Uma mistura do feminino e do masculino transforma este livro em uma obra prima do pós guerra – Resenha: Os Mandarins de Simone de Beauvoir

“As paredes giravam, mas eu me sentia muito lúcida, muito mais lúcida do quando sóbria. Quando sóbria, a gente tem muitas defesas, dá um jeito de não saber o que sabe.”

Os Mandarins – Página: 49

Simone de Beauvoir nasceu na primeira década do século vinte e dedicou sua vida a projetos filosóficos e literários. Filha da alta burguesia, como a maioria dos intelectuais da época, estudou em um colégio católico até seus dezessete anos, depois estudou matemática, línguas e, por fim, filosofia, na Sorbonne, matéria que lhe deu destaque, onde conheceu muitos de seus companheiros intelectuais.

É, realmente, difícil para mim, uma mera mortal, falar dessa grande mulher e de sua filosofia, mas tentarei resumir um pouco do que sua obra representa, não só para nós mulheres, mas para todo o pensamento ocidental. Para isso, me inscrevi em um curso da Revista Cult, ministrado por Juliana Oliva, estudiosa da obra de Beauvoir. Simone foi um expoente importante da corrente filosófica existencialista. Filosofia que acredita que as escolhas próprias definem a vida de um ser, o ser humano é o que ele faz e é livre para escolher.

A obra de Simone é permeada por investigações do ser a partir da existência, e ela passa sua vida escrevendo ensaios, livros e autobiografias em busca da sua transcendência: fazer algo além da espécie. Sua obra é extensa, e o seu livro mais conhecido é o Segundo Sexo, um grande ensaio sobre a condição da mulher na sociedade ocidental. Aos poucos ela encontra barreiras, como a segunda guerra mundial, época em que Paris fora ocupada pelos alemães. Nesta época Simone faz parte da resistência francesa e escreveu seu livro Os Mandarins com base no período final da guerra.

Simone de Beauvoir por Cartier-Bresson

“É preciso muita confiança no futuro para crer que a vida toda possa ter sentido.” 

Os Mandarins – Página: 241

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Os Mandarins não é um livro fácil, suas 732 páginas estão inundadas de uma politica, já obsoleta, do pós segunda guerra mundial em uma Paris falida. As discussões mais importantes que permeiam o livro são a nova política da esquerda, que não chega a ser um comunismo mas também é, totalmente, contra ao capitalismo americano. Confesso que achei essas discussões maçantes e muito masculinas, esperava que o livro tratasse mais da condição feminina, o que faz, é certo. Porém esses questionamentos políticos, que os intelectuais burgueses fizeram no meio do século, são centrais neste romance. Algumas questões que discutem são ínfimas perto das injustiças que ocorrem no mundo, isto me enfastiou e fez com que eu demorasse muito para ler o livro inteiro.

O personagem protagonista destas discussões é Henri, um escritor e jornalista, diretor de um jornal que fora importante para a resistência francesa. Seguimos lendo sobre sua vida que envolve: lutas diárias para manter o jornal em pé, romances com diversas mulheres, como Paule e Nadine, e suas amizades, principalmente com o casal Dubreuilh, Anne e Robert, que são, também, pais de Nadine. A história de Henri nos é entregue por um narrador em terceira pessoa onisciente, ou seja, vemos o que acontece com ele sem muito sentimentalismo. Apesar disso ele é um personagem cheio de questões existências profundas, dúvidas e esperanças.

A intriga central do romance é o rompimento e a reconciliação entre Henri e Robert, mas em paralelo a isto vemos a história de Anne ser contada em primeira pessoa. Simone dedica, um capítulo a Henri e depois um a Anne, e segue este formato até o fim. Anne é, também, protagonista neste livro, e na minha opinião suas questões são muito mais interessantes que as de Henri. Pois ela se questiona em um nível pessoal, enquanto Henri se questiona em um nível político, ou moral.

“Que significa o fato de que o homem não para de falar de si? E por que certos homens resolvem falar em nome de outros?”

Os Mandarins – Página: 282

Anne é mulher, casada, mãe e psiquiatra, ela cresceu em uma família católica, como Simone, e se casou com Robert, vinte anos mais velho. Tiveram uma filha, Nadine, que também tem seus momentos fortes no romance, a construção desta personagem, e de todos os outros, tem uma profundeza assustadora pois as emoções que Simone descreve vão desde a alegria do fim da guerra, até o luto por aqueles que morreram. Ela cria mulheres profundas, que não são heroínas feministas pelas quais poderíamos esperar depois de ler o Segundo Sexo. Simone diz que escreve o que vê e nunca viu uma mulher liberta de todas as imposições do gênero feminino.

Neste livro vemos três mulheres importantes: Anne, que seria a mais liberta, mas passiva, vive um relacionamento aberto com Robert e se apaixona por um escritor americano, Lewis, com o qual vive uma história de amor intensa. Esta parte do livro é muito bonita mas também sufocante, pois este amor não é um amor seguro e saudável. Nadine é uma mulher que se masculinizou e se sexualizou para poder ser aceita no grupo de amigos, homens, que está envolvida, ela foge das feminilidades e sentimentalismos, é agressiva, mas no fundo vemos que é apenas uma menina imatura que não sabe ao certo como se impor, ou, nas palavras de Simone: transcender. Por fim, Paule, a mulher apaixonada que deu tudo de si para seu amor, Henri, e vive apenas por ele sem perceber que este relacionamento chegou ao fim, ela é insistente e vive completamente fora da realidade.

Bom, como disse no início, este não é um livro simples, nem de ler, nem de resenhar. É um livro forte, cheio de nuances, e complexidades, por isso recomendo uma leitura consistente e devagar. Ganhou o prêmio Goncourt, um dos maiores prêmios literários da França e foi bem aceito tanto pela direita, quanto pela esquerda. A grande mistura de personagens tanto feminino quanto masculino mostram a grande diversidade de olhares e a beleza do existencialismo em forma de literatura. Os Mandarins é uma obra prima escrito por uma mulher genial.

Conhecendo a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos – Resenha: Só Garotos, Patti Smith.

Patti Smith é de uma sensibilidade absurda, poucas pessoas tem o poder de encantar e inspirar como ela. Sua escrita é sonhadora e cheia de referências significativas. Antes de musicista Patti foi poeta, artista  e atriz. Sua vida em Nova Iorque no fim dos anos 60 foi eletrizante, esteve ao lado de ícones de uma geração como Janis Joplin, Sam Shepard e Allen Ginsberg. 

Foi para a cidade sem nenhum tostão no bolso e viveu por algumas semanas como uma sem teto, quando conheceu Robert Mapplethorpe as coisas mudaram. Eles criaram um laço que durou a vida inteira, foram amantes, amigos e companheiros inseparáveis. Passaram por altos e baixos, em um certo momento não tinham nem o que comer. Só garotos é sobre essa relação, neste livro ela mostra como duas crianças inocentes que tinham uma vocação em comum se tornaram os grandes artistas que foram (no caso da Patti: a grande artista que é). 

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

Só garotos é uma das mais belas autobiografias que já li. Patti é poética e sua escrita se cerca de uma humildade que me comove. Uma grande amante de prosa poética francesa do século dezenove trata seu poeta preferido Rimbaud como verdadeiro deus. Patti ama da maneira mais pura e sincera Robert, seus amigos, ícones e pequenos objetos que mesmo parecendo insignificantes são o mundo para ela.

Patti Smith tem o dom da palavra, ela escreve de maneira fluida e simples mas usa certos termos que deixam sua prosa poética (Mais sobre isso na resenha de Devoção). O livro está localizado bem no meio do olho do furacão do cenário artístico de Nova York dos anos 70, uma cidade suja e perigosa. Uma época e lugar que muita coisa aconteceu, muitos artistas surgiram e, também, morreram.

Fotos de Robert Mapplethorpe

Robert Mapplethorpe foi um grande fotógrafo, se descobriu homossexual quando ainda estava em um relacionamento com Patti e morreu de AIDS no fim dos anos 80. Antes de sua morte Patti prometeu escrever este livro para ele, e assim o fez, da maneira mais bonita e crua possível. Patti se tornou uma grande punk e vive até hoje inspirando gerações, inclusive a mim. Robert deixou um legado de fotos provocantes e fortes e é admirado até hoje. Foi uma delicia conhecer a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos.