Atos de coragem VS. inseguranças.

Atos de coragem e insegurança
Photo by Katrina Wright on Unsplash

Escrever é um ato solitário. Até o momento em que você dá um texto seu para alguém ler, você já deve ter escrito pelo menos umas 200 páginas. Para mim isso só acontece quando algo está finalizado ou em vias de. Até lá fico remoendo sozinha os defeitos e as qualidades dele. Isso quando tenho coragem de mostrar para alguém, a insegurança de que algo não está tão-bom-assim me consome. Acho que somos seres inseguros por natureza (no caso a natureza é a sociedade que nos fala que não somos boas o suficiente) e isso causa um estrago danado nos nossos projetos.

É tão fácil se comparar ao amiguinho que está dando certo na página ao lado, sem lembrar que “dar certo” é algo muito relativo. Na verdade, ouso dizer, que isso nem existe. Por exemplo: você pode estar fazendo um doutorado e nunca ter tido um trampo que desse um bom retorno financeiro; ou você pode estar nadando em grana sem ter alcançado níveis acadêmicos altos; você pode ter se tornado um escritora publicada com seu primeiro livro, mas não fez as viagens que sonhou; ou fez todas essas viagens e não publicou seu primeiro livro. A vida é feita de momentos temporais de escolhas e vontades. Tudo pode mudar, até seus gostos e profissões.

A insegurança nos impede de ver as coisas que já alcançamos. Achamos que podemos perder tudo quando algo não acontece como queremos. Eu terminei de escrever um romance sem nunca ter tido educação universitária em comunicações ou letras, e isso é uma coisa gigante para mim. São 218 páginas que eu escrevi sozinha. Mas, eu ainda estou insegura em colocar ele no mundo, prevejo críticas e tenho medo que isso abale a escritora que existe dentro de mim. Como vou saber o que pode acontecer sem deixar que leiam?

Para toda insegurança existe um “leap of faith”* que precisa ser saltado. Então, dentro de algumas semanas meu livro estará no ar na plataforma Kindle e em mim existe uma combinação de friozinho na barriga com um leve enjoo, que só vai passar depois desse grande ato de coragem.

*salto de fé

Não acredite em tudo que você lê – Mini conto #2

O que está escrito pode ser lido como a mais pura verdade, como um manual para seguir a vida. 

Se apegar ao céu, ao inferno é fácil. 

Os deus são o que somos e, também, são a importância que damos a eles.

No entanto, esquecemos que palavras passam por filtros, e esse filtro é quem da vida a elas.

Segui-lo é fechar os olhos para o ser. Segui-lo é acreditar em frases.

Sem nunca saber, ao certo, se eram

devaneios

pegadinhas 

ou mentiras descaradas 

de um artista 

de um maluco 

ou de alguém normal.

As palavras são, e não são. Brincadeiras. 

Levá-las em consideração pode ser libertador, porém fatal.

(Poema em prosa escrito por Ana Barros)

Quando este conto terminar já estarei morta – Mini conto #1

Minhas mãos estão suando, não consigo respirar, está acontecendo algo inexplicável dentro de mim. A morte. A morte da alma. A morte da vida. O corpo que apodrece e fede. Pessoas que não vejo há anos estarão lá dizendo: Uma mulher tão boa, pena que era doente. Hipócritas. Eu fui uma cuzona por anos, não queria ninguém próximo, nem ajuda, nem carinho. Quero desaparecer.

Um calor.

Recobro a memória, estava nadando em uma praia de água azul. Tomei uma bebida esverdeada e esmeraldas caíram sobre mim. Uma delas era tão grande que fez minha testa sangrar. O sangue escorria e fluía, Eu nadava neste líquido quente e vermelho: peito, borboleta, crawl.

Stop! Don’t speak in english with me.

Sou só uma criança querendo ir para casa, para os braços da minha mãe que morreu em mil novecentos e vinte e três de malária. Olho para as minhas mãos e vejo elas enrugadas como a de uma bruxa de contos de fadas. Olho no espelho e vejo: sou a bruxa. Sou uma velha enrugada de nariz grande e pontudo.

Grito!

Sussurro.

A senhora está bem? pergunta uma menina de roupa branca. Que pele macia e esticada. Eu sou assim também, eu preciso ser assim. Então digo: Você é tão linda, minha filha. Mas as palavras não saem. Eu grito mas as palavras não saem. Preciso fugir para onde me entendam. Sim, minha mãe, quero a minha mãe.

Quero ver minha mãe! Me levem para a minha mãe!

Definho, estou magra, velha, perdida, não penso, não falo, não mecho meus membros. Socorro! Apago, acordo, apago, acordo, apago, acordo. Até que não acordo mais, nunca mais. Não nesta dimensão, o corpo físico é só receptáculo de energia.

O corpo morre mas a alma ressoa para sempre.