O livro das coisas não ditas – Resenha: Todos os nossos ontens de Natalia Ginzburg

Natalia Ginzburg cresceu com um espírito insubordinado que herdou de seu pai, professor universitário, um judeu abertamente de esquerda, e que compartilhava com seus irmãos, que foram presos pelo regime facista de Mussolini, durante a perseguição dos nazistas aos judeus. Uma das maiores vozes da literatura italiana do século XX, Natalia nasceu em Palermo e viveu uma vida dedicada ao antifascismo. Perdeu o primeiro marido, torturado e morto pelo regime, e viveu os anos da segunda guerra mundial exilada, dentro do próprio pais, por ser judia.

Escreveu diversos romances, artigos jornalísticos, crônicas e ensaios. As reedições de suas obras no Brasil se deu pelo fenômeno Ferrante. Veio em um momento oportuno pois temos que retomar as lutas antifascistas e discutir sobre qual o mundo que queremos viver e como podemos recriá-lo da maneira mais justa possível. Ginzburg lutou ativamente no movimento antifascista e foi figura fundamental da resistência italiana.

“Emanuele voltava para sua casa e explicava a mamãe que a questão da Itália não era tão importante, porque na Polônia caíam bombas enquanto ela estava sentada tomando chá, na Polônia as casas desabavam e quando há casas que desabam não era importante saber se desabavam em um ponto ou outro do mundo.”

Todos os nossos ontens – Página 76

A obra de Natalia Ginzburg é permeada de um realismo que nos lembra os horrores da guerra pelos olhares inocentes de seus personagens. Logo no início conhecemos uma família de classe média italiana, composta pelo pai, que não sabemos o nome; os filhos: Concettina, Ipollito, Giustino e Anna; e a senhora Maria, que foi dama de companhia da avó, e depois da morte desta passou a cuidar dos afazeres domésticos. Cada personagem tem uma característica própria, o que nos faz ver o conturbado fim dos anos 30, durante o pré guerra, e o período da segunda guerra mundial, por diferentes olhares do mesmo provincianismo.

O pai é um comunista viúvo que passa seus últimos anos de vida escrevendo um livro de memórias que não mostra para ninguém. Concenttina é uma moça “namoradeira” que está sempre preocupada com a aparência, e ás vezes com a escola. Ippolito é o filho mais velho no qual o pai joga toda a responsabilidade e também a raiva que sente do mundo, diversas vezes vemos ele humilhando o menino sem motivo aparente. Anna é uma garota ingênua, que vive romantizando a revolução. Giustino é o irmão mais quieto mas o único que luta ativamente como partigiani. Por fim, a senhora Maria, que é uma velhinha teimosa e superficial que vive a recordar as grandes viagens que fizera com a avó.

“Não acreditava que a vitória já fosse dos alemães, essa era uma guerra na qual ninguém teria ganhado ou perdido, no final se veria que todo mundo teria perdido alguma coisa” 

Todos os nossos ontens – Página 160

Outros personagens também são apresentados como Cenzo Rena, um grande amigo do pai de Anna. Danilo, um dos namorados de Concettina, o único ali da classe trabalhadora, que se torna amigo de Ipollito e Emanuele, que juntos buscam formas de acabar com o fascismo. Os vizinhos da casa ao lado: os irmãos Emanuele, Giuma e Amalia, Franz, um alemão judeu que vivia com eles, e o pai e mãe, donos de uma fabrica de sabão. A vida de todos se entrelaçam e assim criam amizades, relacionamentos, discussões e ajuda mútua no período da guerra.

Todos os nossos ontens é narrado em terceira pessoa, mas não por um narrador onipresente, o filtro são os olhos de Anna, o único personagem que vemos os sentimentos mais profundos. Digo que este livro é o livro das coisas não ditas porque ao longo dele vemos os prenúncios de coisas que estão por acontecer, mas só temos certeza quando elas acontecem.

“Mas fazer a revolução para Cenzo Rena queria dizer ir até a prefeitura e retirar todos os velhos processos que apodreciam nas gavetas, e fazer com que a marquesa soltasse o dinheiro para arrumar o esgoto, e para montar um ambulatório, com um médico bom que não se deixasse apodrecer. “

Todos os nossos ontens – Página 179

Natalia Ginzburg escreveu um livro sobre a guerra pelos olhos do italiano médio, que ficava em casa esperando notícias, comida e retornos. Foi dividido em duas partes, o antes e o durante a guerra e assim conhecemos um pouco sobre as pessoas que viviam no interior da Itália, primeiro no norte, depois no sul. Ali os fascistas nem eram tão fascistas assim, como o sogro de Concettina. A revolução não era tão revolucionária assim, pois a luta antifascista se faz com ação e não com sonhos. Vemos, também, a perseguição aos judeus na Itália. Ginzburg escreveu este livro de uma forma muito sutil e repetitiva que às vezes chega a ser monótono mas não podemos esquecer que este é um livro permeado de medo, esperança, perdas, tristeza e luta, os personagens são como nós, pessoas comuns tentando sobreviver.

Cuidado: os contos deste livro podem ser assustadores, assim como o ser humano que é falho e imprevisível. Resenha: Antes do Baile Verde de Lygia Fagundes Telles

Antes do Baile Verde foi meu primeiro contato com Lygia Fagundes Telles, algo que eu já queria fazer há muito tempo, até porque dizem que eu escrevo de forma similar a ela. Entrei em uma leitura coletiva que foi muito enriquecedora pois pude ver como a escrita da Lygia traz diversas interpretações para um mesmo conto. Cada um tinha sua percepção sobre as tramas e isso foi lindo.

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira que nasceu em São Paulo em 1923, estudou direito no Largo de São Francisco, uma das primeiras mulheres a frequentar o curso. Lá participou de rodas literárias, onde conheceu Oswald de Andrade e Mário de Andrade, escritores modernistas. Seu primeiro livro foi lançado em 1938, financiado por seu pai, que ensinou a ela que o verde é a cor da esperança. Ele, grande apostador, sempre escolhia o verde na roleta, ela, grande contista, sempre trazia o verde em seus contos, a única cor que amadurece. Lygia também foi uma das principais escritoras a lutar contra a censura do AI-5.

Lygia Fagundes Telles

Publicado pela primeira vez em 1970, Antes do Baile Verde é uma antologia pessoal da escritora que escolheu os contos à dedo entre os tantos que já publicados. Lançado muitos anos após Ciranda de Pedra (1954), romance que marca o nascimento de Lygia para uma escrita, segunda ela, mais madura, Antes do Baile Verde é, junto com Ciranda de Pedra, marco do início do universo “Lygiano”. Ou seja, à partir deles encontramos muitos elementos e signos semelhantes que se repetem ao longo de sua obra. Os livros posteriores foram, a pedido da própria autora, descontinuados.

Os contos deste livro são densos e complexos mas foram escritos de uma forma tão fina que nos faz ter certeza de que cada situação ou objeto colocado ali traz sentindo para a história. Lygia nos mostra a vida humana como ela é, sem dramalhões, ou felicidades exageradas. Os sentimentos como opressão, ciúmes, arrependimento, solidão, desilusão são mostrados de uma forma leve e sutil, quando percebemos já estamos hipnotizados e assustados. Sim, os contos deste livro podem ser assustadores, assim como assim como o ser humano que é falho e imprevisível.

É maravilhoso ver como ela lapida suas histórias de forma muito inteligente, deixando tudo dito e ao mesmo tempo tudo vago. Os finais abertos são sua marca registrada, criando assim, diversas interpretações para uma mesma história. A descoberta dessa autora tão famosa na literatura nacional e mundial foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida literária, esse ano, pois não é sempre que lemos algo, assim, tão refinado.

Um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar – Resenha: Afirma Pereira de Antonio Tabucchi

Afirma Pereira foi minha segunda experiência na TAG (A primeira foi Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami). A caixinha de agosto me surpreendeu, tanto pela beleza, quanto pelo conteúdo, a edição é linda e o livro tem uma simplicidade genial. Antonio Tabucchi é um italiano que viveu por anos em Lisboa, e desde que recebi a caixinha via coincidências com a minha própria vida por toda parte, ele nasceu em Vecchiano um pequeno vilarejo que eu costumava ir ano passado (2019) e onde tenho muitas recordações positivas, ele morou em Lisboa cidade que amo e escreve tanto em português quanto em italiano, minhas duas línguas do coração.

O livro, escrito na década de 90, está ambientado no final da década de 30 em Lisboa, um lugar oprimido pelo Estado Novo português, regime imposto por Salazar. A ditadura salazarista, um governo autoritário de inspiração fascista, durou até 74, ano em que aconteceu a Revolução dos Cravos, movimento militar que levou o país a democracia que existe hoje. Medo, repressão, censura e violência, esse é o contexto social que Pereira sem encontra quase sem querer.

Pereira é um jornalista obeso e apático que vive a vida da maneira mais mecânica possível. Todos os dias ele acorda e sai para trabalhar, é colunista de cultura de um jornal que apoia a ditadura, come omeletes, toma limonadas, traduz contos francês e conversa com o retrato de sua mulher morta. É católico e se vê como um bom cidadão, tem poucos amigos e uma saúde precária. Não apoia a ditadura mas também não faz nada para se envolver, pensa que aquilo não é problema seu.

Isso muda quando ele conhece Monteiro Rossi e o contrata para escrever necrológios. Logo de cara ele percebe que Rossi não tem talento, nem vontade de fazer aquilo. O que o menino quer, ou parece querer, é arranjar problemas políticos induzidos por sua namorada Marta que é claramente comunista, isso são palavras de Pereira, não minhas. Aos poucos vemos o personagem despertar, ele ajuda financeiramente Rossi sem esperar nada em troca, como se fosse um pai, e passa a ter conversas mais politizadas com pessoas a sua volta, como seu amigo Silva e o doutor Cardoso, dois personagens que tem opiniões diversas sobre o que está acontecendo.

As cento e cinquenta e sete páginas são narradas em forma de relato, e o que eu achei curioso é que Tabucchi usa o verbo “afirmar”, ao invés do comum “dizer”. Mostrando assim como podemos brincar com as palavras sem perder o conteúdo, além disso, encontrei muitas repetições que deixariam qualquer professor de Escrita Criativa de cabelo em pé. Isso afirma a genialidade de Tabucchi que construiu com simplicidade um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar.