi muito estressante para mim, tive um câncer na tireóide, me curei, comecei a pós de formação de escritores, onde eu tive que ler MUITO e escrever MUITO, mas deu tudo certo! também! Finalizei 50 livros esse ano e entre todos eles eu escolhi 5. Foi difícil escolher só 5 para compor essa listinha que tá TUDO! Tem livro escrito por mulher brasileira, tem livro que eu li para pós, tem livro de um russo famoso, tem livro de não ficção (vou dar um spoiler: bell hooks) e tem até livro de conto, e olha que eu não sou muito fã de conto não.

1) Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski!

Eu li memórias de subsolo alguns anos atrás e não achei nada de mais, podem me julgar por isso: achei pedante e chato, simples assim. Depois eu tentei ler Crime e Castigo traduzido do Francês e foi uma experiência horrorosa, não consegui passar das primeiras vinte páginas. Fiquei com um pé atrás em relação ao Dostoiévski!, apesar de amar a escrita de um outro russo o Tolstói.

Aí, por força do destino, minha professora de oficina maravilhosa, a Carol, me recomendou ler alguns russos, de preferência Dostoiévski, porque ela achou seria uma boa referência para o livro que estou trabalhando. Então, peguei essa edição traduzida do russo na estante do meu irmão e fiquei embasbacada: a leitura fluiu demais.

Acho que você já deve saber sobre a história desse livro, é um clássico! Mas vou contar um pouquinho sobre ele: conhecemos Raskolnikov um jovem estudante bem pobre que mora em um cubículo longe de sua família. Lembrando que a sociedade russa dos Czares era extremante desigual. Ele está enfrentando uma depressão e fica dias planejando o assassinato de uma senhora que penhorava objetos de valor, assassinato inspirado em Napoleão. Até que ele comete o ato, mata a velha e a irmã dela. Depois disso tudo que acontece passa pelo próprio filtro moral do personagem e questionamentos surgem: ele vai se entregar? Ele vai ser descoberto? As pessoas próximas a ele começam a suspeitar de suas atitudes erráticas.

Sua mãe e irmã vão aparecer com questões, principalmente quando a irmã a Dúnia decide se casar por interesse, o que Raskolnikov não aceita. Teve um personagem que eu gostei muito que é o contrapondo de Raskolnikov, seu amigo Razumíkhin, que é tão pobre quanto ele mas não é acometido pela melancolia do outro. É muito interessante ver como a depressão já era explorada de uma maneira tão real lá no fim do século 19. A heroína da história é a Sônia, uma jovem prostituta que teve que vender seu corpo para dar de comer aos irmãos e acaba se aproximando do Raskolnikov, que a trata sem nenhum julgamento. https://amzn.to/3zaA0s7

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2) Carta à Rainha Louca da Maria Valéria Rezende

Esse foi o primeiro livro que lemos no Clube do Livro Contemporâneas e foi uma felicidade. Porque é um livro bom pra caramba. A Maria Valéria Rezende é uma senhora com 79 anos, lançou seu primeiro livro com 60, ou seja, nunca é tarde né? Ela é uma freira que rodou as Américas alfabetizando pessoas, sindicalistas e camponeses. Ela dava rolê com o Gabo e o Fidel em Cuba, ok? Só isso já tá bom?

Tem resenha completa de Carta à Rainha Louca aqui no blog, mas eu vou falar um pouco, para você ficar com um gostinho de quero mais. Nesse livro conhecemos Isabel das Santas Virgens que está presa no convento do Recolhimento da Conceição em Olinda. É 1789 e ela começa a escrever uma carta para a Rainha Maria I, rainha de Portugal conhecida como “A louca”. Isabel clama por justiça em um relato conturbado, onde ela faz críticas verozes tanto a religião quanto a sociedade colonial, onde ela, mulher pobre e sozinha no mundo depende da sorte para viver nessa terra hostil.

A leitura é um pouco confusa no começo, tive que usar da leitura ativa, e de um dicionário, para entender as minúcias escondidas no texto de Maria Valéria Rezende, que fez uma releitura histórica belíssima. Ela mostra com crueza e muita ironia como funcionava as classes sociais no Brasil colonial. E crítica com muita força, e depois rasura, isso mesmo, o livro traz rasuras.

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3) O sofredor do ver de Maura Lopes Cançado

Outro livro que li na pós graduação dessa fez na matéria sobre escritores esquecidos. Esse livro é um conjunto de contos autobiográficos escritos por Maura Lopes Cançado. Aqui ela nos mostra seus momentos longe do filho, seus romances, suas indas e vindas de instituições psiquiátricas e a decadência de sua vida. Ela foi uma autora polêmica e acho que é por isso que não fez sucesso.

Ela tinha uma excentricidade única desde a infância, cresceu em uma família rica, adorava voar e existem boatos de que ela derrubou um avião mini motor, se machucou mas não morreu. A escrita dela é tão sensível, tão bonita e também experimental, me cativou tanto. Eu recomendo esse livro para todas as pessoas. Maura Lopes Cançado dizia que ela era a melhor escritora brasileira de todos os tempos, acho que ela tinha um pouco de razão, porque esses contos são belíssimos, e olha que eu nem gosto muito de contos.

Sua personalidade era forte e ela não levava desaforo para casa, arranjou briga com inúmeros ilustres da literatura e torrou toda a herança que recebeu. Era uma mulher muito a frente do seu tempo, em um mundo onde mulheres não podem se expressar, acho que é por isso que tanta gente fala sobre o quão difícil, arrogante e louca que ela era. Sim, LOUCA, era o que diziam, mas será que podemos acreditar?

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4) Temporada de Furacões da Fernanda Melchor

Temporada de Furacões é um livro que li para pós e já comentei sobre ele no vídeo sobre prosa contemporânea! Eu amei tanto que decidi colocar ele nessa lista aqui. Ele foi escrito por Fernanda Melchor uma mulher mexicana e ganhou vários prêmios. Imagina uma escrita tipo Virginia Woolf com uma ambientação bem Gabriel García Márquez. Eu já escrevi uma resenha completa dele aqui. 

O livro começa quando um corpo é encontrado, esse corpo é de uma personagem denominada A Bruxa, uma curandeira da região, e ao longo dos capítulos descobrimos mais sobre essa mulher. Os capítulos são em terceira pessoa, mas cada um foca em um personagem com um fluxo de consciência sufocante. 

Os personagens vivem em uma cidade extremamente pobre chamada La Matosa e chega em um ponto que os capítulos se tornam confessionais como se ele estivessem sob testemunho. Muitos assuntos delicados são tratados aqui, então temos que ler com cuidado.

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5) Ensinando pensamento crítico da bell hooks

Deixei por último porque ainda estou abalada com a notícia da morte dela. Sabe quando você imagina que a pessoa vai ficar velhinha ainda produzindo essa imensidade de livros e pensamentos que ela fazia? Era o que eu sentia sobre ela. Esse livro mexeu comigo, primeiro porque ela cita Paulo Freire logo de cara e ela nos mostra aqui como o ensino deveria ser mais humanizado.

E além disso, ela diz que a educação deveria ser um espaço para pensamento crítico e não reproduções de padrões pré estabelecidos. Era isso que ela combatia, o conservadorismo e a ignorância. Ela queria que pensássemos por nós próprios, e isso é muito importante para mim, porque sempre acreditei que devíamos ter uma visão crítica do mundo. Ela foi uma mulher negra, uma professora, uma educadora, uma feminista engajada, e uma das principais intelectuais americanas. Ela falou sobre amor, sobre empatia, sobre amizade, sobre respeitar as diferenças, sobre aceitação. Todos deveriam ler bell hooks.

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Ficamos por aqui hoje, espero que tenham gostado da minha lista! Me conta se já leu algum desses livros nos comentários? Obrigada por me acompanhar! Beijos.

A CABEÇA DO SANTO de Socorro Acioli: Resenha – Gabriel García Márquez e o realismo fantástico brasileiro.

A cabeça do santo nasceu de um conto que deixou Gabo entusiasmado. O livro inclusive começa com uma dedicatória a ele mesmo: Gabriel García Márquez, que foi mentor da Socorro Acioli em uma oficina feita em Cuba em 2006. Descobrimos essa relação física apenas no final do romance, mas já sentimos as referências logo no início. Samuel está há dezesseis dias peregrinando pelo Ceará, ele foi da região do Cariri, famosa pelos cordéis e pelo Padim, padre Cícero, que por sua vez é famoso pelo respeito que Lampião tinha por sua pessoa, mas não só por isso, claro; até a região do Canindé, onde uma grande estátua de São Francisco atrai turistas e fiéis, a pé.

ÚLTIMA LEITURA DO ANO DO CLUBE DO LIVRO CONTEMPORÂNEAS!

RESENHA DE A CABEÇA DO SANTO DE SOCORRO ACIOLI – O REALISMO FANTÁSTICO BRASILEIRO!

Depois da morte de sua mãe Mariinha, Samuel busca, a pedidos da mesma, por seu pai, apenas com o endereço e nome da avó, que vivia em Candéia uma cidade minúscula perto de Canindé. A avó, segundo Mariinha, era muito bondosa e poderia ajudá-lo. O pai havia deixado a mãe com a promessa de que voltaria com muito dinheiro, mas nunca voltou, e ela nunca se conformou, achava que sim, algo de muito grave tinha acontecido. Samuel estava cético, mas prometeu para a mãe, em seu leito de morte, que encontraria o pai e acenderia três velas: uma para o Padim, outra para Santo Antônio, e para finalizar uma para São Francisco.

Você pensa que foi fácil? Nananinanão! Samuel sofreu, mendigou e foi atacado por cães raivosos até encontrar a avó que o mandou até a cabeça do Santo. Sim, uma cabeça de Santo Antônio gigante que deveria estar presa ao corpo, mas, por motivos que não posso dizer porque seria spoiler, estava deixada as traças, e a outros animais, no pé do morro. Samuel se abrigou de um temporal ali e começou a escutar as rezas das mulheres da região que pediam ao Santo um marido.

Enquanto sofria de um grave ferimento causado por cachorros selvagens Samuel conheceu Francisco, um rapaz que se esgueirava para dentro da cabeça para fazer saliências consigo mesmo. Uma amizade inusitada começou e os dois resolveram ajudar uma das mulheres a se casar. À partir daí Samuel virou um grande casamenteiro e grandes milagres aconteceram na região. Aglomerações se formaram em busca de amor e a cidade que estava em desasgraça retorna a vida.

Nesse ínterim mistérios são revelados, personagens se cruzam, histórias do povo de Candéia e Canindé são contadas. Eu me divertir descobrindo cada causo inesperado que se passou naquela pequena cidade. É um livro gostoso, até emocionante, cheio de segredos muito bem trabalhados. A escrita de Socorro é estimulante, ela te conduz através da história sem verborragias desnecessárias, mas com um drama sutil e delicioso. Torcemos para que os personagens encontrem o destino pelo qual estavam destinados e esperamos que um milagre se faça para aquele moço milagreiro que surgiu do nada.

Os melhores livros de prosa contemporânea para ler hoje | 8 livros que li na pós graduação!

Nesse post eu vou falar dos 8 livros que li na matéria da pós graduação sobre prosa contemporânea, que podem ser considerados os melhores livros de prosa contemporânea da atualidade! São livros que ganharam prêmios, ganharam o coração da crítica e venderam muito: em todo mundo! Tem dois livros nessa lista que eu AMEI e foram dois dos melhores do ano, mas outros dois eu achei que não era para tudo isso não.

Eu sou aluna de pós graduação em formação de escritores no instituto Vera Cruz, e esse bimestre me inscrevi em uma matéria sobre prosa contemporânea, onde junto com o professor, nós destrinchamos oito livros, tentando entender o que fazia deles livros de sucesso, e porque ganharam tantos prêmios e aclamação da crítica. Cada livro tem sua característica inovadora e conversam muito com nossas questões contemporâneas.

Vou falar um pouco de cada um deles, mas sem dar spoilers sobre seus finais ou acontecimentos importantes. Seguirei a ordem de leitura que a gente leu para pós, que foi do livro mais curto, para o mais longo.

Lista com pequenas resenhas dos melhores livros contemporâneos para ler hoje:

1) A vegetariana de Han Kang

A vegetariana é um livro da sul coreana Han King! Ele foi lançado em 2007 mas se tornou um sucesso internacional depois que venceu o Man Booker Internacional Prize de 2016. No Brasil ele só foi publicado em 2018 pela todavia. O livro é dividido em três partes com três narradores diferentes, todos em primeira pessoa.

A personagem principal, Yeonghye, decide ser vegetariana depois de ter sonhos sangrentos em relação a carne. No primeiro capítulo lemos o que o marido dela sente em relação a isso. Ele é uma pessoa comum, super mediana e fica muito bravo com a escolha da esposa. A voz de Yeonghye aparece aqui por meio de fragmentos em itálico, onde ela conta seus sonhos, mas isso não acontece nas outras partes.

O primeiro capítulo foi publicado como um conto em 97, e só depois de muitos anos ela escreveu os outros. O segundo capitulo é narrado pelo cunhado de Yeonghye que decide que ela seria sua obra de arte. Por último vemos como sua irmã lida com as coisas que acontecerem por conta da decisão da irmã, Yeonghye, de ser vegetariana. É o capítulo mais complexo e bonito. O livro é intenso e carrega um tanto de magia quanto os livros de Murakami.

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2) O pai da menina morta de Thiago Ferro

O pai da menina morta é um livro de Thiago Ferro lançado em 2018 também pela Todavia. Em 2019 ele ganhou o prêmio São Paulo de Literatura e o prêmio Jabuti na categoria melhor romance. Esse é um livro de fragmentos sobre a história de um pai que perdeu sua família, história parecida com a do próprio autor.

Por meio de fragmentos, como se fossem posts em redes sociais, listas, e-mails e mensagens de Whatsapp, ele nos conta sobre a perda. Não é um livro triste, é na verdade, um tanto estranho, pois o personagem principal é um cara meio babaca, meio frio, autocentrado. Isso incomodou um pouco a leitura pois não consegui separar o autor do obra.

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3) Temporada de furacões de Fernanda Melchor

Temporada de Furacões é um livro da mexicana Fernanda Melchor, lançado em 2017 no México e aqui no Brasil em 2021. Ele ganhou prêmios no México e foi finalista do International Booker Prize 2020. Imagina uma escrita tipo Virginia Woolf com uma ambientação bem Gabriel García Márquez. Eu já escrevi uma resenha completa dele aqui.

O livro começa quando um corpo é encontrado, esse corpo é de uma personagem denominada A Bruxa, uma curandeira da região, e ao longo dos capítulos descobrimos mais sobre essa mulher. Todos os capítulos são em terceira pessoa, mas cada um foca em um personagem com um fluxo de consciência sufocante.

Os personagens vivem em uma cidade extremamente pobre chamada La Matosa e chega em um ponto que os capítulos se tornam confessionais como se ele estivessem sob testemunho. Muitos assuntos delicados são tratados aqui, então temos que ler com cuidado.

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4) Com armas sonolentas de Carola Saavedra

Carola Saavedra é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. Seu último livro de ficção foi ComaArmas sonolentas que destrincha a vida de quatro mulheres que se sentem não pertencentes aonde vivem.

O primeiro capitulo é focado em Anna, uma mulher que foi para a Alemanha com seu namorado alemão, e ficou sozinha no exílio. A segunda personagem é sua mãe, que foi tirada de sua terra para trabalhar na casa de uma família rica, essa mãe recebe visitas espirituais da avó dela que foi uma indígena, também retirada de sua terra muitos anos anos atrás.

No último capítulo conhecemos Maike, uma menina Alemã que sente que não pertence a sua família e aos poucos descobrimos sua ligação com as outras mulheres. O livro começa na chave do real mas depois toma um rumo de realismo fantástico muito interessante.

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5) Garota, mulher, outras de Bernadine Evaristo

Esse livro é um dos queridinhos do bookstagram também, né? Me conta nos comentários se você já conhecia ele!

Garota, mulher e outras é um livro escrito pela inglesa Bernadine Evaristo, onde ela trata de temas presentes na vida das mulheres negras que vivem lá: o preconceito, a imigração, as diferenças culturais, relacionamentos e etc. Esse livro também foi um vencedor do Booker Prize em 2019.

Cada capítulo uma mulher conta sua vida em primeira pessoa, em parágrafos curtos, fazendo com que a leitura seja bem fluída. A vida dessas mulheres se cruzam ao longo da história e nós conhecemos a subjetividade e a individualidade de cada uma.

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6) Torto Arado de Itamar Vieira Júnior

Sucesso absoluto no Brasil. Torto Arado ganhou todos os prêmios importantes por aqui e em Portugal, primeiro o prêmio Leya, depois o o prêmio Oceanos e o Jabuti.

Itamar Vieira Junior conta a história de duas irmãs, filhas de um curandeiro respeitado na fazenda em que vivem na região do Jarê. Elas moram e trabalham na roça, e quando crianças uma delas decepa a própria língua.

Esse mistério permeia todo o livro que é dividido em três partes e contado em primeira pessoa por cada uma das personagens. O livro fala um pouco sobre os processos quilombolas, a reforma agrária, a luta pelos estudos e o sincretismo religioso que existe no Jarê.

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7) Lincoln no limbo de George Saunders

Outro vencedor do Man Booker Prize de 2017, nada mal essa lista né?

Lincoln no limbo é um livro do contista George Saunders. Aqui ele conta a história do filho de Abraham Lincoln que morreu em 1862. Ele ficciona essa morte trazendo Willie para um limbo onde ele conhece outros fantasmas. O livro traz diversas vozes, as dos fantasmas, em primeira pessoa que são intercaladas. Nas primeiras páginas não se entende muito bem o que acontece ali, mas aos poucos você entra na história.

Os capítulos são divididos entre as narrações dos fantasmas e recortes de jornais (alguns ficcionais) e biografias que contavam sobre o Lincoln, a morte de Willie, a guerra civil e o que estava acontecendo na casa branca, e todas as questões existentes naquela época.

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8) A morte do pai de Karl Ove Knausgård

Livro do norueguês Karl Ove Knausgård é o ínicio de uma série Autobiográfica aclamada pela crítica. Nesse livro ele conta sobre seu relacionamento com o seu pai, um homem frio e distante, até a sua morte.

É o maior livro da lista e o mais difícil de ler, pois o escritor é bem minucioso nas descrições. Ele vai e volta no tempo da narrativa e nos tempos verbais. Então, tiver que ficar muito atenta enquanto lia para entender essas nuances, porque ele vai do passado para o presente, do passado para o mais passado com muita facilidade sem se importar com em explicar.

Mas é um livro muito bonito, principalmente depois da metade onde o filho retorna a casa de seu pai depois da morte dele.

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Essas foram as resenhas dos oito livros de prosa contemporânea que lemos!

Me conta se você já leu algum deles no comentário?

Assista o vídeo no Youtube:

Resenha: Temporada de Furacões de Fernanda Melchor

A narrativa instigante de Temporada de Furacões é para ser lida em um fôlego só. Com frases gigantesca que não terminam onde deveriam, o livro, na minha visão, é uma mescla de nomes importantes da literatura como Virginia Woolf e Gabo. Cito a Virginia porque o fluxo de consciência é feito com maestria e me fez entrar dentro da cabeça dos personagens, que vivem em uma vila pobre do México chamada La Matosa, onde a violência fala mais alto do que o bom convívio entre os habitantes. Cito o Gabriel García Márquez porque a vila onde se passa Temporada de Furacões me levou até Macondo.

A narrativa é cheia de incômodos e inicia com um corpo putrefato na beira do rio. Esse corpo pertence a Bruxa, um travesti, ou seria uma mulher trans? Não sabemos ao certo pois sua mãe a criou como menina desde sempre. Esse é um dos pontos muito interessantes no livro pois descobrimos isso apenas na metade da narrativa. A Bruxa é filha de uma mulher que era a “bruxa” antes dela e as duas tiveram uma vida muito sofrida apesar de sempre ajudarem quem pedia. Elas tinham o conhecimento das ervas o que era muito útil para os habitantes da região que muitas vezes abusavam delas.

Por ser muito conhecida, a morte da Bruxa abala a cidade. A partir daí conhecemos a subjetividade dos personagens que estavam próximos a ela. Cada capítulo descobrimos uma voz narrativa diferente, com suas peculiaridades e vontades. A rudez das pessoas que vivem ali é clara, assim como brutalidade que os personagens carregam. Para mim pareceu que os personagens estavam sob testemunho contando cada passo que deram até a descoberta da morte da Bruxa (e depois) e o que viram nesse caminho. 

O machismo, a violência (tanto verbal quanto física), a falta de cuidado uns com os outros, as drogas e o sexo, são constantes e comum na vida de cada um desses personagens que reproduzem o que sempre viram. Exceto apenas por Luismi que parece mais doce do que os outros, mas pode ser pelo fato dele estar sempre chapado. De qualquer forma, não podemos dizer que os personagens são bons ou ruins, todos eles são complexos e bem construídos, parecem pessoas reais, que são filhas do seu meio.

A homossexualidade também é um tema presente no livro e o modo como os personagens lidam com isso me surpreenderam, as vontades estão em camadas e muitos dos personagens usam isso para afirmar sua masculinidade. O livro também nos mostra, com o personagem Brando, como a vontade de afeto para com o mesmo sexo é reprimida deixando espaço apenas ao carnal. Além disso, o afeto é uma das grandes faltas para os personagens do livro e acredito que a maioria deles desejam isso, de acordo com várias passagens, e isso fica evidente quando conhecemos Norma.

Ao todo, eu achei o livro muito interessante, tanto na temática quanto na forma. A linguagem e a construção de frases são usadas para rasgar alguma coisa dentro da gente, mas mesmo assim não queria parar de ler. A forma me prendeu (deve ser porque sou uma grande fã de Virginia Woolf e não me deparo com livros escritos dessa forma com frequência), assim como a narrativa escrita em camadas e recheadas de descobertas que me fez caminhar até o fim em poucos dias.

Resenha de Enterre seus mortos: O melhor da literatura brasileira contemporânea!

Ana Paula Maia é um nome conhecido na literatura brasileira contemporânea, escreveu sete romances, dois que ganharam o Prêmio São Paulo de Literatura (Assim na terra como embaixo da terra em 2018, e Enterre seus mortos em 2019) e dois que pertencem a uma saga, a saga dos brutos. Ela também é roteirista, escreveu para o cinema e o teatro, e está com uma série em cartaz no Globo Play chamada Desalma.

O livro que escolhemos para fazer parte do Clube do livro Contemporâneas foi Enterre seus mortos. Uma narrativa seca e forte que conta a história de dois homens que trabalham como removedor de animais mortos na estrada. Esses corpos vão para um grande triturador fazendo com que os personagens presenciem a morte da maneira mais crua possível. Edgar Wilson (uma homenagem a Edgar Allan Poe) é um personagem recorrente na obra de Ana Paula Maia, ele é um homem simples que executa tarefas. Seu colega Tomás é um ex padre excomungado pela igreja católica. Aos poucos percebemos que eles lidam com a morte de maneiras diferentes.

“Não pressentir o mal não é sinônimo de que ele não existe ou desapareceu. São os opostos devidamente dosados que mantêm o sistema equilibrado e, assim, se o mal se ausentou, é provável que o bem também o tenha feito.” Página 43.

Em uma mistura de faroeste e romance policial os dois personagens estão inseridos em um não lugar, um espaço onde as coisas acontecem e ninguém vê. A religião domina a vida das pessoas que são largadas a própria sorte sem um aparelho social eficiente. E é assim que a história começa, Edgar Wilson encontra o corpo de uma mulher rodeado por urubus. Não podendo deixá-lo lá ele leva para o depósito em que trabalha. Espera pela polícia que demora para aparecer e no fim diz que não poderá fazer nada naquele momento.

Edgar e Tomás encontram outro corpo. Então, eles buscam dar um fim digno aos dois. Nessa busca eles se deparam com a corrupção, injustiças e acidentes. Fazendo com que a nossa indignação, em relação a tudo que acontece, só aumente. A leitura é seca e bem rápida, eu senti que lia um roteiro de uma série de suspense do Netflix, é uma narrativa muito visual. Ficamos em busca de saber o que acontecerá e a tensão vai aumentando aos poucos até o fim do livro. É necessário estômago forte para as cenas mais sangrentas, mas vale muito à pena como um todo.