A PEDIATRA DE ANDREA DEL FUEGO | Resenha de um livro impactante sobre a medicina e padrões de gênero

A Campainha das Letras me mandou esse e-book ano passado e eu lembro do enorme burburinho que ele causou lá no bookstagram quando foi lançado. A narrativa é estimulante e muitas vezes absurda. Carrega temas muito importantes como a quebra dos padrões de gênero e a visão da maternidade.

Lemos a pediatra no Clube do livro Contemporâneas, que é um espaço de trocas sobre literatura e sobre a vida, em março. Minhas últimas resenhas foram de livros que lemos lá no clubinho, você encontra elas aqui.

Um dos livros votados foi A pediatra da Andrea del Fuego. Ela tem um nome super forte né? E também tem uma carreia extensa na literatura. Seu primeiro romance, Os Malaquias, venceu o premio José Saramago. Isso foi lá em 2011, dez anos e algumas publicações depois, em 2021 ela lança A pediatra, e eu ouvi falar que ela escreveu esse livro em um mês!

Resenha de A pediatra de Andrea del Fuego – Um dos livros escritos por mulheres da literatura brasileira contemporânea mais legais que lemos!

Essa pediatra tem nome, ela se chama Cecília, uma mulher muito obstinada, egocêntrica e totalmente pragmática, ela se passa por uma vilã canalha, o que eu acho curioso pois toda a sua personalidade tem características que nossa sociedade considera masculinas. Ou seja, quando um homem age como ela costuma agir ele não é tão julgado quanto a Cecília foi. Por que ela foge do padrão da “feminilidade” adocicado e sentimental.

Vou destrinchar a personalidade aqui para você entender melhor sobre o que estou falando:

Ela é casada, mas tem um amante, o marido sofre de depressão e ela deixa bem claro que não vai ser cuidadora de ninguém. O amante tem uma esposa grávida e ele indica Cecília para ser a neonatologista do bebê. Para quem não sabe neonatologistas cuidam de bebes recém nascidos (estou dizendo porque eu mesma não sabia disso), principalmente durante o parto. Logo após o nascimento de Bruninho, eles se pegam em uma salinha do o hospital, enquanto a mulher ainda está na sala de parto.

O amante se chama Celso, e ele termina com ela logo após o nascimento do bebe Bruninho. Eles ficam um ano longe mais ou menos, pois ele morava em outra cidade. Quando a mulher está esperando o segundo filho eles se mudam para São Paulo, e eu acredito que foi por causa de Cecília. Os amantes retomam a relação. Cecília começa a se afeiçoar por Bruninho e muita confusão acontece por conta desse relacionamento confuso. Bom, para você saber tem que ler o livro, pois é cada bizarrice que essa mulher faz que você não vai acreditar.

Ela é sozinha, o marido foi embora e ela vive apenas com sua empregada, que está grávida. Cecília odeia crianças e está certa de que nunca será mãe. Seus pacientes são tratados sem nenhum afeto ou consideração, ela não suporta o desespero das mães, e até despreza elas. Cecília cresceu com um pai pediatra e uma mãe enfermeira, e é curioso que sua relação com o pai é muito mais próxima do que com a mãe. Do pai ela herdou a profissão e um posto na sociedade. Ela tem consciência disso e diz que faz o que faz apenas de modo protocolar sem nenhum entusiasmo.

Sinto que tem um grande vazio dentro dela que ela preenche com paranóias de que todas as pessoas são inferiores a ela. Mas também tem pequenas amostras de uma sociopatia em sua personalidade, que faz ela perseguir e intimidar as pessoas. Sim, ela é também uma perseguidora. Uma stalker.

O livro também entra em uma discussão interessante sobre o parto humanizado em banheira em casa, algo que Cecília é extremamente contra. Além de retratar com crueza o trabalho de parto e todas as suas consequências, confesso que eu que já tinha medo de engravidar fiquei com mais ainda, então deixo um alerta aqui, esse livro pode conter gatilhos para mulheres grávidas.

A relação de Cecília com Deise sua empregada também é permeada de uma superioridade paternalista que incomoda muito. Como eu já disse Deise está grávida e Cecília não suporta a ideia de uma mulher grávida em sua casa, ou uma possível criança. Além disso Cecília entra em um emaranhado de julgamentos e acredita que todas as pessoas ao seu redor são horríveis. É muito interessante ler esse livro desse modo, pois, por ser escrito em primeira pessoa nós só sabemos sobre os personagens (o Celso, a Deise, o Robson, que pai do filho da Deise, os pais de Cecília) pelo filtro deturpado da mente dela.

Esse livro é um retrato de uma mente perturbada, interessante e que quebra os padrões de gênero, que esperam que mulheres sejam sempre emocionais e dóceis. Também escancara os pensamentos de uma médica protocolar que não escolheu seguir a medicina por amar ajudar as pessoas e sim por um bom salário, ou porque foi imposto pela sociedade.

Você vai se irritar com esse livro mas também pode amar. Eu li super rápido e achei muito interessante.

Essa foi mais uma dica de livros escritos por mulheres que trouxe aqui! A pediatra é um bom livro.

Espero que goste! Me conta nos comentários o que achou!

O COPO VAZIO DE NATALIA TIMERMAN | Resenha do livro que fala sobre Ghosting e relações líquidas!

Mirela, uma mulher de 32 anos sofreu pelo desaparecimento do cara que ela estava ficando. E não foi um desaparecimento de filme de terror não, ele apenas nunca mais respondeu suas mensagens, e acabou com todo o contato que eles tinham do dia para noite.

Copo vazio foi o segundo livro que lemos no Clube do Livro Contemporâneas nesse ano, o primeiro foi Primeiro eu tive que morrer da Lorena Portela. O nosso livro de fevereiro foi escrito pela Natalia Timerman, uma psiquiatra e psicoterapeuta paulistana. A mulher tem um currículo extenso, e por coincidência ela fez a mesma formação de escritores que eu lá no Instituto Vera Cruz. Se um dia eu escrever um livro tão potente quanto o dela eu vou ficar muito feliz.

Seu primeiro livro foi Desterros – Historias de Um Hospital-Prisão onde ela conta a história de detentos e funcionários que passaram pelo sistema carcerário paulistano enquanto ela trabalhava no Centro Hospitalar do Carandiru. Seu segundo livro Rachaduras foi lançado em 2019, é uma coletânea de contos indicada ao Jabuti.

Em 2021 ela lançou seu primeiro romance Copo Vazio que saiu pela editora Todavia. Foi o maior burburinho em volta desse livro ano passado né? Muita gente leu e comentou e é interessante refletir sobre o porque desse livro ter feito tanto sucesso. E eu vou dar minha opinião aqui, antes de entrar na resenha: Acredito que seja porque muitas mulheres já passaram pela mesma situação que Mirela.

Mirela é uma arquiteta de 32 anos, ela conhece Pedro, um homem que parece ser tudo que ela sempre quis. A história começa no futuro, quando Mirela já bem mais velha encontra Pedro em um supermercado. Assim ela relembra seus dias ao lado dele, os dias que se passaram depois de seu sumiço e tudo que ela viveu sofrendo por ele.

Eles se conheceram em um aplicativo de namoro, saíram algumas vezes e as coisas foram ficando intensas, pelo menos do ponto de vista da Mirela. Aos poucos vamos descobrindo qual era a natureza da relação dos dois e como as coisas entre eles foram desenvolvendo, em uma narrativa eletrizante que te prende até o final. O livro fala sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá imaginando o que aconteceu.

É incrível como a Natália conseguiu representar muito bem a vulnerabilidade feminina e as inseguranças que temos em relação aos relacionamentos. Para Mirela o relacionamento está caminhando para algo a mais, Pedro também parece estar envolvido e a todo momento ficamos procurando pistas de sua fuga próxima. Ele não dá certeza nenhuma para ela, e foi por isso que ela encheu seus pensamentos de projeções do que poderia ser essa relação.

Ele dá corda, até chama ela para viajar com ele para visitar sua avó. Ele alimenta as expectativas dela mesmo não estando tão afim assim, e depois ele some, sem dar explicações, sem terminar, sem nada, ele apenas some. Mirela manda mensagens e ele não responde, então, ela começa a entrar em um redemoinho de inseguranças e incertezas que mechem com sua autoestima. Mirela sofre por ele e essa perda afeta seu trabalho e seus relacionamentos mais próximos. E os futuros. A carência afetiva se intensificou pela ansiedade que o sumiço dele causou.

Na minha opinião o que Pedro fez foi cruel, por mais que eles não tivessem em um relacionamento, faltou responsabilidade afetiva. Eles se viram com frequência por 3 meses, eles conversavam constantemente, e já estavam envolvidos com os amigos um do outro. Ele poderia ter sido mais sincero ao invés de deixar ela assim. De qualquer forma as atitudes de Pedro sempre eram ambíguas, inclusive depois do sumiço, ele ainda orbitava na vida da Mirela, curtindo fotos, causando uma ansiedade extrema nela.

Esse livro é importante para abrir nossos olhos em relação a algumas atitudes masculinas extremamente tóxicas, como a falta de responsabilidade afetiva e a certeza de que eles tem de que podem tratas as mulheres da maneira que quiserem. Outra coisa que esse livro nos mostra é que isso pode acontecer com qualquer uma de nós e já aconteceu diversas vezes, muitas meninas do clube tinham histórias muito similares e diziam ter passado por coisas muito parecidas.

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Enfim, eu gostei muito desse livro, a Natália escreve muito bem. Ela vai entregando a história aos poucos. Cada capítulo é uma surpresa, pois ela intercala o passado e o presente da personagem, ao estilo durante e depois, sabe? Durante o relacionamento e depois do relacionamento. Foi muito interessante ver a escalada e a transformação ao nada desse relacionamento cruel.

RESENHA PRIMEIRO EU TIVE QUE MORRER DA LORENA PORTELA | Uma escritora brasileira independente!

O primeiro livro do Clube do livro contemporâneas de 2022 traz uma narrativa que se aproxima de questões muito atuais. Escrito por Lorena Portela, que é uma cearense que mora em Londres, o livro Primeiro eu tive que morrer está fazendo sucesso nas redes.

Acredito que muitas mulheres se identificaram com a protagonista que viaja para Jericoacoara para se recuperar de um burnout. Lorena fez todo o processo de escrita e impressão do livro de forma independente, e para mim esse é um dos pontos altos da obra, pois ela nos mostra que se temos um sonho poderemos realizá-los por nós mesmas. Claro, ela teve ajuda de muitas mulheres para a construção dele. Ao longo das páginas vemos obras lindas de artistas que deixaram sua impressão nesse livro.

A escrita é simples e leve, o livro fluí. É uma história que já conhecemos: a nossa história enquanto mulheres. A personagem principal poderia ser qualquer uma de nós, ela não tem nome, mas as coisas que ela passa são comuns: o trabalho extra para uma mulher se posicionar no mercado, a responsabilidade e culpa dentro dos relacionamentos, o assédio, às vezes silencioso, e às vezes escancarado. Até o momento do “não aguento mais!”

A personagem vai para Jeri por 2 meses, para se recuperar do stress que é trabalhar em uma agência de publicidade. Lá ela fica na pousada de duas amigas, Sabrina e Ana, que são um casal. Elas abrigam a amiga em troca de uma pequena ajuda com a pousada. Outra personagem que aparecerá é Glória, uma espanhola que teve um affair com nossa protagonista uns anos antes em Lisboa e que estará na América Latina.

Ela também conhece Amália, uma mulher misteriosa, que faz coisas bizarras com ela, tipo quase a afogar no mar. Amália também é muito homofóbica. Essa mulher faz ela duvidar de si mesma e de sua relação com Glória. Fiquei com muito raiva dessa mina, e eu já teria mandado ela catar coquinho (para não dizer uma palavra feia aqui, não é mesmo? Você me entende né?). Enfim, temos também Guida e Luana, vó e neta que são um porto seguro para a personagem.

O livro é em primeira pessoa e é uma escrita bem simples mesmo, eu já falei isso, mas ele carrega a vida dessas mulheres incríveis. Histórias que não podemos esquecer e que devemos sempre exaltar. Lorena escreveu a história que eu também estou escrevendo, parece até que ela leu meus pensamentos.

A ambientação do livro é uma delicia, se passa em um lugar paradisíaco. Um lugar perfeito para uma fuga, até do próprio corpo, para então se reestabelecer de uma maneira mais saudável. Alcançando talvez a completude?

A CABEÇA DO SANTO de Socorro Acioli: Resenha – Gabriel García Márquez e o realismo fantástico brasileiro.

A cabeça do santo nasceu de um conto que deixou Gabo entusiasmado. O livro inclusive começa com uma dedicatória a ele mesmo: Gabriel García Márquez, que foi mentor da Socorro Acioli em uma oficina feita em Cuba em 2006. Descobrimos essa relação física apenas no final do romance, mas já sentimos as referências logo no início. Samuel está há dezesseis dias peregrinando pelo Ceará, ele foi da região do Cariri, famosa pelos cordéis e pelo Padim, padre Cícero, que por sua vez é famoso pelo respeito que Lampião tinha por sua pessoa, mas não só por isso, claro; até a região do Canindé, onde uma grande estátua de São Francisco atrai turistas e fiéis, a pé.

ÚLTIMA LEITURA DO ANO DO CLUBE DO LIVRO CONTEMPORÂNEAS!

RESENHA DE A CABEÇA DO SANTO DE SOCORRO ACIOLI – O REALISMO FANTÁSTICO BRASILEIRO!

Depois da morte de sua mãe Mariinha, Samuel busca, a pedidos da mesma, por seu pai, apenas com o endereço e nome da avó, que vivia em Candéia uma cidade minúscula perto de Canindé. A avó, segundo Mariinha, era muito bondosa e poderia ajudá-lo. O pai havia deixado a mãe com a promessa de que voltaria com muito dinheiro, mas nunca voltou, e ela nunca se conformou, achava que sim, algo de muito grave tinha acontecido. Samuel estava cético, mas prometeu para a mãe, em seu leito de morte, que encontraria o pai e acenderia três velas: uma para o Padim, outra para Santo Antônio, e para finalizar uma para São Francisco.

Você pensa que foi fácil? Nananinanão! Samuel sofreu, mendigou e foi atacado por cães raivosos até encontrar a avó que o mandou até a cabeça do Santo. Sim, uma cabeça de Santo Antônio gigante que deveria estar presa ao corpo, mas, por motivos que não posso dizer porque seria spoiler, estava deixada as traças, e a outros animais, no pé do morro. Samuel se abrigou de um temporal ali e começou a escutar as rezas das mulheres da região que pediam ao Santo um marido.

Enquanto sofria de um grave ferimento causado por cachorros selvagens Samuel conheceu Francisco, um rapaz que se esgueirava para dentro da cabeça para fazer saliências consigo mesmo. Uma amizade inusitada começou e os dois resolveram ajudar uma das mulheres a se casar. À partir daí Samuel virou um grande casamenteiro e grandes milagres aconteceram na região. Aglomerações se formaram em busca de amor e a cidade que estava em desasgraça retorna a vida.

Nesse ínterim mistérios são revelados, personagens se cruzam, histórias do povo de Candéia e Canindé são contadas. Eu me divertir descobrindo cada causo inesperado que se passou naquela pequena cidade. É um livro gostoso, até emocionante, cheio de segredos muito bem trabalhados. A escrita de Socorro é estimulante, ela te conduz através da história sem verborragias desnecessárias, mas com um drama sutil e delicioso. Torcemos para que os personagens encontrem o destino pelo qual estavam destinados e esperamos que um milagre se faça para aquele moço milagreiro que surgiu do nada.

Resenha de Enterre seus mortos: O melhor da literatura brasileira contemporânea!

Ana Paula Maia é um nome conhecido na literatura brasileira contemporânea, escreveu sete romances, dois que ganharam o Prêmio São Paulo de Literatura (Assim na terra como embaixo da terra em 2018, e Enterre seus mortos em 2019) e dois que pertencem a uma saga, a saga dos brutos. Ela também é roteirista, escreveu para o cinema e o teatro, e está com uma série em cartaz no Globo Play chamada Desalma.

O livro que escolhemos para fazer parte do Clube do livro Contemporâneas foi Enterre seus mortos. Uma narrativa seca e forte que conta a história de dois homens que trabalham como removedor de animais mortos na estrada. Esses corpos vão para um grande triturador fazendo com que os personagens presenciem a morte da maneira mais crua possível. Edgar Wilson (uma homenagem a Edgar Allan Poe) é um personagem recorrente na obra de Ana Paula Maia, ele é um homem simples que executa tarefas. Seu colega Tomás é um ex padre excomungado pela igreja católica. Aos poucos percebemos que eles lidam com a morte de maneiras diferentes.

“Não pressentir o mal não é sinônimo de que ele não existe ou desapareceu. São os opostos devidamente dosados que mantêm o sistema equilibrado e, assim, se o mal se ausentou, é provável que o bem também o tenha feito.” Página 43.

Em uma mistura de faroeste e romance policial os dois personagens estão inseridos em um não lugar, um espaço onde as coisas acontecem e ninguém vê. A religião domina a vida das pessoas que são largadas a própria sorte sem um aparelho social eficiente. E é assim que a história começa, Edgar Wilson encontra o corpo de uma mulher rodeado por urubus. Não podendo deixá-lo lá ele leva para o depósito em que trabalha. Espera pela polícia que demora para aparecer e no fim diz que não poderá fazer nada naquele momento.

Edgar e Tomás encontram outro corpo. Então, eles buscam dar um fim digno aos dois. Nessa busca eles se deparam com a corrupção, injustiças e acidentes. Fazendo com que a nossa indignação, em relação a tudo que acontece, só aumente. A leitura é seca e bem rápida, eu senti que lia um roteiro de uma série de suspense do Netflix, é uma narrativa muito visual. Ficamos em busca de saber o que acontecerá e a tensão vai aumentando aos poucos até o fim do livro. É necessário estômago forte para as cenas mais sangrentas, mas vale muito à pena como um todo.

Resenha de O peso do pássaro morto – Aline Bei na sua estréia na literatura brasileira

Pegue tudo que você sabe sobre prosa e jogue fora. Uma nova era dentro da literatura brasileira está começando. Aline Bei chegou devagarinho dentro de uma editora pequena a Nós e se destacou, não só pelo seu carisma e coragem, mas pela sua narrativa diferentona e bonita. Ela passeia pelo teatro e pela literatura e isso está estampado no seu livro de estreia, que foi escrito em versos, como um grande poema em prosa.

O peso do pássaro morto ganhou o Prêmio São Paulo de literatura de 2018, na categoria melhor romance de autor com menos de 40 anos.

Aline Bei trouxe força para a literatura brasileira contemporânea.

O livro pode ser lido em um dia, apesar dos temas fortes a leitura é fácil. Conhecemos uma personagem sem nome que poderia ser qualquer uma de nós. Uma menina, sonhadora, curiosa que está descobrindo o mundo e como ele funciona. Porém, como na vida de qualquer mulher, esse descobrimento não será fácil. Logo na infância ela perde pessoas próximas e queridas, importantes no seu dia a dia. A personagem amadurece através do tempo e a autora traz fragmentos de sua vida da idade dos 8 até os 52 anos.

Na adolescência, em meio a descobertas ela sofre uma violência que empaca seu crescimento. Acho interessante apontar o modo como essas situações tão doloridas afetam para sempre a vida de alguém que sofreu a violência. A personagem tem muita dificuldade de se relacionar com outras pessoas, ela virou uma casca. Viu o filho crescer e não se conectou com ele, viu a vida passar sem se jogar. Ela perdeu os sonhos, as vivências, as relações naquela fatídica noite, e sabe disso. Ela sente dor, ela sofre, mas sempre sozinha.

Esse livro nos mostra que aquela mulher somos todos nós, os traumas passam de geração em geração até termos um respaldo para quebrar esse ciclo de dor. Mas isso não é fácil. Aline Bei é sensacional colocando isso no papel. O peso do pássaro morto é um livro que recomendo a todos.

Resenha de Apague a luz se for chorar – Literatura brasileira contemporânea

Uma das belezas do Clube do Livro Contemporâneas é conhecer novas escritoras brasileiras. No mês de julho lemos um livro de Fabiane Guimarães chamado Apague a luz se for chorar. O livro, que foi sua primeira publicação formal, traz a história de Cecília e João, dois jovens veterinários que trabalham com eutanásia de animais na zoonoses de Brasilia. A vida dos dois não se entrelaçam ao longo da narrativa, elas se intercalam até o final, um capítulo dedicado a Cecília e um ao João.

Cecília foi uma criança que morria de medo da morte iminente dos pais, que eram mais velhos do que a maioria. Além disso eles eram super protetores e financeiramente estáveis. Buscando sua independência emocional e financeira, mesmo estando desempregada, fugiu de Brasilia, cidade dos pais, depois de terminar um casamento porque foi traída. No meio dessa confusão de sentimentos ela recebeu a notícia de que os pais morreram juntos. Tentando processar o que aconteceu ela descobre que eles receberam a visita de um homem misterioso. Logo depois ela conhece Caio, um meio irmão perdido que busca se aproximar dela. É nesse emaranhado paranóias que ela passa a desconfiar de Caio, o suspense se instala e nós entramos na mente de Cecília.

João tem uma vida completamente diferente, ele sustenta a si e seu filho Adam, que tem paralisia cerebral. A criança foi fruto de uma traição e a mãe abandonou ele com o pai. Aos olhos de fora ele é o pai ideal, lindo e que ama seu filho. As mulheres ficam loucas atrás dele. Mas nós leitoras sabemos que ele não é perfeito. Ele tem muita dificuldade de se relacionar com o menino e o deixa aos cuidados de dona Faustina, a baba. Apesar disso ele tem uma meta: juntar dinheiro para levar Adam para China em busca de um tratamento experimental. Nesse processo ele terá atitudes cômicas e também tristes.

O livro inteiro é permeado pelo cuidado que os personagens tem a seus familiares e a busca por independência e crescimento pessoal, mesmo que eles não percebam isso. O suspense está entrelaçado no texto e isso me fez querer saber sempre mais. Li o livro em duas noites e me surpreendeu positivamente. Acho incrível como as narrativas contemporâneas tem o poder de conversar conosco de uma forma tão clara. Esse livro é isso, cada pessoa que o lê pode se identificar de alguma maneira em algum aspecto. E eu acho isso lindo.

Resenha: Água de barrela de Eliane Alves Cruz – A saga familiar que os leitores brasileiros precisam! Da Nigéria até o Rio de Janeiro.

Eliana Alves Cruz traz uma narrativa potente sobre seus antepassados. É mais de um século de história nessa belíssima saga familiar, que se inicia na Nigéria do século XIX e termina no Rio de Janeiro do século XXI. As memórias foram resgatadas com cuidado pela própria Eliana, que teve ajuda de sua tia Nunu, uma senhora de mais de 90 anos, diagnosticada com esquizofrenia. As memórias eram límpidas, como se ela ainda fosse uma menina. Eliana mais tarde descobriu que essas memórias combinavam com os relatos históricos, o que faz deste livro ainda mais verossímil.

Resenha- Água de barrela de Eliane Alves Cruz - A saga familiar que os leitores brasileiros precisam! Da Nigéria até o Rio de Janeiro.

Akin SangoKunle (Xangocunlé) foi sequestrado, ainda menino, em sua terra natal, o reino de Oiò, na atual Nigéria; junto de seu irmão, assassinado brutalmente pelos raptores; e a cunhada grávida, Ewà Oluwa. Eles passaram meses em condições insalubres em um navio negreiro, quando o tráfico de pessoas já tinha sido proibido pela coroa inglesa. No livro o tempo passa com grande velocidade e os acontecimentos históricos se entrelaçam a vida dessas pessoas que foram escravizadas, silenciadas, e brutalizadas, pelos brancos barões da região do Recôncavo Baiano: os Tosta, família influente e rica às custas do sangue negro. Alguns de seus membros eram amigos pessoais dos monarcas portugueses e fizeram parte tanto da monarquia, quanto da nova república.

Chegando ao Brasil, os dois foram escravizados no engenho de açúcar Nossa Senhora da Natividade. Lá conhecem pessoas que foram importantes na história de Eliana, como Umbelina e Das Dores, mãe e filha; e Isabel. Elas dão início a uma grande linhagem de mulheres incríveis. Akin é nomeado Firmino e Ewà se torna Helena, que logo dá à luz a Anolina. O bebe iria se tornar cozinheira da Casa Grande. Ela dá a luz a Martha, mas não sabemos como ela engravidou, o que era muito comum, pois o corpo da mulher negra era visto como um objeto no qual o “senhor” branco poderia usufruir à vontade.

Martha tem um futuro melhor, se casa com Adônis, foi o primeiro a ler e escrever (escondido, porque só assim poderia ter educação), filho de Das Dores. Eles tem duas filhas, Damiana, a primeira que teve uma educação formal; e Dodó que trabalhou exaustivamente com uma das herdeiras dos Tosta até a morte. Essas mulheres acreditavam, e estavam certas, que o estudo daria uma vida melhor para seus filhos e filhas. Fizeram o que puderam, com o pouco dinheiro da Barrela, para que eles se tornassem, advogados, juízes, jornalistas e pudessem enfim fazer parte de uma sociedade igualitária.

Eliana nos trouxe esse breve relato da longa história de sua família fazendo com que a gente nunca se esqueça da brutalidade e apagamento que as pessoas negras sofreram, e sofrem, para que a segregação, o embranquecimento e a opressão continuem ainda fortes.

Resenha: Tempo de Graça, Tempo de Dor de Frances de Pontes Peebles

Esse livro conta a história de duas amigas que se conheceram ainda criança no engenho de açúcar Riacho Doce. Uma é Das Dores, a Jega, órfã criada pela cozinheira da casa e maltratada por todos. A outra é Graça, a patroinha. Ela se tornam inseparáveis, como irmãs. Se apaixonam pela música depois que a mãe de Graça as levou em um concerto na capital. Desde então elas sonham em se tornarem cantoras de rádio. Graça perde a mãe, cresce e se vê obrigada a casar. Elas então fogem de uma escola religiosa onde o pai as prendeu depois de espantarem, de um modo brutal, um dos pretendentes de Graça. Acabam na Lapa, e é aí que a história engata. Vemos a beleza do samba e percebemos que uma tem mais talento, para cantar, que a outra, que é uma excelente letrista. Ares de Carmen Miranda permeiam a história. O livro é narrado em primeira pessoa: Das Dores nos conta sobre a vida de Graça, desde a infância, até o estrelato em Hollywood.

Foi lindo ver a Lapa dos anos 30 e o início do samba no Rio. Samba que começou no recôncavo baiano e que foi apoiado por Mães de Santo quando criminalizado. As personagens não são amáveis, mas reais. A amizade entre Das Dores e Graça é intensa, sexual e destrutiva. As duas se amam, mas, também, se invejam. Os sentimentos reprimidos nos mostram como era difícil ser uma mulher naquela época, e como ainda é. Vemos, também, como Hollywood sugava, até a última gota, os vulneráveis. Como pano de fundo temos a segunda guerra e a ditadura de Vargas. O livro nos mostras os altos e baixos de uma história emocionante que traz personagens icônicos como a Madame Satã.

A loucura feminina no Brasil colônia – Resenha: Carta à Rainha Louca

O primeiro livro do nosso clube do livro contemporâneas foi Carta à Rainha Louca de Maria Valéria Rezende.

Ela nasceu em 1942 em Santos, minha terrinha. Saiu da cidade quando tinha 18 anos para estudar Língua, Literatura Francesa e Pedagogia, é mestre em Sociologia e se dedicou a educação popular, primeiro na periferia de São Paulo, depois no sertão nordestino. Ela rodou o mundo como educadora, fez parte de uma rede latino americana de educação. Ensinava o povo, camponeses e sindicalistas, à ler e escrever. Esteve em Cuba e na Nicarágua. Segundo o El Pais ela caminhava com Fidel Castro pelas ruas de Cuba e tomava cafezinhos com Gabriel García Marquez. Nos anos 60 ela estava comprometida com a revolução, deu abrigo a perseguidos políticos durante a ditadura militar e ensinou sindicalistas e camponeses a ler e a escrever.

Tornou-se freira aos 24 anos porque “queria andar pelo mundo, então era muito mais inteligente ser freira missionária” disse ela em uma entrevista ao El Pais. Além disso, ela tem uma visão progressista sobre os votos de castidade, pobreza e obediência, fiquei encantada ao ler a entrevista. Quanto mais eu lia sobre ela mais a admiração por essa senhora, que tem vários livros publicados, crescia em mim. Em seus livros ela fala de assuntos diversos que compõem as dores de ser mulher.

Ganhou três jabutis, em três categorias diferentes, Infantil, Juvenil e por fim, Melhor Romance e Livro do Ano de Ficção por “Quarenta dias” em 2015. “Outros Cantos” ganhou o Prêmio Casa de las Américas em Cuba, o Prêmio São Paulo de Literatura e lhe rendeu o terceiro lugar no Jabuti de 2017. Carta à Rainha Louca, nosso livro do mês, ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos de 2020, venceu o Prêmio Rumos do Itaú Cutural, e foi finalista do Jabuti de 2020.

Resenha de Carta à Rainha Louca da Maria Valéria Rezende!

Nesse livro conhecemos Isabel das Santas Virgens que está presa no convento do Recolhimento da Conceição em Olinda. É 1789 e ela começa a escrever uma carta para a Rainha Maria I, rainha de Portugal conhecida como “A louca”. Isabel clama por justiça em um relato conturbado, onde ela faz críticas verozes tanto a religião quanto a sociedade colonial, onde ela, mulher pobre e sozinha no mundo depende da sorte para viver nessa terra hostil.

A leitura é um pouco confusa no começo, tive que usar da leitura ativa, e de um dicionário, para entender as minúcias escondidas no texto de Maria Valéria Rezende, que fez uma releitura histórica belíssima, tanto do vocabulário quanto da condição da mulher, que era uma ninguém sem um homem. Ela mostra com crueza e muita ironia como funcionava as classes sociais no Brasil colonial. Os fazendeiros, os trabalhadores e os escravizados compunham uma sociedade desigual onde poucos tinham muito e muitos não tinham nada. Esse era o caso de Isabel, que fora dama de companhia da sinhazinha Blandina, filha de um fazendeiro.

Isabel dormia na senzala mas era “livre” – tão livre quanto uma mulher poderia ser em um sistema patriarcal -, seu pai foi um português que chegou no Brasil para ocupar um cargo de confiança junto ao dono das terras em que viviam, a mãe morreu no parto. Ela vivia ao lado de Blandina e a via como uma irmã. As duas tiveram a mesma educação e se apaixonaram pelo mesmo homem: Diogo, personagem cheio de histórias mentirosas.

“Tento fazer esse livro com uma linguagem plausível no século XVIII e legível no século XXI. Na verdade, desconfio da minha cabeça de século XXI para falar no lugar de uma mulher do século XVIII. Então, a mulher diz uma porção de coisas que seria impossível ela dizer no século XVIII. Mas aí ela rasura. Porque ela diz “eu devo estar louca de estar pensando numa coisa dessas, que eu nunca ouvi ninguém dizer”. Acho que é uma maneira metafórica de dizer que muita coisa é verdade ainda.” Maria Valéria Rezende

Carta à Rainha louca é dividido em quatro partes onde Isabel crítica a vida que leva no convento, as ordens religiosas, os “homens de bem”, a grande falta de materiais e produtos básicos, as leis de compra e venda, a escravidão, e a prisão, da mente e do corpo, que lhe foi imposta apenas por ser uma mulher que desafia a imposição de gênero. Vemos, também, um pouco sobre a corrida do ouro, brincadeiras sobre gênero e o valor que as palavras têm. Muito bem escrito e com algumas rasuras propositais onde ela deixa suas críticas mais mordazes. Isabel é uma personagem inspiradora que faz muito com o pouco que tem e tenta levar a vida a sua maneira mesmo quando está encarcerada em um convento.

“As rasuras são uma espécie de autocensura, porque ela está em contradição.Ela tem uma atitude feminista, faz uma crítica feminista contra o mundo colonial e percebe que diz coisas que nunca ouvira ninguém dizer e por isso, deve ser meio doida.”