Resenha: Kindred – Laços de Sangue de Octávia Butler. Mulher, negra, escritora premiada.

Para quem não sabe eu escrevo, terminei um livro em 2020, que será lançado em breve, e estou preparando o próximo, que será tanto uma distopia quanto uma utopia. Por esse motivo comecei a estudar livros de ficção científica, gênero literário do qual não estou acostumada. Também fiz um curso sobre isso e a professora indicou diversos livros, incluindo Kindred da Octávia Butler.

Octávia Butler sentada em uma poltrona em frente a uma estante cheia de livros

Decidi começar por ele pois a história de vida da Butler é incrível: ela cresceu em um Estados Unidos segregado, onde a supremacia branca forçava os negros a viverem com uma má remuneração e excluídos da sociedade. Apesar disso, ela nasceu em Pasadena, na Califórnia, uma cidade mais progressista, mas não tanto, onde ela pôde estudar e se desenvolver intelectualmente. Sua mãe fazia trabalhos domésticos para famílias brancas, destino de muitas mulheres negras até os dias de hoje. Butler queria fazer diferente e ela teve a oportunidade de se dedicar a escrita desde muito jovem. Foi incentivada pela mãe, que comprou sua primeira máquina de escrever e a ajudou financeiramente seu trabalho.

Enfrentou um preconceito duplo por ser mulher e negra. Diziam a ela que nunca seria uma escritora. Esse lugar era permitido, apenas, para homens brancos. Isso fica evidente quando vemos muita literatura ruim mas aclamada feita por eles. Butler escreve com maestria, e mereceu, absolutamente, todos os prêmios que recebeu. É bastante conhecida no Estados Unidos, mas as edições de seus livros só chegaram recentemente ao Brasil. O racismo latente e estrutural nos mostra esse silenciamento diário que escritoras negras sofrem.

Octávia Butler escreveu praticamente a sua vida inteira e morreu jovem, aos 58 anos, ninguém sabe ao certo o que aconteceu mas provavelmente sofreu um derrame cerebral e, logo após, uma queda. Seus livros trazem personagens marginalizados que lutam pela sobrevivência em um mundo desigual. Kindred foi minha primeira experiência com sua escrita e não será a última.

Resenha de Kindred – Laços de Sangue e o racismo estrutural

Livro Kindred fotografado em cima de uma mesa de madeira

Dana é uma escritora negra que acaba de se casar com um homem branco, também escritor. Ele vende livros, ela ainda não, isso já nos mostra a diferença gritante entre os dois gêneros e as duas raças. O casal vive nos anos 70, são felizes e apaixonados, até que Dana começa a sentir enjôo, uma gravidez seria preferível, mas ela volta no tempo para salvar um menino branco, Rufus, que se afoga. Ela o salva mas os pais dele não a agradecem, ao invés disso, apontam uma amar para o seu rosto, ela volta para casa com o mesmo enjôo de antes. Kindred começa já impactante, nesse momento Dana não entende o que aconteceu, nem que essas viagens no tempo seriam constantes.

Pouco tempo depois ela voltou para salvar Rufus mais uma vez e descobre que está em Maryland, um estado do norte estadunidense vizinho a capital Washington e a Pennsylvania antiescravagista. Vejam: Octávia Butler não escolheu um estado do Sul para mostrar as monstruosidades da escravidão, ela escolheu um estado do Norte, que orgulhosamente lutou contra a escravidão na guerra de sucessão. A sutileza dessa escolha foi uma das coisas que mais me impressionou no livro. Dana também descobre que Rufus é um de seus antepassados e essa ligação entre os dois é o que mantém a história funcionando, pois por mais que ela odeie ele e suas atitudes ela não pode matá-lo e fugir para o futuro, pois ela nunca existiria. Resumindo: Dana, que no presente vive na Califórnia, retorna para início do século 19 em uma Maryland escravagista, sempre para salvar um menino, que se torna adolescente e depois homem.

Na terceira vez que isso acontece seu marido, Kevin, vai com ela. Ele se torna um “senhor” e ela uma mulher escravizada mas muito letrada. Os brancos se assustam com isso mas a respeitando porque ela tem um dono. À partir dai vemos um retrato fiel sobre o que acontecia nas fazendas da época: a diferença entre os escravizados da casa e os do campo, as injustiças que eles sofriam, a violência com que eram tratados e a destruição de famílias negras — era muito comum um escravagista vender filhos de pessoas escravizadas para punir ou lucrar. Dana presenciou tudo isso e teve que agir com cautela sobreviver, ela foi julgada por todos.

Enquanto eu lia esse livro, li também Mulher, raça e classe da Angela Davis, e acredito que as duas leituras se complementaram, pois pude ver em um panorama completo o que acontecia naquele Estados Unidos pré guerra civil. Octávia Butler escreve maestria, a narrativa te prende até o último parágrafo. Os personagens são bem construídos e às vezes sentia que lia um relato verdadeiro e não uma história de ficção. E, na minha opinião, o melhor momento da literatura é quando ela se mistura com a realidade de maneira tão cristalina que acreditamos estar estudando história. Butler deu uma verdadeira aula com esse seu livro. Não vejo a hora de ler mais.

Resenha: Maddaddão de Margaret Atwood – O último da trilogia.

Depois de Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, Margaret Atwood termina sua trilogia de maneira impactante. Maddaddão, que no primeiro livro era um simples videogame sobre animais em extinção e no segundo o apelido de um dos líderes jardineiros, se torna central no terceiro. Um grupo de pessoas sobreviveu ao dilúvio seco/pandemia, entre eles, alguns cientistas que trabalharam na criação dos Crakers, humanóides perfeitos que estavam sobre responsabilidade de Jimmy, ou Homem das Neves.

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

Maddaddão começa exatamente onde os dois primeiros terminam e conta o desenrolar dos acontecimentos que ficaram em aberto. O mundo acabou e uma nova sociedade está sendo criada, os sobreviventes estão reunidos em um antigo galpão. A vida dos novos personagens se mistura com a dos antigos, como Zeb, Toby, Ren e Jimmy, que nos foram apresentados anteriormente. Zeb se torna o centro da narrativa e lemos histórias da sua vida pregressa.

A narrativa tem seus pontos fortes e fracos, acredito que a tradução deixou a desejar, pois muitas das palavras foram traduzidas de modo diferente do que estava nos livros anteriores, e isso me incomodou bastante. Um livro fácil e simples, que te envolve desde o início. Narrado em terceira pessoa vemos os acontecimentos pelos olhos e pensamentos de Toby. Ela se tornou responsável pelos Crakers e deu continuidade aos mitos inventados pelo Homem das Neves, criando uma espécie de diário ficcional que ficará para a posteridade.

Depois das grandes tragédias e absurdos que aconteceram ao longo da história, a esperança da criação de um mundo mais igualitário surge. Dos três livros esse com certeza é o mais “leve” pois a imagem do passado – ou futuro distópico para nós – foi feita de forma pontual e menos brutal. A trilogia é de tirar o fôlego pois o universo criado por Margaret Atwood está mais próximo de nós do que imaginamos. Isso é assustador.

Resenha: O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood – O segundo da trilogia Maddaddão

Segundo livro da trilogia Maddaddão, da escritora Margaret Atwood, O Ano do Dilúvio não é a continuação de Oryx e Crake. É, na verdade, um livro independente que pode ser lido antes mesmo do seu antecessor. Alguns acontecimentos se conectam no fim dos dois livros. Algumas surpresas que são reveladas no primeiro livro fazem parte do contexto do segundo. Na minha opinião os dois livros fazem parte de um todo e poderiam estar juntos em uma edição só. A premissa é a mesma: uma pandemia destruiu a humanidade e a história de alguns dos sobreviventes é narrada.

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

Oryx e Crake explica a origem da pandemia e se passa em um lugar mais privilegiado: dentro dos complexos. O Ano do Dilúvio mostra a vida na plebelândia (nome dado a vida fora dos complexos), dentro de uma seita religiosa chamada Jardineiros de Deus. Aqui Margaret volta a explorar a religiosidade, como vez em O Conto de Aia, mas de uma maneira completamente diferente. A religião dos jardineiros é voltada para a ecologia e eles vivem da forma mais natural possível, fugindo dos padrões sociais vigentes nesse futuro distópico, com seus próprios cânticos, deuses e estilo de vida. Eles acreditavam que um dilúvio seco destruirá a humanidade, e foi exatamente que aconteceu.

O tempo é marcado pelos anos que a seita existe, o ano 1 foi o ano de sua criação, o ano 25 foi o ano do dilúvio/apocalipse. A história é narrada do ponto de vista de duas personagens, Toby e Ren, ex-jardineiras que sobreviveram a pandemia, à partir do ano 10.

Em comparação a Oryx e Crake a narrativa do O Ano do Dilúvio é mais lenta. Um livro com uma escrita bem simples mas com conteúdo denso. Relacionamentos, violência, abuso sexual, são envoltos em uma ironia que beira ao humor ácido. É assustador como vemos nossa sociedade atual refletida nesse livro. Margaret Atwood sempre diz que tudo que está nesse livro existe, de alguma forma, hoje em dia.

Resenha: Oryx e Crake de Margaret Atwood – O primeiro da trilogia Maddadão

Margaret Atwood é uma escritora canadense conhecida por O Conto de Aia, livro de 85 que virou série em 2017, que conta a história de uma mulher em um futuro distópico extremamente religioso. O Conto de Aia ganhou prêmios e teve milhões de cópias vendidas pelo mundo. Mas Margaret Atwood não é uma escritora de um sucesso só, outras de suas obras também venceram prêmios importantes, como Vulgo Grace, que, também, se tornou série (disponível no Netflix); e o Assassino Cego. Mas hoje venho para comentar uma trilogia escrita, recentemente, por Margaret Atwood: Oryx e Crake (2013), O Ano do Dilúvio (2009) e Maddaddão (2017). 

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

A trilogia conta a história de um grupo de pessoas que se conectam ao longo dos anos, entre o passado, que para nós seria um futuro especulativo; e o presente, um mundo pós apocalíptico, onde a raça humana acaba devido a uma pandemia mundial. Os dois primeiros livros não são sequenciais, juntos formam um todo, onde os personagens vivem simultaneamente. É bem interessante ler, pois vemos algumas situações de diversos ângulos, sem ser pedante ou repetitivo. Por exemplo: a história contada em Oryx e Crake é sobre a vida de Jimmy e seus amigos íntimos, ao mesmo tempo as vidas de Toby e Ren, são contadas em o Ano do Dilúvio, e os personagens se cruzam nos dois livros. O último livro da trilogia, Maddaddão começa no mundo pós apocalíptico assim que as histórias acabam nos dois livros anteriores. 

Oryx e Crake nos mostra um mundo diferente daquele que conhecemos: as grandes corporações dominaram a vida urbana, a comida virou artificial e os porcos estão tão grandes e inteligentes que se tornaram um problema. Tudo é manipulado e observado de perto por aqueles que comandam as corporações. As familiaridades com os dias de hoje são gritantes. Os sentimentos de desesperança e angustia rodeiam a história que é repleta de violência.

Os capítulos se alternam entre passado e presente da vida do personagem principal: O Homem das Neves ou Jimmy. Aos poucos descobrimos o que aconteceu com ele e como ele chegou até aquele ponto no apocalipse final, o único humano vivo, morando em uma casa na árvore precária e sendo responsável por um grupo de humanos coloridos chamados de Filhos de Crake. A leitura começa devagar mas depois da metade fica eletrizante. Apesar de ser um romance de ficção especulativa a narrativa é densa e complexa, abordando temas sensíveis como relacionamentos abusivos – amorosos e familiares -, exploração sexual infantil, banalização da violência e falta de ética na ciência. O livro também traz questões ecológicas e ambientais, que são exploradas com profundidade no O Ano do Diluvio, o segundo livro da trilogia

A leitura desse livro trouxe questionamentos importantes, pois ele mostra o lado mais podre da sociedade e nos leva para um futuro que pode se tornar realidade. É uma leitura para corajosos, mas não se intimide, a curiosidade te leva até o fim.