5 Livros importantes para você que quer estudar sobre feminismo!

Sinto que sou feminista desde que era novinha, porque não entendia porque existiam coisas de menino e coisas de menino. Achava a vida dos meninos tão mais legal, os jogos emocionantes, as brincadeiras ao ar livre, os esportes de risco, as grandes estrelas do rock que eram sempre homens. Olhava para os lados procurando personalidades para me identificar e não encontrava, até porque, sempre me entendi como mulher, mas a representação do feminino me incomodava. Via a maquiagem como uma máscara e os apetrechos sufocantes. Isso que eu nem tinha 12 anos. Mas desde sempre busquei minha própria voz, gostava de imaginar que eu era uma estrela do rock, mesmo sabendo que mulheres, neste meio, eram sempre as tietes, ou modelos, que corriam atrás das estrelas, e eu não suportava ser isso. Queria ser uma mulher importante e não um bibelô.

Porém, todas essas ideias que eu considerava feministas estavam só na minha cabeça, não tive contato com nenhuma teoria até meus 21, 22 anos, e quando o fiz senti que minha cabeça explodiria. Li O Segundo Sexo, O Mito da Beleza, Woman Hating, ensaios da Emma Goldman, discursos da Angela Davis, tudo em pdfs que ia achando em grupos feministas. Aos poucos compreendi a complexidade do que é ser mulher e ser socializada como mulher.

Bom, estou dizendo tudo isso para trazer para vocês os livros feministas que estou relendo/lendo neste momento. Alguns eu li há muitos anos e guardo na memória com carinho como Um Teto Todo Seu. Outros que li e não coloquei na lista, pois faz tanto tempo que preciso revisitar como Mulheres, Cultura e Politíca da Angela Davis e Os Homens Explicam Tudo Para Mim da Rebecca Solnit.

Os cinco que trouxe hoje são os que eu considero mais importante agora, e espero que possamos trocar ideias sobre eles e estudarmos juntas esses assuntos. Até porque, minha vida literária é baseada em ler o máximo de mulheres possível e disseminar a palavras delas pelo mundo! 💕

Um teto todo seu – Virginia Woolf

Um grande ensaio de Virginia Woolf que com uma perspicácia incrível nos mostra como as portas do conhecimento foram fechadas para as mulheres que não podiam entrar nas Universidades, nem nas bibliotecas, éramos ensinadas a cuidar da casa e dos filhos e só. Não tínhamos um espaço nosso para nos dedicarmos a escrita, por isso muitas não o fizeram. Virginia tem uma sacada interessante: Se Shakespeare tivesse uma irmã tão talentosa quanto ele, como seria o futuro dela?

Quem tem medo do feminismo negro? Djamila Ribeiro

Quem tem medo do feminismo negro de Djamila Ribeiro: este livro eu ganhei de uma grande amiga que respeito muito, eu, como branca, sempre me identifiquei com feministas brancas, primeiro porque este conteúdo é mais disseminado e segundo porque para mim a luta era mesma, uma menina bobinha. O primeiro contato que tive com questões de raça foi com Angela Davis em seus artigos e discursos, mas sentia que eram muito distante de mim por estarem relacionados com a cultura americana. Depois a Djamila apareceu mostrando com eficácia como o racismo é estrutural e debilitante. Este é um livro com vários artigos compilados e essencial para a luta feminista como um todo.

Calibã e a bruxa – Silvia Federici

Um livro de explodir a cabeça, ele explica à fundo o que foi a caça as bruxas, qual era o contexto social, religioso e laboral que as mulheres estavam submetidas naquela época. Aborda diversos assuntos de extrema importância, tanto para luta de classe, quanto para o feminismo: a colonização, a cristianização, a acumulação de capital, a propriedade privada. É um grande livro de história, que além de falar sobre a caça as bruxas também nos mostra como foi a transição do feudalismo para o capitalismo e como isto um processo sangrento. 

O mito da beleza – Naomi Wolf

Esse foi o primeiro que me impactou forte, ele nos mostra como a cultura da beleza nos oprimem tanto no trabalho, quanto na vida pessoal, fazendo com que tenhamos que estar sempre belas, arrumadas, gastando rios de dinheiro para subir na carreira, e na vida. Faz refletir sobre várias inseguranças que temos em relação ao nosso corpo e nos faz entender o porque gastamos mais do que devíamos com cosméticos e intervenções estéticas. Aprendemos como esses padrões são destrutivos e cansativos.

O segundo sexo, volume 1 – Simone de Beauvoir

Já fiz uma resenha dele (que você encontra no post abaixo), mas quis trazer ele aqui de novo. Ele é um grande resumo de todas as pautas feministas que estão nos livros anteriores. Fala da mulher como propriedade privada, nos dá um panorama histórico da condição feminina desde os primórdios até os dias atuais, nos mostrada dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras, investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas.

Patti me enche de sentimentos bons, e inspira a poeta que existe dentro de mim – Resenha: Devoção de Patti Smith.

Patti Smith que nasceu em Chicago, cresceu em Nova Jersey e se estabeleceu em Nova Iorque no fim dos anos 60 (como vimos em Só Garotos), nos conta, em Devoção, sobre uma de suas viagens a Paris, de uma maneira delicada e sensível que só a Patti Smith sabe fazer.

Devoção é um livro sobre a necessidade de escrever, sobre processos criativos. É sobre a ansia de colocar vida no papel, é sobre referências. Dividido em três partes o pequeno livro é repleto de influências francesas, que vão desde Rimbaud até Marguerite Duras. Além disso, trechos poéticos passeiam por algumas páginas: uma surpresa agradável para aqueles de alma sonhadora.

Na primeira parte Patti nos conta sobre alguns de seus dias na França e das suas andanças por lá, esteve na rua em que Picasso pintou Guernica e no cemitério onde Paul Valéry está enterrado. Viaja, então, para a Inglaterra em busca do túmulo de Simone Weil, da qual estava lendo a biografia.

A segunda parte do livro é o conto que ela criou durante a viagem e nele estarão as referências que ela pescou durante aquele período: como a lembrança de assistir patinação no gelo com o pai pela televisão. O conto conta a história do “relacionamento” de uma adolescente apaixonada por patinação do gelo e um homem rico mais velho que ela (o que me lembrou muito o livro O Amante da China do Norte de Marguerite Duras). A menina só queria patinar e ele deu tudo que ela precisava para fazer tal coisa, mas era extremamente controlador. Ou seja, quando ela teve a oportunidade de crescer na patinação ele tirou isso dela. O conto tem uma reviravolta interessante e sombria.

Na última parte do livro Patti se questiona “o que nos impele a escrever?”. Ela volta para a França e parte para o interior a convite da filha de Camus, para conhecer o manuscrito de “Primeiro Homem”, o livro que o autor nunca acabou. Dormiu no quarto dele e participou das refeições com a família. Ali Patti volta a se questionar e a atribuir lembranças sobre a escrita, tentando achar respostas para as perguntas do início do parágrafo.

As respostas foram encontradas mas de uma maneira muito pessoal e única. Patti responde por ela, e apenas por ela, cada um deve buscar em si respostas para tais questões. Li devoção em um dia, suas 127 páginas são mágicas e não me deixaram fugir. Fiquei vidrada no modo como ela contou a sua própria história e mostrou seus pensamentos. Patti me enche de sentimentos bons, e inspira a poeta que existe dentro de mim. Eu, realmente, amei Devoção.

Conhecendo a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos – Resenha: Só Garotos, Patti Smith.

Patti Smith é de uma sensibilidade absurda, poucas pessoas tem o poder de encantar e inspirar como ela. Sua escrita é sonhadora e cheia de referências significativas. Antes de musicista Patti foi poeta, artista  e atriz. Sua vida em Nova Iorque no fim dos anos 60 foi eletrizante, esteve ao lado de ícones de uma geração como Janis Joplin, Sam Shepard e Allen Ginsberg. 

Foi para a cidade sem nenhum tostão no bolso e viveu por algumas semanas como uma sem teto, quando conheceu Robert Mapplethorpe as coisas mudaram. Eles criaram um laço que durou a vida inteira, foram amantes, amigos e companheiros inseparáveis. Passaram por altos e baixos, em um certo momento não tinham nem o que comer. Só garotos é sobre essa relação, neste livro ela mostra como duas crianças inocentes que tinham uma vocação em comum se tornaram os grandes artistas que foram (no caso da Patti: a grande artista que é). 

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

Só garotos é uma das mais belas autobiografias que já li. Patti é poética e sua escrita se cerca de uma humildade que me comove. Uma grande amante de prosa poética francesa do século dezenove trata seu poeta preferido Rimbaud como verdadeiro deus. Patti ama da maneira mais pura e sincera Robert, seus amigos, ícones e pequenos objetos que mesmo parecendo insignificantes são o mundo para ela.

Patti Smith tem o dom da palavra, ela escreve de maneira fluida e simples mas usa certos termos que deixam sua prosa poética (Mais sobre isso na resenha de Devoção). O livro está localizado bem no meio do olho do furacão do cenário artístico de Nova York dos anos 70, uma cidade suja e perigosa. Uma época e lugar que muita coisa aconteceu, muitos artistas surgiram e, também, morreram.

Fotos de Robert Mapplethorpe

Robert Mapplethorpe foi um grande fotógrafo, se descobriu homossexual quando ainda estava em um relacionamento com Patti e morreu de AIDS no fim dos anos 80. Antes de sua morte Patti prometeu escrever este livro para ele, e assim o fez, da maneira mais bonita e crua possível. Patti se tornou uma grande punk e vive até hoje inspirando gerações, inclusive a mim. Robert deixou um legado de fotos provocantes e fortes e é admirado até hoje. Foi uma delicia conhecer a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos.

Uma História Forte, Sincera e Problemática – Resenha: “O Amante da China do Norte” de Marguerite Duras

A literatura francesa é idolatrada no nosso mundo ocidental, são inúmeros os fãs de Balzac, Sartre, Proust, entre outros, e muitas vezes esquecemos de valorizar as grandes mulheres que, também, fizeram parte dos movimentos intelectuais franceses. Pensando nisso decidi ler mais livros escritos por essas mulheres e descobri tesouros escondidos. Comprei livros da Simone de Beauvoir, Marguerite Yourcenar, Colette e Marguerite Duras – a grande estrela desse artigo.

Marguerite Duras nasceu (1914) em Saigon na Conchinchina, Indochina Francesa, antiga colônia da França, e hoje o Vietnã. Esse é o local em que a história cria forma com tons autobiográficos. Marguerite deixou a Ásia quando tinha 17 anos, foi morar na França onde iniciou sua carreira como roteirista, escritora e dramaturga. Brilhou nos cinemas e nas folhas impressas com sua escrita simples e forte.

O Amante da China do Norte é a segunda versão – mais detalhada – do livro, até então intitulado O Amante, onde a autora narra a história de amor de uma menina pobre de quinze anos – ou quatorze, não sabemos ao certo -, intitulada “A criança”, e um chinês rico quatorze anos mais velho intitulado “O Chinês”. Não temos nomes, apenas esboços de personagens e podemos imaginá-los a nossa maneira. Nesse livro, com tons autobiográficos, Marguerite nos conta sobre o seu primeiro amor, sua iniciação sexual e suas experiências incestuosas sem nenhum pudor.

Comecei a ler com um pouco de receio e me senti enojada com o modo como ela se refere a “Criança” – a própria Marguerite Duras – mas depois me acostumei. Na verdade, compreendi a inocência dessa menina, e me envolvi nesse retrato sobre a descoberta da sexualidade por uma jovem que não tinha internet, nem informações de cunho sexual, bem distante das normas sociais ocidentais da época. Para ela o sexo era apenas amor e ela o sentia de diversas maneiras, por diversas pessoas diferentes. Esse não é um livro sobre pedofilia, nem sobre abuso sexual, nem sobre objetificação da mulher – ou talvez seja, sobre tudo isso mas de uma maneira sutil, estranha e simples. É um retrato doloroso sobre a iniciação sexual de uma adolescente ingênua e inocente que se apaixonou pela primeira vez.

As relações familiares entre a Criança, sua mãe e seus irmãos também é explorada na narrativa. Marguerite cresceu em uma família com pouquíssimos recursos. A mãe, que depois de perder o marido e suas terras se tornou uma pessoa instável e infeliz, teve que cuidar dos três filhos sozinha. Para piorar, um dos filhos, o mais velho, é extremamente violento e se envolve em diversos problemas ao longo do livro. Além disso, o fato da única menina da casa estar em um relacionamento com o Chinês também causa confusão, pois ele nunca poderia se casar com ela, porque o pai o deserdaria, e ela, uma menina branca, nunca poderia casar com um chinês.

Outra coisa que me impressionou foi o retrato da Ásia colonizada dos anos 20, um local onde se misturavam diversas etnias e paisagens. Preconceito, prostituição e o ópio são alguns temas abordados. O sentimento de liberdade – os personagens, apesar de crianças, estão sempre andando sozinhos e vivendo a vida a sua maneira – percorre as páginas cobertas de frases simples que se assemelham a um roteiro de filme, cheio de diálogos e imagens criadas com palavras, que podem ser visualizadas a sua maneira. É um livro surpreendente, sensível e assustador, que apesar de ser uma leitura fácil causa um impacto fortíssimo, pela sua temática e pela crueza com que Marguerite conta a história.

https://www.instagram.com/p/CEmv3rRDaoq/

Resenha: Maddaddão de Margaret Atwood – O último da trilogia.

Depois de Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, Margaret Atwood termina sua trilogia de maneira impactante. Maddaddão, que no primeiro livro era um simples videogame sobre animais em extinção e no segundo o apelido de um dos líderes jardineiros, se torna central no terceiro. Um grupo de pessoas sobreviveu ao dilúvio seco/pandemia, entre eles, alguns cientistas que trabalharam na criação dos Crakers, humanóides perfeitos que estavam sobre responsabilidade de Jimmy, ou Homem das Neves.

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

Maddaddão começa exatamente onde os dois primeiros terminam e conta o desenrolar dos acontecimentos que ficaram em aberto. O mundo acabou e uma nova sociedade está sendo criada, os sobreviventes estão reunidos em um antigo galpão. A vida dos novos personagens se mistura com a dos antigos, como Zeb, Toby, Ren e Jimmy, que nos foram apresentados anteriormente. Zeb se torna o centro da narrativa e lemos histórias da sua vida pregressa.

A narrativa tem seus pontos fortes e fracos, acredito que a tradução deixou a desejar, pois muitas das palavras foram traduzidas de modo diferente do que estava nos livros anteriores, e isso me incomodou bastante. Um livro fácil e simples, que te envolve desde o início. Narrado em terceira pessoa vemos os acontecimentos pelos olhos e pensamentos de Toby. Ela se tornou responsável pelos Crakers e deu continuidade aos mitos inventados pelo Homem das Neves, criando uma espécie de diário ficcional que ficará para a posteridade.

Depois das grandes tragédias e absurdos que aconteceram ao longo da história, a esperança da criação de um mundo mais igualitário surge. Dos três livros esse com certeza é o mais “leve” pois a imagem do passado – ou futuro distópico para nós – foi feita de forma pontual e menos brutal. A trilogia é de tirar o fôlego pois o universo criado por Margaret Atwood está mais próximo de nós do que imaginamos. Isso é assustador.

Resenha: O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood – O segundo da trilogia Maddaddão

Segundo livro da trilogia Maddaddão, da escritora Margaret Atwood, O Ano do Dilúvio não é a continuação de Oryx e Crake. É, na verdade, um livro independente que pode ser lido antes mesmo do seu antecessor. Alguns acontecimentos se conectam no fim dos dois livros. Algumas surpresas que são reveladas no primeiro livro fazem parte do contexto do segundo. Na minha opinião os dois livros fazem parte de um todo e poderiam estar juntos em uma edição só. A premissa é a mesma: uma pandemia destruiu a humanidade e a história de alguns dos sobreviventes é narrada.

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

Oryx e Crake explica a origem da pandemia e se passa em um lugar mais privilegiado: dentro dos complexos. O Ano do Dilúvio mostra a vida na plebelândia (nome dado a vida fora dos complexos), dentro de uma seita religiosa chamada Jardineiros de Deus. Aqui Margaret volta a explorar a religiosidade, como vez em O Conto de Aia, mas de uma maneira completamente diferente. A religião dos jardineiros é voltada para a ecologia e eles vivem da forma mais natural possível, fugindo dos padrões sociais vigentes nesse futuro distópico, com seus próprios cânticos, deuses e estilo de vida. Eles acreditavam que um dilúvio seco destruirá a humanidade, e foi exatamente que aconteceu.

O tempo é marcado pelos anos que a seita existe, o ano 1 foi o ano de sua criação, o ano 25 foi o ano do dilúvio/apocalipse. A história é narrada do ponto de vista de duas personagens, Toby e Ren, ex-jardineiras que sobreviveram a pandemia, à partir do ano 10.

Em comparação a Oryx e Crake a narrativa do O Ano do Dilúvio é mais lenta. Um livro com uma escrita bem simples mas com conteúdo denso. Relacionamentos, violência, abuso sexual, são envoltos em uma ironia que beira ao humor ácido. É assustador como vemos nossa sociedade atual refletida nesse livro. Margaret Atwood sempre diz que tudo que está nesse livro existe, de alguma forma, hoje em dia.

Resenha: Oryx e Crake de Margaret Atwood – O primeiro da trilogia Maddadão

Margaret Atwood é uma escritora canadense conhecida por O Conto de Aia, livro de 85 que virou série em 2017, que conta a história de uma mulher em um futuro distópico extremamente religioso. O Conto de Aia ganhou prêmios e teve milhões de cópias vendidas pelo mundo. Mas Margaret Atwood não é uma escritora de um sucesso só, outras de suas obras também venceram prêmios importantes, como Vulgo Grace, que, também, se tornou série (disponível no Netflix); e o Assassino Cego. Mas hoje venho para comentar uma trilogia escrita, recentemente, por Margaret Atwood: Oryx e Crake (2013), O Ano do Dilúvio (2009) e Maddaddão (2017). 

Margaret Atwood por Tim Walker para The Sunday Times Style magazine

A trilogia conta a história de um grupo de pessoas que se conectam ao longo dos anos, entre o passado, que para nós seria um futuro especulativo; e o presente, um mundo pós apocalíptico, onde a raça humana acaba devido a uma pandemia mundial. Os dois primeiros livros não são sequenciais, juntos formam um todo, onde os personagens vivem simultaneamente. É bem interessante ler, pois vemos algumas situações de diversos ângulos, sem ser pedante ou repetitivo. Por exemplo: a história contada em Oryx e Crake é sobre a vida de Jimmy e seus amigos íntimos, ao mesmo tempo as vidas de Toby e Ren, são contadas em o Ano do Dilúvio, e os personagens se cruzam nos dois livros. O último livro da trilogia, Maddaddão começa no mundo pós apocalíptico assim que as histórias acabam nos dois livros anteriores. 

Oryx e Crake nos mostra um mundo diferente daquele que conhecemos: as grandes corporações dominaram a vida urbana, a comida virou artificial e os porcos estão tão grandes e inteligentes que se tornaram um problema. Tudo é manipulado e observado de perto por aqueles que comandam as corporações. As familiaridades com os dias de hoje são gritantes. Os sentimentos de desesperança e angustia rodeiam a história que é repleta de violência.

Os capítulos se alternam entre passado e presente da vida do personagem principal: O Homem das Neves ou Jimmy. Aos poucos descobrimos o que aconteceu com ele e como ele chegou até aquele ponto no apocalipse final, o único humano vivo, morando em uma casa na árvore precária e sendo responsável por um grupo de humanos coloridos chamados de Filhos de Crake. A leitura começa devagar mas depois da metade fica eletrizante. Apesar de ser um romance de ficção especulativa a narrativa é densa e complexa, abordando temas sensíveis como relacionamentos abusivos – amorosos e familiares -, exploração sexual infantil, banalização da violência e falta de ética na ciência. O livro também traz questões ecológicas e ambientais, que são exploradas com profundidade no O Ano do Diluvio, o segundo livro da trilogia

A leitura desse livro trouxe questionamentos importantes, pois ele mostra o lado mais podre da sociedade e nos leva para um futuro que pode se tornar realidade. É uma leitura para corajosos, mas não se intimide, a curiosidade te leva até o fim.