O COPO VAZIO DE NATALIA TIMERMAN | Resenha do livro que fala sobre Ghosting e relações líquidas!

Mirela, uma mulher de 32 anos sofreu pelo desaparecimento do cara que ela estava ficando. E não foi um desaparecimento de filme de terror não, ele apenas nunca mais respondeu suas mensagens, e acabou com todo o contato que eles tinham do dia para noite.

Copo vazio foi o segundo livro que lemos no Clube do Livro Contemporâneas nesse ano, o primeiro foi Primeiro eu tive que morrer da Lorena Portela. O nosso livro de fevereiro foi escrito pela Natalia Timerman, uma psiquiatra e psicoterapeuta paulistana. A mulher tem um currículo extenso, e por coincidência ela fez a mesma formação de escritores que eu lá no Instituto Vera Cruz. Se um dia eu escrever um livro tão potente quanto o dela eu vou ficar muito feliz.

Seu primeiro livro foi Desterros – Historias de Um Hospital-Prisão onde ela conta a história de detentos e funcionários que passaram pelo sistema carcerário paulistano enquanto ela trabalhava no Centro Hospitalar do Carandiru. Seu segundo livro Rachaduras foi lançado em 2019, é uma coletânea de contos indicada ao Jabuti.

Em 2021 ela lançou seu primeiro romance Copo Vazio que saiu pela editora Todavia. Foi o maior burburinho em volta desse livro ano passado né? Muita gente leu e comentou e é interessante refletir sobre o porque desse livro ter feito tanto sucesso. E eu vou dar minha opinião aqui, antes de entrar na resenha: Acredito que seja porque muitas mulheres já passaram pela mesma situação que Mirela.

Mirela é uma arquiteta de 32 anos, ela conhece Pedro, um homem que parece ser tudo que ela sempre quis. A história começa no futuro, quando Mirela já bem mais velha encontra Pedro em um supermercado. Assim ela relembra seus dias ao lado dele, os dias que se passaram depois de seu sumiço e tudo que ela viveu sofrendo por ele.

Eles se conheceram em um aplicativo de namoro, saíram algumas vezes e as coisas foram ficando intensas, pelo menos do ponto de vista da Mirela. Aos poucos vamos descobrindo qual era a natureza da relação dos dois e como as coisas entre eles foram desenvolvendo, em uma narrativa eletrizante que te prende até o final. O livro fala sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá imaginando o que aconteceu.

É incrível como a Natália conseguiu representar muito bem a vulnerabilidade feminina e as inseguranças que temos em relação aos relacionamentos. Para Mirela o relacionamento está caminhando para algo a mais, Pedro também parece estar envolvido e a todo momento ficamos procurando pistas de sua fuga próxima. Ele não dá certeza nenhuma para ela, e foi por isso que ela encheu seus pensamentos de projeções do que poderia ser essa relação.

Ele dá corda, até chama ela para viajar com ele para visitar sua avó. Ele alimenta as expectativas dela mesmo não estando tão afim assim, e depois ele some, sem dar explicações, sem terminar, sem nada, ele apenas some. Mirela manda mensagens e ele não responde, então, ela começa a entrar em um redemoinho de inseguranças e incertezas que mechem com sua autoestima. Mirela sofre por ele e essa perda afeta seu trabalho e seus relacionamentos mais próximos. E os futuros. A carência afetiva se intensificou pela ansiedade que o sumiço dele causou.

Na minha opinião o que Pedro fez foi cruel, por mais que eles não tivessem em um relacionamento, faltou responsabilidade afetiva. Eles se viram com frequência por 3 meses, eles conversavam constantemente, e já estavam envolvidos com os amigos um do outro. Ele poderia ter sido mais sincero ao invés de deixar ela assim. De qualquer forma as atitudes de Pedro sempre eram ambíguas, inclusive depois do sumiço, ele ainda orbitava na vida da Mirela, curtindo fotos, causando uma ansiedade extrema nela.

Esse livro é importante para abrir nossos olhos em relação a algumas atitudes masculinas extremamente tóxicas, como a falta de responsabilidade afetiva e a certeza de que eles tem de que podem tratas as mulheres da maneira que quiserem. Outra coisa que esse livro nos mostra é que isso pode acontecer com qualquer uma de nós e já aconteceu diversas vezes, muitas meninas do clube tinham histórias muito similares e diziam ter passado por coisas muito parecidas.

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Enfim, eu gostei muito desse livro, a Natália escreve muito bem. Ela vai entregando a história aos poucos. Cada capítulo é uma surpresa, pois ela intercala o passado e o presente da personagem, ao estilo durante e depois, sabe? Durante o relacionamento e depois do relacionamento. Foi muito interessante ver a escalada e a transformação ao nada desse relacionamento cruel.

RESENHA PRIMEIRO EU TIVE QUE MORRER DA LORENA PORTELA | Uma escritora brasileira independente!

O primeiro livro do Clube do livro contemporâneas de 2022 traz uma narrativa que se aproxima de questões muito atuais. Escrito por Lorena Portela, que é uma cearense que mora em Londres, o livro Primeiro eu tive que morrer está fazendo sucesso nas redes.

Acredito que muitas mulheres se identificaram com a protagonista que viaja para Jericoacoara para se recuperar de um burnout. Lorena fez todo o processo de escrita e impressão do livro de forma independente, e para mim esse é um dos pontos altos da obra, pois ela nos mostra que se temos um sonho poderemos realizá-los por nós mesmas. Claro, ela teve ajuda de muitas mulheres para a construção dele. Ao longo das páginas vemos obras lindas de artistas que deixaram sua impressão nesse livro.

A escrita é simples e leve, o livro fluí. É uma história que já conhecemos: a nossa história enquanto mulheres. A personagem principal poderia ser qualquer uma de nós, ela não tem nome, mas as coisas que ela passa são comuns: o trabalho extra para uma mulher se posicionar no mercado, a responsabilidade e culpa dentro dos relacionamentos, o assédio, às vezes silencioso, e às vezes escancarado. Até o momento do “não aguento mais!”

A personagem vai para Jeri por 2 meses, para se recuperar do stress que é trabalhar em uma agência de publicidade. Lá ela fica na pousada de duas amigas, Sabrina e Ana, que são um casal. Elas abrigam a amiga em troca de uma pequena ajuda com a pousada. Outra personagem que aparecerá é Glória, uma espanhola que teve um affair com nossa protagonista uns anos antes em Lisboa e que estará na América Latina.

Ela também conhece Amália, uma mulher misteriosa, que faz coisas bizarras com ela, tipo quase a afogar no mar. Amália também é muito homofóbica. Essa mulher faz ela duvidar de si mesma e de sua relação com Glória. Fiquei com muito raiva dessa mina, e eu já teria mandado ela catar coquinho (para não dizer uma palavra feia aqui, não é mesmo? Você me entende né?). Enfim, temos também Guida e Luana, vó e neta que são um porto seguro para a personagem.

O livro é em primeira pessoa e é uma escrita bem simples mesmo, eu já falei isso, mas ele carrega a vida dessas mulheres incríveis. Histórias que não podemos esquecer e que devemos sempre exaltar. Lorena escreveu a história que eu também estou escrevendo, parece até que ela leu meus pensamentos.

A ambientação do livro é uma delicia, se passa em um lugar paradisíaco. Um lugar perfeito para uma fuga, até do próprio corpo, para então se reestabelecer de uma maneira mais saudável. Alcançando talvez a completude?

#1 Diário de escrita – Primeira semana escrevendo meu segundo livro!

Photo by Etienne Girardet on Unsplash

Já faz um tempo que quero escrever um diário de escrita. Acho importante documentar os passos que me levarão até a completude desse projeto. Por mais difícil que seja eu vou ter que terminar esse livro até abril de 2023 para apresentar na banca de TCC. Eu faço uma pós graduação chamada: formação de escritores. Sempre abrevio e digo que faço pós graduação em escrita criativa, mas não sei se isso é correto, de qualquer forma essa é uma maneira mais simples de explicar sobre o curso.

Essa semana tivemos que entregar o projeto de livro, onde falamos sobre os porques de nossas escolhas e mostramos um cronograma detalhado do processo de escrita. Coloquei que escreveria um capítulo de dez páginas por semana, o que eu espero conseguir, mas quem escreve sabe o quão difícil isso é. A narrativa que escolhi como projeto foi algo que eu nunca imaginei que escreveria: uma história de fantasia. Uma mulher quebrada, meu primeiro livro (que ainda não terminei) é uma história bem realista, e eu sempre imaginei que continuaria nessa pegada.

Decidi experimentar em uma das oficinas passadas, onde escrevi três contos. Cada um com o ponto de vista de um personagem: Teodora, Vitória e Caio. Teodora é uma mulher que viaja no tempo enquanto dorme, mas ela não tem controle sobre suas viagens. Vitória é uma bruxa que usa o álcool como combustível. Caio é o filho perdido de Teodora, ele viaja no tempo também, mas como um espectro. Todos eles são praticamente imortais. Essa história rendeu elogios e depois de refletir sobre o que eu queria como projeto decidi me jogar nessa história.

Tive que finalizar o primeiro capítulo essa semana. Para escrever ele eu usei partes que eu já tinha do conto anterior e adicionei algumas coisas que fariam mais sentindo para a trama. Por falar nisso, é uma trama complexa, onde os personagens se encontram em tempos e lugares diferentes. Meu foco inicial era discorrer sobre três cidades que eu amo: São Paulo, Florença e Tânger. Isso mudou um pouco e eu adicionei mais cidades na lista, e também mais do passado e do futuro. É isso, teremos passado, presente (o nosso) e o futuro tudo em um mesmo lugar. Vou de 5009 A.C até 3065 D.C. O que será que vai sair disso? Ainda não sei, mas estou louca para descobrir!

9 DICAS PARA ESCREVER MELHOR QUE NÃO SÃO TÃO BOAS ASSIM | Conselhos de escrita criativa reformulados

Existem algumas dicas sobre escrita criativa que devem ser repensadas. E eu trouxe nesse post os mais comuns e quero que você pense comigo sobre 9 eles, vamos lá?

A maioria das dicas de escrita criativa são positivas, mas algumas deviam ser repensadas ou reformuladas.

Acho que qualquer dica que nos dão devem passar por um filtro para sabermos se ela faz sentindo ou não. É normal que a gente discuta coisas do passado e tente trazer para uma escrita mais moderna, e pra uma vida mais moderna, como é o caso da primeira dica que é:

1) Escrever todos os dias

Esse conselho é tão irreal. Poderia até funcionar alguns anos atrás, quando as pessoas realmente viviam da escrita, e os escritores escreviam todos os dias porque esse era o emprego deles. Lembro de ler Paris é uma festa do Hemingway, e nesse livro ele traz suas memórias da Paris da década de 20, e naquele tempo ele dizia que escrevia todos os dias durante as manhãs e o resto do dia era festa com Picasso, Gertrude Stein e os Fitzgeralds.

Bons tempos, mas o mundo é outro e agora nós temos os nossos trabalhos, não tão divertidos mas que pagam as contas, e estudos. Às vezes simplesmente não dá para escrever todos os dias e eu não quero que você se sinta mal se não conseguir fazer isso. O que eu quero é que você tenha uma rotina de escrita, seja ela qual for.

Você tem que entender o que é melhor para você. Você funciona bem quando trabalha em um projeto estruturado? Então faça isso. Você gosta de escrever sem parar por quinze dias? Faça isso nas suas féria. Você gosta de intercalar histórias e trabalhar nelas nos fins de semana? Faça isso também! Encontre sua própria rotina e o que te faz bem, afinal, a escrita deve ser algo prazeroso.

2) Mostrar ao invés de contar!

Eu gosto e não gosto dessa dica. Ela é muito importante, e acho que é a mais conhecida de toda as dicas literários, né? Está na boca de todos os professores de escrita criativa. Mas contém problemas na raiz desse conselho, apesar de essencial ele não pode ser generalizado. Tem narradores que funcionam melhor contando uma história ao invés de mostrar, como os narradores em primeira pessoa. Um livro que eu sempre uso como exemplo é Torto Arado que tem duas narradoras em primeira pessoa que contam a história ao invés de mostrar. A segunda narradora faz mais do que a primeira mas isso é conteúdo para um outro post. Um narrador em terceira pessoa onisciente por exemplo, funciona melhor mostrando a história.

Se eu pudesse reformular esse conselho eu diria pra você equilibrar seus textos entre mostrar e dizer. E dependendo do narrador você pode utilizar uma técnica mais do que a outra. Mas sem exagerar porque uma história com muito contar fica maçante, acho que é por isso que esse conselho é tão dado. E acho também, que escritores iniciantes tem mais dificuldade de mostrar do que contar, isso é natural. Por isso que temos entender como as duas coisas funcionam para escrever uma história, seja ela longa ou curta, forte.

3) Começar a escrever por contos, não romances.

Seu sonho é escrever um romance (e quando eu digo romance eu quero dizer uma prosa longa), você tem uma ideia para esse romance, mas dizem para você começar por contos, porque é mais simples! Não! Escrever contos não é algo simples (Inclusive eu tenho dois posts aqui, um com dicas para escrever um conto incrível, e outro onde dou o passo a passo para você estruturar um conto)! Escrever um bom conto é tão difícil quanto escrever um bom romance. As estruturas são diferentes, então não adianta nada você estudar muito a estrutura de um conto se você quer escrever um romance, entende?

O que você pode fazer é testar essa sua escrita nos capítulos do seu romance: escreve o primeiro capitulo, mostra ele para seus amigos, ou faz uma oficina e apresenta para seus colegas. Você vai ser criticado (e nos meus vídeos quando eu falo de critica é de uma maneira positiva, ok?) e assim você vai melhorar. Então, se o seu sonho é escrever um romance se joga nisso!

4) Não tenha como objetivo se tornar escritor

Acho que esse é o conselho que eu mais odeio! Sério, se eu não tiver como objetivo me tornar escritora o que que eu to fazendo estudando escrita e escrevendo nos meus tempos livres? Eu quero ser escritora! Quero dizer pra todo mundo que eu sou escritora, esse é meu sonho e minha paixão. É muito importante que tenhamos paixões e sonhos! O problema desse conselho é que coloca a escrita em um patamar tão elevado que nos deixa inseguros achando que não podemos alcançar.

Quantas pessoas que escrevem não tem a coragem de dizer que é escritor? A gente envolve a escrita em um academicismo que nunca vai nos permitir chegar até os escritores canônicos. Inclusive essa é uma palavra muito interessante né? O cânone é um conjunto de modelos e formas que passou a ser considerado exemplar e consequentemente divino, né? Então, rola um endeusamento dos escritores. Isso não é nada saudável.

5) Escreva sobre o que você sabe

Esse conselho eu segui por anos até entender que tudo o que eu não sei (que é muita coisa) eu posso aprender. Além disso, escrita é sobre imaginação, sobre criar um panorama novo. Então eu diria, se você quer escrever sobre algo que você não sabe, estude sobre isso. Eu estou fazendo uma série de roteiros para os vídeos sobre 50 fatos de várias autoras que eu gosto, como a Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Angela Davis (vou deixar os vídeos no card aqui em cima) e eu sabia muito pouco sobre a vida delas, então fui atrás de ler biografias e mais obras delas. O trabalho de escrita também é um trabalho de pesquisa, então sempre lembre que o que você não sabe você pode aprender e o que você não pode aprender, você pode inventar. Escreva sobre o que você quiser!

6) Não se importar com a gramática

Eu mesma já escutei “Ah, não se importa com a gramática agora, alguém vai revisar depois”. Isso é verdade, se você já tiver um editor para quem mandar o seu livro e uma equipe para corrigir e melhorar ele. Você como um escritor iniciante deveria pensar em entregar seu romance, ou conto, o mais acabado possível. Porque isso conta pontos em concursos e nas apresentações a editoras. E para escrever a gente tem que ter domínio do português, né? Entender as nuances de cada palavra, e o seu significado preciso, afinal, todas (eu disse TODAS) palavras que estão dentro de uma história são essenciais.

7) escrever diálogos da mesma forma que se fala

Isso pode parecer bom e intuitivo mas não é, porque a fala tem muitas pausas. Às vezes não encontramos as palavras adequadas para usar em um diálogo. A fala também é afetada pelo contexto social que estamos inserido e quem é nosso interlocutor. Então, quando escrevemos nós não vamos escrever como falamos, porque o texto sairia truncado e sem sentindo. Temos que escrever de modo literário usando tudo o que a gente já sabe sobre a fala, por exemplo: o que as palavras significam para o nosso personagem, o que ele quer passar com o que está dizendo e o que ele está escondendo entre as palavras que ele diz. O que ele não diz? Isso é muito importante também.

Então é isso, temos que respeitar o modo falado mas dar uma melhorada nele, sabe? Transformar em algo literário.

Ai a gente entra na oitava dica que todo escritor iniciante está cansado de ouvir.

08) Evite diálogos!

Na escrita você tem uma grande liberdade para criar e escolher as suas técnicas para passar uma mensagem. E eu acredito que o diálogo é muito importante, principalmente para revelar contradições entre o que passa na interioridade de um personagem e o que ele quer passar para o mundo. Sério, diálogos são muito importantes, e ao invés de evitar os diálogos eu acredito que podemos melhorar eles, dar um sentido para eles. Como eu já disse, tudo que está na história tem extrema importância, inclusive os diálogos.

Para dar um exemplo de como um conto praticamente inteiro feito através de diálogos funciona vou citar Hemingway mais uma vez, ele escreveu um conto chamado Colinas como elefantes brancos onde o diálogo é a base do conto. Dá um google nesse conto, é facinho de achar, que você vai ver que incrível o que ele fez e quem sabe te inspira a não evitar os diálogos.

09) Escreva para os seus leitores

A literatura é uma arte. Claro, a gente tem que saber quem queremos alcançar com a nossa história, mas criar uma persona, como eles fazem no marketing para basear a sua história nele, é um absurdo. É totalmente irreal. Você acha que a Virginia Woolf escrevia para uma persona? Não. Um livro e uma história não deveriam ser um produto para alcançar mais compradores. Então, mesmo os escritores mais famosos que tem seus leitores mais fiéis não deveria basear suas histórias no que eles vão escolher. Me sinto tolhida só de pensar que eu tenho que escrever para alguém querer comprar.

É isso gente, espero que tenham gostado! Tem mais algum conselho de escrita que você está cansada de ouvir? Me conta nos comentários.

AMIZADES FAMOSAS DA LITERATURA | Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst eram as melhores amigas da vida!

Muita gente não sabe que a Lygia Fagundes Telles e a Hilda Hilst eram as melhores amigas. Esses dois nomes de peso da literatura brasileira viveram lado a lado até a morte de Hilda em 2004. Foram 50 anos de amizade que eu vou revelar aqui no post de hoje.

Como vocês sabem o Rumo ao Farol é um espaço que falamos sobre literatura e escrita criativa, e além dos livros e das dicas que eu trago eu também adoro uma bela fofoca. Umas das coisas que eu amo descobrir são as amizades e inimizades de gente famosa e esse novo quadro será basicamente isso, eu contando pra você as tretas e os amores das maiores escritoras e escritores desse mundão!

SAO PAULO CADERNO 2 Fotos da escritora Hilda Hilst que integrarão a Ocupação Hilda Hilst, sobre o processo de escrita da autora, em cartaz no Itaú Cultural entre os dias 28 de fevereiro e 21 de abril. NA FOTO Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles – Anos 1950 Autor não identificado/Acervo Instituto Hilda Hilst

Para começar eu escolhi essa bela amizade da nossa literatura brasileira que durou meio século. Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst: duas mulheres com escritas potentes que se apoiaram ao longo de suas carreiras. Eu já li e adoro o trabalho das duas, então achei incrível quando descobri que eram amigas.

Elas se conheceram em 1949, durante uma festa na Casa Mappin , em que homenageavam o livro da Lygia: O cacto vermelho. Lygia estava acompanhada de Cecilia Meireles quando viu Hilda e depois escreveria que Hilda era “uma jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante. Como acontece hoje, eram poucas as louras de verdade, e essa era uma loura verdadeira, sem maquiagem e com os longos cabelos dourados presos na nunca por uma larga fivela. Vestia-se com simplicidade. Apresentou-se: ‘Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco’. Abracei-a com calor. ‘Minha futura colega!’, eu disse, e ela sorriu. Quando se levantou, bastante emocionada para fazer o seu discurso, ocorreu-me de repente a poética imagem da haste delicada de um ramo tremente de avenca […]”

Naquela época Lygia era uma contista reconhecida, enquanto Hilda era uma estudante de direito e aspirante a poeta, lançou seu primeiro livro de poesias, chamado presságios, em 50, quando tinha 20 anos. Depois ela se aventurou na prosa. Lygia, começou como contista e foi se aproximando do romance com os anos.

A amizade gerou apoio mútuo, elas liam a obra uma da outra. Depois cansaram disso e, então, pararam de falar sobre literatura. Hilda disse que todo mundo fez de tudo para criar uma animosidade entre elas. Mas não consequiram! Apesar disso, os universos delas eram parecidos, mas se expressavam de modos totalmente diferentes.

Hilda Também disse: “Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo, ela é ela. Mas ela tem um certo respeito pelo outro. Eu não tenho o menor respeito. Isto não é um defeito da Lygia, é um defeito meu.”

As duas publicaram diversos livros, foram amigas de personalidades da literatura brasileira como Clarice Lispector e Cecília Meireles. São lidas e aclamadas até os dias de hoje, talvez mais a Lygia do que a Hilda porque ela era mais comportada. Lygia recebeu diversos prêmios fora do Brasil, sua obra foi traduzida para muitas línguas e ocupa uma cadeira na academia brasileira de letras.

Lygia foi uma escritora militante, contra a ditadura militar, trabalhou até os 63 anos como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, e foi como presidente da Cinemateca Brasileira. A carreira literária caminhava em conjunto com tudo isso. Hilda também recebeu diversos prêmios, como o jabuti e foi traduzida pra diversas línguas.

As duas foram escritoras ousadas, que construíram duas obras poderosas e mantiveram a amizade por longos anos. Estavam sempre juntas, se apoiando. Eu acho lindo ver amizades tão fortes assim. Lygia dizia a Hilda que ela ficava nua diante dela, e Hilda respondia que ela também ficava. Na velhice Hilda sempre achou que morreria, mas Lygia a acalmava, tanto com sua presença quanto com a fala. Hilda queria morrer segurando as mãos de Lygia.

Hilda morou na chácara Casa do Sol, terreno que era de sua mãe, de 64 até o fim de sua vida, ela gostava da solidão, acreditava que só assim poderia escrever, hoje a casa se tornou um instituto em homenagem a ela. Lygia a visitava sempre que podia e passaram diversos momentos divertidos lá.

Lygia completará 99 anos de vida, Hilda completaria 92 anos, com a diferença de dois dias entre elas.

COMO MELHORAR MINHAS HISTÓRIAS? | 7 erros que todo escritor comete e como evitá-los!

Hoje eu vou falar sobre os erros comuns que escritores iniciantes cometem na hora de escrever um livro ou um conto. Eu, inclusive, já cometi muito desses erros nas minhas histórias e já vi colegas escritores fazendo a mesma coisa. Então eu fiz esse vídeo por que eu não quero que você erre mais!

O processo de escrita é longo e exige muita dedicação! Eu sempre falo isso, né? Mas é verdade, escrever é um processo sem fim, e os escritores estão sempre procurando melhorar e aprender. Eu sou uma delas, então, tudo que eu aprendo de novo eu quero trazer pra você que está me vendo aqui, assim, a gente pode aprender junto, o que você acha?

Hoje eu vou te contar os 07 maiores erros que um escritor iniciante pode cometer e como você pode melhorar as suas histórias!

Mas isso não quer dizer que você faz todos eles, mas é uma boa lista para abrir seus olhos na hora da sua escrita. A maioria deles eu aprendi na pós com a minha própria vivência e o que eu vi meus colegas fazendo.

O que eu mais gosto na escrita é que temos que estar sempre em movimento, sempre melhorando.

Erro número 1 – Palavras rebuscadas ou muito simples!

Esse é um erro muito comum, às vezes quando começamos a escrever acreditamos que temos que usar palavras bonitas e difíceis. Quem nunca procurou sinônimos mais glamurosos para palavras simples que atire a primeira pedra! Isso é normal, principalmente quando ainda não encontramos nossa própria linguagem. Mas as palavras rebuscadas se tornam artificiais, causando estranhamento. Do mesmo modo que palavras muito vazias e lugares comuns podem soar estranho e amador. Então o equilíbrio na linguagem é muito importante. Nada de palavras rebuscadas, ein?

Erro número 2 – Não corrigir o texto!

Eu vejo muita gente que escreve um texto e não corrige depois. Para mim essa parte é fundamental, porque é quando eu vejo as falhas gramaticais, os erros de concordância e até erros na história. Erros de continuidade sabe? Quando algumas situações não conversam uma com a outra. É visível quando pegamos um texto e ele não foi corrigido, nem reescrito, então tire um tempo pra aprimorar a sua história, isso é essencial.

Erro número 3 – Tomar a fala do narrador!

Às vezes quando escrevemos esquecemos que o narrador não é a gente. Exceto Saramago, né? Que disse que todos os seus narradores eram ele mesmo. O narrador pode não pensar como a gente pensa, principalmente quando esse é um narrador em primeira pessoa, Quando o narrador é em terceira pessoa temos que saber como esse narrador conta a história e quem ele é. Eu já escutei muitas vezes que no texto que eu tava trabalhando tinha muito de mim, o que não combinava com a voz da narradora, e os leitores realmente reparam nisso, principalmente os mais críticos.

Erro número 4 – Confusão de tempos verbais!

Essa é uma confusão muito comum para quem tá começando, principalmente quem não tempo um passado na escrita ou na literatura. Eu mesma já cometi o erro de misturar presente, passado e mais passado nas minhas histórias nas minhas histórias, achando que aquilo faria sentido, mas não vez. Claro que você pode fazer isso, mas tem que ter muita consciência do que você está fazendo pra não desmontar que você deixou aquilo passar.

Erro número 5 – O medo da crítica

Sem a crítica seu texto nunca vai crescer. Eu sei que é difícil abrir para os outros uma parte tão nossa. Eu fiquei anos escrevendo só para mim, sem deixar ninguém ver. E foi na pós, estudando com meus colegas e escutando as críticas deles sobre o que eu escrevia que eu aprendi a não levar o que eu escreve tão a sério. A gente tem que se desapegar do medo de ser criticado porque a vida de um escritor é sempre inundada de criticas, mesmo os mais famosos e queridos escritores passam por isso.

Então, deixe seus amigos lerem, faça alguma oficina que te ajude a mostrar seus textos e coloque eles no mundo, só assim você vai saber quais seus pontos fracos e quais seus pontos fortes.

Erro número 6 – Poucas leituras e estudos

Eu tive um professor o Joca que sempre dizia que não dá para ser escritor se você não lê muito. E essa é a mais pura verdade, você tem que ler de tudo! todos os tipos de narrativas, porque cada uma delas pode te ensinar alguma coisa. Leia muito, sério! Outra coisa que eu vejo são pessoas começando a escrever mas que não querem fazer cursos e estudar. Para tudo é necessário uma formação, inclusive para escrita, se você quer escrever vai ter que se dedicar e investir em cursos e leituras teóricas sobre escrita, só assim sua escrita melhora, confia em mim.

Erro número 7 – Desistir, ou ter pouca paciência

Todos os dias eu penso nisso, o quão difícil é escrever um bom texto, lapidar e transformar as palavras em algo que realmente vale à pena ser publicado. É exaustivo e exige muita paciência, porque não se escreve um livro em um dia, são anos de escrita e preparação para um livro ser publicado, principalmente um primeiro livro.

Eu sou uma pessoa extremamente impaciente e tive que aprender a lidar com a minha vontade de ter tudo pronto pra ontem.

E outra coisa, é difícil mesmo, então não desista!

Bom, esses foram os 7 erros que vi durante essa minha caminhada para me tornar escritora. Você já passou por algum desses? Ou vivenciou outros? Me conta nos comentários!

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Simone de Beauvoir: Uma vida – de Kate Kirkpatrick | Resenha da biografia do ícone feminista e escritora do século 20!

A vida de Simone de Beauvoir é um retrato claro da posição da mulher na sociedade. Ela teve uma carreira brilhante, passou pelos exames de filosofia mais difíceis da França, estudou e leu muito. Até hoje ela é lembrada como a seguidora de Sartre, a mulher que esteve ao seu lado toda a vida e que reproduziu suas ideias. Mas a vida de Simone de Beauvoir vai muito além de seu relacionamento com Sartre. Ela foi uma intelectual prolífica, amou muitas pessoas e foi uma feminista engajada.

Kate Kirkpatrick

A biógrafa Kate Kirkpatrick nos mostra isso na biografia Simone de Beauvoir: Uma vida. Hoje vou fazer uma resenha sobre esse livro!

Eu não poderia começar essa resenha sem antes comentar a vida e obra de Kate Kirkpatrick, que é professora da Kings College em Londres. Em entrevista para Quatro cinco um ela disse que não tinha ambições de escrever uma biografia, ela é uma filósofa e pesquisadora de Jean-Paul Sartre, e acreditava que para estudar a filosofia dele deveria entender o contexto intelectual francês no qual ele estava inserido. Então, lia Simone Beauvoir, e fez um estudo detalhado das cartas que os dois trocaram quando eram jovens.

Kirkpatrick também analisou as cartas que Beauvoir trocava com seus amantes e amigos, ela também estudou afundo os diários de Simone. Para assim entender qual eram as nuances de seus relacionamentos e estudos. Escreveu de forma lúcida sobre a vida da moça bem comportada que se tornou ícone, odiada pela maioria que insiste em não entender a sua obra, mas aclamada por mulheres que se sentiram representadas por seus livros.

“Em conversa em um café em Londres, Kirkpatrick explicou, de maneira clara e contundente, que a razão principal que a levou a escrever Simone de Beauvoir: uma vida (Crítica/Planeta) foi a confirmação, através de um cuidadoso estudo de diários e cartas de Beauvoir que foram publicados recentemente, de uma suspeita que tinha havia anos: a maneira como Beauvoir foi retratada ao longo da história, inclusive em biografias anteriores, não fazia jus à sua contribuição à filosofia ocidental.”

Mariana Schiller para a Quatro cinco um.

Em dezessete capítulos Kirkpatrick traz a vida de Simone, e revela as discordâncias entre suas cartas e autobiografias. Conta sobre os relacionamentos nunca mencionados por Simone em seus textos autobiográficos. Desmente acusações inconcebíveis sobre seu posicionamento politico e sexual. E principalmente: mostra a Simone que deveria ser conhecida por todos, a filosofa dedicada, que tinha suas próprias opiniões e criticava com afinco a sociedade em que vivia.

Kirkpatrick também trouxe uma nova visão sobre o relacionamento de Simone e Sartre. Ela os coloca em uma relação de iguais e tira a centralidade dele de sua vida. Simone amou Sartre, mas não era um amor único e incondicional.

Sartre era o “amigo incomparável de seus pensamentos” como a Simone sempre dizia, mais que um relacionamento amoroso, eles tiveram uma bela amizade. Sartre deu diversas entrevistas onde dizia que Simone criticava todas as suas obras, e ele nunca publicava nada sem ela ter lido e comentado. Eles trabalharam juntos, na obra de ambos, e levavam em consideração a opinião um do outro. Por isso, eu acredito que não dá para falar sobre Sartre sem falar sobre Simone.

Simone amou muito! Teve diversos amantes, homens e mulheres, e acreditava na liberdade sexual e amorosa. Ela viveu apenas com um deles, Claude Lanzmann e o ajudou intelectualmente e financeiramente, ele era um intelectual judeu, e cineasta, seu primeiro filme sobre o holocausto foi financiado por Beauvoir. Ela respeitava as ideias de todos eles, que eram a família dela, e continuaram amigos para o resto da vida.

Entre os membros dessa família estão: Olga e Wanda Kosakiewicz, elas irmãs, e Simone teve um caso com Olga e Sartre com Wanda; Jacques-Laurent Bost, que teve um caso com Simone e Olga ao mesmo tempo, mas não juntos, e ele acabou se casando com Olga. Claude Lanzmann, que viveu com Simone no mesmo teto por anos. Bianca Lamblin, que apesar das polêmicas ficou ao lado de Simone, como amiga, para o resto da vida. Nathalie Sorokine que foi amante da Simone quando ambas eram jovens (Simone 27 e Nathalie 20). Sorokine se mudou para os Estados Unidos e abriu as portas de sua casa para Simone sempre que ela ia pra la. E Nelson Algren, que podemos dizer que foi o romance mais intenso de Simone, mesmo com um oceano de distância. O curioso é que Sartre nunca escreveu uma palavra ruim sobre Simone, mas Nelson sim, diversas vezes.

Mas ela se arrependeu de muitas coisas que fez em sua juventude, principalmente os relacionamentos com as alunas. Ela tinha 26/27 quando começou a ficar com alguma delas. Seu relacionamento com Sartre às vezes machucava as terceiras partes, principalmente quando ele resolvia seduzir as amantes de Simone, já que ele era um sedutor incontrolável. Então, com o passar dos anos ela refletiu sobre isso, sobre o amor, e sobre a liberdade. Simone foi uma mulher de reflexões, primeiro sobre a filosofia que lia incansavelmente, Hegel, Kierkegaard, Marx, Freud, Descartes e muitos outros. Depois sobre a condição da mulher na sociedade, e sofreu muitos ataques depois que sua obra O segundo sexo foi lançado. Ela era a bruxa, amarga que não sabia amar, e isso nos atravessa até os dias de hoje. A uma mulher não é permitido pensar, refletir e seguir uma vida de intelectual.

Além disso ela foi veemente contra a ocupação nazista, participou da resistência francesa contra a ocupação alemã, escreveu um livro inteiro sobre isso, Os mandarins. Acreditava que políticas progressistas de esquerda deveriam ser apoiadas, principalmente quando se referia as escolhas da mulher e do aborto. Foi para a União Soviética diversas vezes com o Sartre, já que ele tinha uma amante lá, e criticava as ambiguidades do regime comunista. Esteve no Brasil, na China, nos Estados Unidos, em Cuba e em muitos outros lugares, como já disse nos 50 fatos sobre a Simone, ela era uma viajante. Lutou contra a ocupação francesa na Argélia e no seus últimos anos apoiou diversas causas libertárias.

Recebeu cartas de mulheres que leram a sua obra e se identificaram. Essas mulheres queriam fugir de sua vida, porque quando jovens elas acreditavam que maternidade e o matrimonio seriam cheios de amor, mas que anos depois se viram sozinhas, e descobriam que não construíram nada de significativo e libertador. Simone respondia o máximo de cartas que conseguia e ao longo de sua vida escreveu sobre seus privilégios, sobre a velhice e sobre politica. Kate Kirkpatrick consegue resumir todos os anos de vida Simone de Beauvoir em 553 páginas, em uma narrativa que te prende e te estimula a ler cada vez mais até o fim do livro e da vida de Simone, que foi extremamente interessante e cheia de nuances, como as nossas.

Eu recomendo a leitura desse livro para você descobrir a vida dessa grande mulher!

50 FATOS SOBRE Simone de Beauvoir – Biografia, O Segundo Sexo, Os Mandarins, As Inseparáveis e mais!

Simone de Beauvoir foi uma pensadora muito importante para o século 20. Ela foi uma filósofa, uma escritora dedicada e uma estudiosa disciplinada. Ela questionou a sociedade em que vivia e quebrou diversos padrões de sua época, e levantou questões sobre a liberdade, o amor, o gênero e a sexualidade.

Simone de Beauvoir dando autógrafos no Brasil em 1960

Para fazer esse post eu li a Biografia dela escrita pela Kate Kirkpatrick, e ao longo dos anos eu li diversas obras da Simone de Beauvoir, como O Segundo Sexo, Os Mandarins, Mal-entendido em Moscou.

Também fiz um curso da revista Cult sobre a Simone com a Doutora em filosofia pela USP Juliana Oliva. Vocês viram que eu queria estar bem preparada pra fazer esse vídeo, né?

Dia 09 de janeiro foi o aniversário da Simone de Beauvoir que foi uma escritora e pensadora francesa.

Ela contribuiu não só para o pensamento feminista do século vinte mas também esteve na resistência francesa contra o nazismo em Paris. Foi uma intelectual extremamente culta e prolífica. Tem diversos livros, ensaios, textos jornalísticos públicados. Sua obra vai muito além de O Segundo Sexo, apesar de ser um livro importantíssimo tanto para a filosofia existêncialista, quanto para o movimento feminista que teria força mais de dez anos depois de seu lançamento.

Vi que tem muita desinformação sobre a Simone de Beauvoir na internet, então quis trazer 50 fatos sobre ela de fontes sólidas. Todas as fontes utilizadas para esse vídeo estão lá no fim do post, porque aqui a gente trabalha com fatos pesquisados e estudados.

Bora conhecer os 50 fatos sobre a Simone de Beauvoir?

  1. Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris, às 04 e meia da manhã no dia 09 de janeiro de 1908.
  2. Ela era filha de Georges Bertrand de Beauvoir um advogado que sonhava em ser ator e Françoise Brasseur, filha de um banqueiro bem sucedido, mas que nunca pagou o dote de Françoise porque perdeu tudo.
  3. Um dos antepassados aristocratas de Simone perdeu a cabeça na revolução francesa e depois disso as pretensões nobres da família perderam completamente a força.
  4. Ela e a irmã Hélène estudaram na Adéline Desir Institut, escola católica e privada exclusivamente para meninas.
  5. Desde nova ela já chamava a atenção de seus pais por seus estudos e inteligência. Ela sempre foi muito aplicada, era sempre a melhor da turma.
  6. Ela foi uma leitora precoce e devorava livro atrás de livro, e isso continuou ao longo de sua vida.
  7. Uma personagem literária que inspirou Simone na infância foi a Jo March de Little Women de Louisa May Alcott. Porque ela não queria se casar para seguir carreira literária.
  8. Teve uma infância rígida seguindo os moldes burgueses de uma mãe extremamente católica e um pai egoísta, preguiçoso e machista.
  9. Aos 9 anos Simone conhece a Zaza, Élisabeth Lacoin, que foi sua amiga mais próxima até a morte precoce de Zaza em 29. “As inseparáveis” livro recém lançado pela Record fala sobre essa amizade.
  10. Em 1925 ela foi aprovada no exame de acesso as universidades, de Matemática e Literatura, e licenciou-se nas duas matérias.
  11. Nesse período ela fez duas tentativas de escrita de um primeiro romance, mas nenhuma delas foi para frente. Seu sonho era ser escritora e colocar todas as suas perguntas filosóficas dentro da ficção.
  12. Ela também começou a trabalhar educando proletários do norte da França e depois no instituto em que estudou.
  13. Em 1927 ela obteve seu certificado em História, Filosofia, Filosofia geral e Grego na Sorbonne, ao lado de muitos outros pensadores que se tornariam famosos. Lembrando que as mulheres naquela época não tinham esse tipo de educação, elas nem podiam votar ou ter uma conta bancária.
  14. Foi nessa época que ela chegou a conclusão de que o casamento é “fundamentalmente imoral” já que ele é definido como algo eterno e as vontades podem mudar.
  15. O ano de 1929 foi de grande importância na vida da Simone. Ela se tornou a primeira mulher a dar aulas em um Liceu masculino,
  16. Conheceu Jean Paul Sartre em um grupo de estudos para se preparar para um exame importante. Ele se tornaria seu parceiro e amigo pelo resto da vida;
  17. Ela perdeu a amiga Zaza que morreu apaixonada por outro amigo e colega de Simone, Maurice Merleau-Ponty;
  18. Ao lado de Sartre Simone passou em um exame nacional chamado agregátion para se tornar professora vitalícia do sistema público francês, altamente prestigioso e competitivo.
  19. Aos 21 anos, ela foi a pessoa mais jovem de todos os tempos a passar nesse exame;
  20. Foi também nesse ano que ela e Sartre fizeram um pacto poliamoroso, ela tinha 21 anos e ele 24. Nesse pacto eles deveriam ser cem por cento honestos sobre suas conquistas e leais um com o outro.
  21. Segundo os diários de Simone, nessa época ela não estava apaixonada apenas por Sartre mas também por outros dois homens, René Maheu, amigo de ambos, e seu primo Jacques.
  22. O pacto deles provocou muita curiosidade dos moralistas e é motivo de especulação até os dias de hoje. Muito elogiado e também muito criticado.
  23. Uma curiosidade é que houve um ano em que Simone publicou em nome de Sartre e ninguém notou. A verdade é que essa relação ofuscou Simone, enquanto Sartre era ovacionado, e isso acontece até os dias de hoje.
  24. Entre 1931 e 1935 Simone viveu a vida de uma professora provinciana e morou em Marselha e Rouen para dar aulas.
  25. Voltou para Paris em 36 como professora no Liceu Molière.
  26. Nessa época Simone tinha 27 anos e teve casos famosos com três alunas, Olga que tinha 19 anos, Bianca que tinha 17 anos e Nathalie Sorokine que tinha 20. Olga nunca ficou com Sartre, mas Bianca sim. Elas continuaram amigas para o resto da vida.
  27. Simone também se apaixonou por Bost, ele por sua vez tinha um caso com Olga, e acabou se casando com ela, ele era aluno de Sartre. Uma bagunça né?
  28. Em 39 a Segunda Guerra Mundial começou. Sartre e Bost são convocados. Sartre foi trabalhar no corpo meteorológico e Bost seria soldado. Simone teve seu primeiro “colapso nervoso”, e isso foi se repetindo durante toda a guerra.
  29. Simone começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance A Convidada, que seria lançado em 43, inspirada em sua relação com Olga, Bost e Sartre. A filosofia desse livro pode ser comparada com O Ser e o Nada de Sartre que foi escrito depois.
  30. Em 40 Paris foi invadida pelos alemães, Simone fugiu para o interior com a família de Bianca, mas logo voltou a Paris. Bost foi baleado e evacuado do Front, mas sobreviveu. Sartre foi preso.
  31. Quando Sartre voltou a Paris em 41 eles se uniram com outros intelectuais na resistência francesa contra a ocupação nazista.
  32. Em 43 Simone perdeu seu cargo no sistema de ensino francês depois de uma acusação formal da mãe de uma de suas amantes: Nathalie Sorokine, mas ela negou as acusações contra Simone no tribunal dizendo que as relações entre elas eram consensuais e ela já era maior de idade, então, Simone não foi condenada. Mas ela perdeu o emprego porque suas relações com mulheres e seu relacionamento aberto com Sartre não combinavam com os ideias do governo alemão.
  33. Simone conseguiu um emprego na Rádio Vichy. Na época haviam duas rádios nacionais, a Rádio Paris, que era difundida pelos naziastas, e a Rádio Vichy, onde era possível trabalhar sem ser visto como um colaborador dependendo do que se fazia. Simone falava sobre música na Idade Média.
  34. Em 45 a Guerra acabou e Simone estava produzindo como nunca. Escreveu diversos artigos filosóficos e ensaísticos, fundou uma revista com Sartre e Ponty: Les Temps modernes, Tempos Modernos em português, escreveu uma peça, e dois romances que ficariam muito conhecidos: O sangue dos outros e Todos os homens são mortais. Ela também começou a pensar no livro O Segundo Sexo.
  35. Desde muito nova ela questionava com profundidade o que significava ser mulher para ela e para sociedade. E esse pensamento, junto com suas criticas sobre o que era liberdade dentro do existencialismo, foram a base para a criação de O Segundo Sexo.
  36. Publicado em 49, esse livro foi duramente criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda. Inclusive por seus colegas intelectuais como Camus.
  37. Ele não nasceu para ser um livro feminista. Ela o escreveu como um processo investigativo com dados concretos sobre a vida da mulher em sociedade, e também porque estava irritada com abre aspas “os volumes de idiotices” que eram lançados sobre as mulheres. (Tem resenha completa de O Segundo Sexo aqui)
  38. Simone era muito fã de Virginia Woolf e além de ter lido todos os seus livros ela também a considerava uma grande influência intelectual.
  39. Os Mandarins veio em 54, e esse livro foi muito elogiado pela crítica, ganhou até o prêmio Goncourt. Ele conta a história de um grupo de pessoas que tentavam retomar a vida depois da Segunda Guerra Mundial. Aqui ela mostra personagens fictícios que fazem parte da resistência, além de seus questionamentos em relação a união soviética. Inclusive crítica o governo russo, e propõe uma nova política de esquerda. (Também tem uma resenha completa dele aqui. EU AMEI ESSE LIVRO)
  40. Simone era uma viajante, conheceu o mundo inteiro, foi para Ásia, para a Africa, rodou a Europa inteira, foi para as Américas e desembarcou no Brasil em 1960.
  41. Ela e Sartre permaneceram dois meses aqui e conheceram o Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Fortaleza e Manaus. Essa visita foi organizada por ninguém menos que Jorge Amado e Zélia Gattai. Ela até conheceu o Juscelino Kubitschek.
  42. Em 60 Simone conhece Sylvie Le Bon, mulher que se tornaria sua amiga mais próxima até o fim de sua vida.
  43. Desde que Simone começou a trabalhar ela mandava dinheiro tanto para a irmã Helénè, quanto para mãe Françoise. Ela era a grande provedora da família
  44. E de alguns amigos, muitas vezes passou fome para poder ajudar todas as pessoas que estavam ao seu redor, inclusive suas amantes e as amantes de Sartre.
  45. Nesse período ela tinha 50 anos e lançou suas três biografias mais famosas: Memórias de uma moça bem comportada, em 58, na qual ela relembra sua juventude puritana; A força da idade, onde ela relembra uma Paris ocupada e dedica a sua relação com Sartre, Bost e Olga; e A força das coisas, em 63, onde ela comenta a vida que leva no pós guerra e suas publicações.
  46. Em 65 ela lança o livro Mal Entendido em Moscou, onde ela fala sobre as ambiguidades existentes na união soviética;
  47. Em 67 ela lança A mulher desiludida e logo depois, em 70, A velhice, com pensamentos que passavam por ela a décadas sobre o envelhecimento e a morte.
  48. Em 80 ela perde Jean Paul Sartre, e se vê sozinha, então ela adota Sylvie Le Bon, após passar um período no hospital e não ter ninguém que pudesse lhe acompanhar, já que a irmã estava em Portugal.
  49. Em 81 ela lança sua última biografia, A cerimônia do adeus, onde ela narra os últimos anos de Sartre e a sua vida na velhice.
  50. Simone de Beauvoir morreu em 86 de complicações de uma pneumonia, e seria lembrada por muitas décadas após sua morte. Os recém lançamentos de cartas e livros nunca publicados vieram do acervo de Sylvie Le Bon-de Beauvoir, que herdou tudo de Simone.

LIVROS DA SIMONE DE BEAUVOIR PUBLICADOS NO BRASIL (clique para comprar e ajude o Rumo ao Farol <3)


Bom, esse foi o compilado de informações sobre essa autora tão famosa e importante! Os próximos serão sobre a Virginia Woolf e a Angela Davis. Me conta o que achou nos comentário!

Fontes:

CANDIANI, Heci Regina. Simone de Beauvoir. InBlogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia. [S. l.], 22 abr. 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/simone-de-beauvoir-2/. Acesso em: 4 jan. 2022.

KIRK PATRICK, Kate. Simone de Beauvoir: Uma vida. 1. ed. Brasil: Crítica, 2020. 553 p. v. 1.

JEAN Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: ISHAD, Vivien. Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/copy_of_noticias/jean-paul-sartre-e-simone-de-beauvoir-no-brasil-em-1960. Acesso em: 4 jan. 2022.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Brasil: Nova Fronteira, 2018. 936 p.

BEAUVOIR, Simone de. Os mandarins. ed. atual. Brasil: Nova Fronteira, 2017. 736 p.

BEAUVOIR, Simone de. Mal entendido em Moscou. Brasil: Nova Fronteira, 2015. 89 p.

Escrituras para um fim de ano!

2021 foi um ano muito tumultuado para mim, um daqueles anos onde todas as ruas se convergem em uma. O Covid, que tive duas vezes; o tumor na tireóide que eu descobri no final de 2020; a pós graduação que decidi começar mesmo com todas as coisas fora do lugar; o Clube do Livro Contemporâneas, que foi uma grande alegria nos momentos mais intranquilos; Uma mulher quebrada, o livro que continuei trabalhando mesmo quando tudo parecia se desfazer dentro dele. 

O cansaço do meu corpo pelo o estresse e a depressão aumentavam, mas eu queria fazer todas essas coisas: escrever, incentivar a leitura de escritoras mulheres, estudar, criar. Confesso que deixei essa página um pouco de lado na época em que fiz a cirurgia de retirada do tumor e depois quando estava no processo de recuperação. Porém, tudo deu certo e em novembro eu estava curada. 💕

A pós graduação ainda está em andamento. Contra o COVID eu tomei a terceira dose. Uma mulher quebrada ainda está sendo trabalhado. E o Rumo ao Farol, apesar das idas e vindas recebeu presentes maravilhosos! 5 escritoras independentes mandaram seus livros para mim. Cada livro que eu recebia meu coração ficava quentinho, porque significava que o que o Rumo ao Farol estava fazendo o que se propôs. Ainda não tive tempo de ler alguns, você que me acompanha sabe de todas as leituras obrigatórias que tive esse ano, mas minha meta para janeiro de 2022 é ler todos eles. 

@contosdesamsara Michele Fernandes, @renatasferri Renata Ferri, _marilia_sk Marília Santos Krüger, @rafatavareskawasakiRafaela Tavares e @marceladantes Marcela Dantés, agradeço a confiança de vocês em mim e no Rumo ao Farol e espero que o livro de vocês voem para mais pessoas nesse ano que vai entrar. É muito bonito ver, que mesmo no Brasil, onde tem um número baixíssimo de leitores, e pouco incentivo para as letras, vocês tiveram a coragem e a paciência de colocar essas histórias no mundo! É um feito para se orgulharem. Espero que em 2022 eu entre para essa turma das mulheres publicadas também, junto de vocês. ✨

OBRIGADA!

MELHORES LEITURAS DO ANO | bell hooks, Dostoiévski, Maria Valéria Rezende, Fernanda Melchor e mais!

Nesse vídeo eu vou fazer uma retrospectiva das minhas melhores leituras do ano. 2021 Está terminando, então não poderia faltar essa listinha aqui no blog, né? Você não vai se arrepender se fica até o final porque as leituras foram boas, tá bom? Vem comigo!

Ual, que ano ein gente? Esse ano foi muito estressante para mim, tive um câncer na tireóide, me curei, comecei a pós de formação de escritores, onde eu tive que ler MUITO e escrever MUITO, mas deu tudo certo! também! Finalizei 50 livros esse ano e entre todos eles eu escolhi 5. Foi difícil escolher só 5 para compor essa listinha que tá TUDO! Tem livro escrito por mulher brasileira, tem livro que eu li para pós, tem livro de um russo famoso, tem livro de não ficção (vou dar um spoiler: bell hooks) e tem até livro de conto, e olha que eu não sou muito fã de conto não.

1) Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski!

Eu li memórias de subsolo alguns anos atrás e não achei nada de mais, podem me julgar por isso: achei pedante e chato, simples assim. Depois eu tentei ler Crime e Castigo traduzido do Francês e foi uma experiência horrorosa, não consegui passar das primeiras vinte páginas. Fiquei com um pé atrás em relação ao Dostoiévski!, apesar de amar a escrita de um outro russo o Tolstói.

Aí, por força do destino, minha professora de oficina maravilhosa, a Carol, me recomendou ler alguns russos, de preferência Dostoiévski, porque ela achou seria uma boa referência para o livro que estou trabalhando. Então, peguei essa edição traduzida do russo na estante do meu irmão e fiquei embasbacada: a leitura fluiu demais.

Acho que você já deve saber sobre a história desse livro, é um clássico! Mas vou contar um pouquinho sobre ele: conhecemos Raskolnikov um jovem estudante bem pobre que mora em um cubículo longe de sua família. Lembrando que a sociedade russa dos Czares era extremante desigual. Ele está enfrentando uma depressão e fica dias planejando o assassinato de uma senhora que penhorava objetos de valor, assassinato inspirado em Napoleão. Até que ele comete o ato, mata a velha e a irmã dela. Depois disso tudo que acontece passa pelo próprio filtro moral do personagem e questionamentos surgem: ele vai se entregar? Ele vai ser descoberto? As pessoas próximas a ele começam a suspeitar de suas atitudes erráticas.

Sua mãe e irmã vão aparecer com questões, principalmente quando a irmã a Dúnia decide se casar por interesse, o que Raskolnikov não aceita. Teve um personagem que eu gostei muito que é o contrapondo de Raskolnikov, seu amigo Razumíkhin, que é tão pobre quanto ele mas não é acometido pela melancolia do outro. É muito interessante ver como a depressão já era explorada de uma maneira tão real lá no fim do século 19. A heroína da história é a Sônia, uma jovem prostituta que teve que vender seu corpo para dar de comer aos irmãos e acaba se aproximando do Raskolnikov, que a trata sem nenhum julgamento. https://amzn.to/3zaA0s7

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2) Carta à Rainha Louca da Maria Valéria Rezende

Esse foi o primeiro livro que lemos no Clube do Livro Contemporâneas e foi uma felicidade. Porque é um livro bom pra caramba. A Maria Valéria Rezende é uma senhora com 79 anos, lançou seu primeiro livro com 60, ou seja, nunca é tarde né? Ela é uma freira que rodou as Américas alfabetizando pessoas, sindicalistas e camponeses. Ela dava rolê com o Gabo e o Fidel em Cuba, ok? Só isso já tá bom?

Tem resenha completa de Carta à Rainha Louca aqui no blog, mas eu vou falar um pouco, para você ficar com um gostinho de quero mais. Nesse livro conhecemos Isabel das Santas Virgens que está presa no convento do Recolhimento da Conceição em Olinda. É 1789 e ela começa a escrever uma carta para a Rainha Maria I, rainha de Portugal conhecida como “A louca”. Isabel clama por justiça em um relato conturbado, onde ela faz críticas verozes tanto a religião quanto a sociedade colonial, onde ela, mulher pobre e sozinha no mundo depende da sorte para viver nessa terra hostil.

A leitura é um pouco confusa no começo, tive que usar da leitura ativa, e de um dicionário, para entender as minúcias escondidas no texto de Maria Valéria Rezende, que fez uma releitura histórica belíssima. Ela mostra com crueza e muita ironia como funcionava as classes sociais no Brasil colonial. E crítica com muita força, e depois rasura, isso mesmo, o livro traz rasuras.

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3) O sofredor do ver de Maura Lopes Cançado

Outro livro que li na pós graduação dessa fez na matéria sobre escritores esquecidos. Esse livro é um conjunto de contos autobiográficos escritos por Maura Lopes Cançado. Aqui ela nos mostra seus momentos longe do filho, seus romances, suas indas e vindas de instituições psiquiátricas e a decadência de sua vida. Ela foi uma autora polêmica e acho que é por isso que não fez sucesso.

Ela tinha uma excentricidade única desde a infância, cresceu em uma família rica, adorava voar e existem boatos de que ela derrubou um avião mini motor, se machucou mas não morreu. A escrita dela é tão sensível, tão bonita e também experimental, me cativou tanto. Eu recomendo esse livro para todas as pessoas. Maura Lopes Cançado dizia que ela era a melhor escritora brasileira de todos os tempos, acho que ela tinha um pouco de razão, porque esses contos são belíssimos, e olha que eu nem gosto muito de contos.

Sua personalidade era forte e ela não levava desaforo para casa, arranjou briga com inúmeros ilustres da literatura e torrou toda a herança que recebeu. Era uma mulher muito a frente do seu tempo, em um mundo onde mulheres não podem se expressar, acho que é por isso que tanta gente fala sobre o quão difícil, arrogante e louca que ela era. Sim, LOUCA, era o que diziam, mas será que podemos acreditar?

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4) Temporada de Furacões da Fernanda Melchor

Temporada de Furacões é um livro que li para pós e já comentei sobre ele no vídeo sobre prosa contemporânea! Eu amei tanto que decidi colocar ele nessa lista aqui. Ele foi escrito por Fernanda Melchor uma mulher mexicana e ganhou vários prêmios. Imagina uma escrita tipo Virginia Woolf com uma ambientação bem Gabriel García Márquez. Eu já escrevi uma resenha completa dele aqui. 

O livro começa quando um corpo é encontrado, esse corpo é de uma personagem denominada A Bruxa, uma curandeira da região, e ao longo dos capítulos descobrimos mais sobre essa mulher. Os capítulos são em terceira pessoa, mas cada um foca em um personagem com um fluxo de consciência sufocante. 

Os personagens vivem em uma cidade extremamente pobre chamada La Matosa e chega em um ponto que os capítulos se tornam confessionais como se ele estivessem sob testemunho. Muitos assuntos delicados são tratados aqui, então temos que ler com cuidado.

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5) Ensinando pensamento crítico da bell hooks

Deixei por último porque ainda estou abalada com a notícia da morte dela. Sabe quando você imagina que a pessoa vai ficar velhinha ainda produzindo essa imensidade de livros e pensamentos que ela fazia? Era o que eu sentia sobre ela. Esse livro mexeu comigo, primeiro porque ela cita Paulo Freire logo de cara e ela nos mostra aqui como o ensino deveria ser mais humanizado.

E além disso, ela diz que a educação deveria ser um espaço para pensamento crítico e não reproduções de padrões pré estabelecidos. Era isso que ela combatia, o conservadorismo e a ignorância. Ela queria que pensássemos por nós próprios, e isso é muito importante para mim, porque sempre acreditei que devíamos ter uma visão crítica do mundo. Ela foi uma mulher negra, uma professora, uma educadora, uma feminista engajada, e uma das principais intelectuais americanas. Ela falou sobre amor, sobre empatia, sobre amizade, sobre respeitar as diferenças, sobre aceitação. Todos deveriam ler bell hooks.

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Ficamos por aqui hoje, espero que tenham gostado da minha lista! Me conta se já leu algum desses livros nos comentários? Obrigada por me acompanhar! Beijos.