Os melhores livros de prosa contemporânea para ler hoje | 8 livros que li na pós graduação!

Nesse post eu vou falar dos 8 livros que li na matéria da pós graduação sobre prosa contemporânea, que podem ser considerados os melhores livros de prosa contemporânea da atualidade! São livros que ganharam prêmios, ganharam o coração da crítica e venderam muito: em todo mundo! Tem dois livros nessa lista que eu AMEI e foram dois dos melhores do ano, mas outros dois eu achei que não era para tudo isso não.

Eu sou aluna de pós graduação em formação de escritores no instituto Vera Cruz, e esse bimestre me inscrevi em uma matéria sobre prosa contemporânea, onde junto com o professor, nós destrinchamos oito livros, tentando entender o que fazia deles livros de sucesso, e porque ganharam tantos prêmios e aclamação da crítica. Cada livro tem sua característica inovadora e conversam muito com nossas questões contemporâneas.

Vou falar um pouco de cada um deles, mas sem dar spoilers sobre seus finais ou acontecimentos importantes. Seguirei a ordem de leitura que a gente leu para pós, que foi do livro mais curto, para o mais longo.

Lista com pequenas resenhas dos melhores livros contemporâneos para ler hoje:

1) A vegetariana de Han Kang

A vegetariana é um livro da sul coreana Han King! Ele foi lançado em 2007 mas se tornou um sucesso internacional depois que venceu o Man Booker Internacional Prize de 2016. No Brasil ele só foi publicado em 2018 pela todavia. O livro é dividido em três partes com três narradores diferentes, todos em primeira pessoa.

A personagem principal, Yeonghye, decide ser vegetariana depois de ter sonhos sangrentos em relação a carne. No primeiro capítulo lemos o que o marido dela sente em relação a isso. Ele é uma pessoa comum, super mediana e fica muito bravo com a escolha da esposa. A voz de Yeonghye aparece aqui por meio de fragmentos em itálico, onde ela conta seus sonhos, mas isso não acontece nas outras partes.

O primeiro capítulo foi publicado como um conto em 97, e só depois de muitos anos ela escreveu os outros. O segundo capitulo é narrado pelo cunhado de Yeonghye que decide que ela seria sua obra de arte. Por último vemos como sua irmã lida com as coisas que acontecerem por conta da decisão da irmã, Yeonghye, de ser vegetariana. É o capítulo mais complexo e bonito. O livro é intenso e carrega um tanto de magia quanto os livros de Murakami.

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2) O pai da menina morta de Thiago Ferro

O pai da menina morta é um livro de Thiago Ferro lançado em 2018 também pela Todavia. Em 2019 ele ganhou o prêmio São Paulo de Literatura e o prêmio Jabuti na categoria melhor romance. Esse é um livro de fragmentos sobre a história de um pai que perdeu sua família, história parecida com a do próprio autor.

Por meio de fragmentos, como se fossem posts em redes sociais, listas, e-mails e mensagens de Whatsapp, ele nos conta sobre a perda. Não é um livro triste, é na verdade, um tanto estranho, pois o personagem principal é um cara meio babaca, meio frio, autocentrado. Isso incomodou um pouco a leitura pois não consegui separar o autor do obra.

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3) Temporada de furacões de Fernanda Melchor

Temporada de Furacões é um livro da mexicana Fernanda Melchor, lançado em 2017 no México e aqui no Brasil em 2021. Ele ganhou prêmios no México e foi finalista do International Booker Prize 2020. Imagina uma escrita tipo Virginia Woolf com uma ambientação bem Gabriel García Márquez. Eu já escrevi uma resenha completa dele aqui.

O livro começa quando um corpo é encontrado, esse corpo é de uma personagem denominada A Bruxa, uma curandeira da região, e ao longo dos capítulos descobrimos mais sobre essa mulher. Todos os capítulos são em terceira pessoa, mas cada um foca em um personagem com um fluxo de consciência sufocante.

Os personagens vivem em uma cidade extremamente pobre chamada La Matosa e chega em um ponto que os capítulos se tornam confessionais como se ele estivessem sob testemunho. Muitos assuntos delicados são tratados aqui, então temos que ler com cuidado.

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4) Com armas sonolentas de Carola Saavedra

Carola Saavedra é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. Seu último livro de ficção foi ComaArmas sonolentas que destrincha a vida de quatro mulheres que se sentem não pertencentes aonde vivem.

O primeiro capitulo é focado em Anna, uma mulher que foi para a Alemanha com seu namorado alemão, e ficou sozinha no exílio. A segunda personagem é sua mãe, que foi tirada de sua terra para trabalhar na casa de uma família rica, essa mãe recebe visitas espirituais da avó dela que foi uma indígena, também retirada de sua terra muitos anos anos atrás.

No último capítulo conhecemos Maike, uma menina Alemã que sente que não pertence a sua família e aos poucos descobrimos sua ligação com as outras mulheres. O livro começa na chave do real mas depois toma um rumo de realismo fantástico muito interessante.

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5) Garota, mulher, outras de Bernadine Evaristo

Esse livro é um dos queridinhos do bookstagram também, né? Me conta nos comentários se você já conhecia ele!

Garota, mulher e outras é um livro escrito pela inglesa Bernadine Evaristo, onde ela trata de temas presentes na vida das mulheres negras que vivem lá: o preconceito, a imigração, as diferenças culturais, relacionamentos e etc. Esse livro também foi um vencedor do Booker Prize em 2019.

Cada capítulo uma mulher conta sua vida em primeira pessoa, em parágrafos curtos, fazendo com que a leitura seja bem fluída. A vida dessas mulheres se cruzam ao longo da história e nós conhecemos a subjetividade e a individualidade de cada uma.

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6) Torto Arado de Itamar Vieira Júnior

Sucesso absoluto no Brasil. Torto Arado ganhou todos os prêmios importantes por aqui e em Portugal, primeiro o prêmio Leya, depois o o prêmio Oceanos e o Jabuti.

Itamar Vieira Junior conta a história de duas irmãs, filhas de um curandeiro respeitado na fazenda em que vivem na região do Jarê. Elas moram e trabalham na roça, e quando crianças uma delas decepa a própria língua.

Esse mistério permeia todo o livro que é dividido em três partes e contado em primeira pessoa por cada uma das personagens. O livro fala um pouco sobre os processos quilombolas, a reforma agrária, a luta pelos estudos e o sincretismo religioso que existe no Jarê.

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7) Lincoln no limbo de George Saunders

Outro vencedor do Man Booker Prize de 2017, nada mal essa lista né?

Lincoln no limbo é um livro do contista George Saunders. Aqui ele conta a história do filho de Abraham Lincoln que morreu em 1862. Ele ficciona essa morte trazendo Willie para um limbo onde ele conhece outros fantasmas. O livro traz diversas vozes, as dos fantasmas, em primeira pessoa que são intercaladas. Nas primeiras páginas não se entende muito bem o que acontece ali, mas aos poucos você entra na história.

Os capítulos são divididos entre as narrações dos fantasmas e recortes de jornais (alguns ficcionais) e biografias que contavam sobre o Lincoln, a morte de Willie, a guerra civil e o que estava acontecendo na casa branca, e todas as questões existentes naquela época.

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8) A morte do pai de Karl Ove Knausgård

Livro do norueguês Karl Ove Knausgård é o ínicio de uma série Autobiográfica aclamada pela crítica. Nesse livro ele conta sobre seu relacionamento com o seu pai, um homem frio e distante, até a sua morte.

É o maior livro da lista e o mais difícil de ler, pois o escritor é bem minucioso nas descrições. Ele vai e volta no tempo da narrativa e nos tempos verbais. Então, tiver que ficar muito atenta enquanto lia para entender essas nuances, porque ele vai do passado para o presente, do passado para o mais passado com muita facilidade sem se importar com em explicar.

Mas é um livro muito bonito, principalmente depois da metade onde o filho retorna a casa de seu pai depois da morte dele.

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Essas foram as resenhas dos oito livros de prosa contemporânea que lemos!

Me conta se você já leu algum deles no comentário?

Assista o vídeo no Youtube:

Resenha: Kindred – Laços de Sangue de Octávia Butler. Mulher, negra, escritora premiada.

Para quem não sabe eu escrevo, terminei um livro em 2020, que será lançado em breve, e estou preparando o próximo, que será tanto uma distopia quanto uma utopia. Por esse motivo comecei a estudar livros de ficção científica, gênero literário do qual não estou acostumada. Também fiz um curso sobre isso e a professora indicou diversos livros, incluindo Kindred da Octávia Butler.

Octávia Butler sentada em uma poltrona em frente a uma estante cheia de livros

Decidi começar por ele pois a história de vida da Butler é incrível: ela cresceu em um Estados Unidos segregado, onde a supremacia branca forçava os negros a viverem com uma má remuneração e excluídos da sociedade. Apesar disso, ela nasceu em Pasadena, na Califórnia, uma cidade mais progressista, mas não tanto, onde ela pôde estudar e se desenvolver intelectualmente. Sua mãe fazia trabalhos domésticos para famílias brancas, destino de muitas mulheres negras até os dias de hoje. Butler queria fazer diferente e ela teve a oportunidade de se dedicar a escrita desde muito jovem. Foi incentivada pela mãe, que comprou sua primeira máquina de escrever e a ajudou financeiramente seu trabalho.

Enfrentou um preconceito duplo por ser mulher e negra. Diziam a ela que nunca seria uma escritora. Esse lugar era permitido, apenas, para homens brancos. Isso fica evidente quando vemos muita literatura ruim mas aclamada feita por eles. Butler escreve com maestria, e mereceu, absolutamente, todos os prêmios que recebeu. É bastante conhecida no Estados Unidos, mas as edições de seus livros só chegaram recentemente ao Brasil. O racismo latente e estrutural nos mostra esse silenciamento diário que escritoras negras sofrem.

Octávia Butler escreveu praticamente a sua vida inteira e morreu jovem, aos 58 anos, ninguém sabe ao certo o que aconteceu mas provavelmente sofreu um derrame cerebral e, logo após, uma queda. Seus livros trazem personagens marginalizados que lutam pela sobrevivência em um mundo desigual. Kindred foi minha primeira experiência com sua escrita e não será a última.

Resenha de Kindred – Laços de Sangue e o racismo estrutural

Livro Kindred fotografado em cima de uma mesa de madeira

Dana é uma escritora negra que acaba de se casar com um homem branco, também escritor. Ele vende livros, ela ainda não, isso já nos mostra a diferença gritante entre os dois gêneros e as duas raças. O casal vive nos anos 70, são felizes e apaixonados, até que Dana começa a sentir enjôo, uma gravidez seria preferível, mas ela volta no tempo para salvar um menino branco, Rufus, que se afoga. Ela o salva mas os pais dele não a agradecem, ao invés disso, apontam uma amar para o seu rosto, ela volta para casa com o mesmo enjôo de antes. Kindred começa já impactante, nesse momento Dana não entende o que aconteceu, nem que essas viagens no tempo seriam constantes.

Pouco tempo depois ela voltou para salvar Rufus mais uma vez e descobre que está em Maryland, um estado do norte estadunidense vizinho a capital Washington e a Pennsylvania antiescravagista. Vejam: Octávia Butler não escolheu um estado do Sul para mostrar as monstruosidades da escravidão, ela escolheu um estado do Norte, que orgulhosamente lutou contra a escravidão na guerra de sucessão. A sutileza dessa escolha foi uma das coisas que mais me impressionou no livro. Dana também descobre que Rufus é um de seus antepassados e essa ligação entre os dois é o que mantém a história funcionando, pois por mais que ela odeie ele e suas atitudes ela não pode matá-lo e fugir para o futuro, pois ela nunca existiria. Resumindo: Dana, que no presente vive na Califórnia, retorna para início do século 19 em uma Maryland escravagista, sempre para salvar um menino, que se torna adolescente e depois homem.

Na terceira vez que isso acontece seu marido, Kevin, vai com ela. Ele se torna um “senhor” e ela uma mulher escravizada mas muito letrada. Os brancos se assustam com isso mas a respeitando porque ela tem um dono. À partir dai vemos um retrato fiel sobre o que acontecia nas fazendas da época: a diferença entre os escravizados da casa e os do campo, as injustiças que eles sofriam, a violência com que eram tratados e a destruição de famílias negras — era muito comum um escravagista vender filhos de pessoas escravizadas para punir ou lucrar. Dana presenciou tudo isso e teve que agir com cautela sobreviver, ela foi julgada por todos.

Enquanto eu lia esse livro, li também Mulher, raça e classe da Angela Davis, e acredito que as duas leituras se complementaram, pois pude ver em um panorama completo o que acontecia naquele Estados Unidos pré guerra civil. Octávia Butler escreve maestria, a narrativa te prende até o último parágrafo. Os personagens são bem construídos e às vezes sentia que lia um relato verdadeiro e não uma história de ficção. E, na minha opinião, o melhor momento da literatura é quando ela se mistura com a realidade de maneira tão cristalina que acreditamos estar estudando história. Butler deu uma verdadeira aula com esse seu livro. Não vejo a hora de ler mais.

A misoginia existe e existirá até darmos um basta – Resenha: Minha vida de rata de Joyce Carol Oates

Recebi este livro da TAG curadoria em outubro e não pretendia ler tão cedo. Primeiro porque achei um absurdo eles mandarem um livro cheio de gatilhos (já havia lido resenhas sobre ele) sem avisar, mostrando descaso com quem está lendo. Isto e outras pequenas coisas me fizeram cancelar a assinatura (vou falar sobre isto em breve). Segundo porque a Joyce Carol Oates é uma escritora estadunidense e eu não sou muito fã de escritores de lá. Só li porque estava companhia de amigas, Oli e Clarisse, e se não fosse isto não teria terminado.

Este foi meu primeiro contato com a obra da Joyce, que já foi cotada para o Nobel diversas vezes, e não gostei. Encontrei erros de construção gravíssimos e fiquei o tempo todo questionando: “Duas coisas acontecendo ao mesmo tempo?”, “Aquilo que Violet, a personagem principal, está registrando é sonho ou é real?”. Não temos como saber. Na verdade, muitas coisas que ela mostra no livro não acontecem, isto me deixou confusa, ela faz muitas insinuações que acabam não sendo verdades. Além disso a opinião da própria autora se sobrepõe na narrativa de Violet, opiniões contraditórias com a submissão da personagem. É uma leitura muito desagradável, não só pelas atrocidades que acontecem, mas também pelo modo como ela escreve.

Apesar disso, Minha vida de rata aborda assuntos importantíssimos, como a misoginia e o racismo, temas principais da obra. Violet é a filha mais nova de uma família irlandesa, o pai é um patriarca violento e abusivo, a mãe é uma mulher submissa e frustada, os filhos são cópias deles. Quando os irmãos mais velhos de Violet matam brutalmente um menino negro a família entra em crise. Ela é atacada dentro de casa e em um momento de fragilidade delata os irmãos. Assim começa sua vida de rata, é expulsa e vai morar com uma tia.

Violet é uma das muitas meninas que são desrespeitadas ao longo da vida, pelos pais, por assistentes sociais, por professores. Mostrando assim o descaso que a mulher sofre na sociedade. Foi nos imposto a submissão e o que pensamos não tem valor. Somos inferiores e isto está claro neste livro. Não somos educadas como deveríamos, como os meninos são, para serem fortes e contestadores. Por isso não nos amam como amam eles. Os meninos serão poderosos, nós não.

Violet também passa por abusos sexuais na adolescência e na vida adulta. Vive carregando o peso de ter dedurado os irmãos, quer ser perdoada e voltar para a família. Anseia pelo amor que lhe foi tirado. Passa uma vida querendo agradar, se anulando sem se impor. Vemos aqui como a socialização feminina é forte e está dentro de cada uma de nós. Corremos o risco de ser Violet, muitas de nós foram. Ao meu ver, este livro nos mostra que a socialização feminina não falha. Isto sempre será a coisa mais difícil de desconstruir. A misoginia existe e existirá até darmos um basta.

Você já pensou como a socialização feminina nos fere? Como ela nos criou para sermos bibêlozinhos que sempre dizem sim? Temos que conversar sobre isto!

Patti me enche de sentimentos bons, e inspira a poeta que existe dentro de mim – Resenha: Devoção de Patti Smith.

Patti Smith que nasceu em Chicago, cresceu em Nova Jersey e se estabeleceu em Nova Iorque no fim dos anos 60 (como vimos em Só Garotos), nos conta, em Devoção, sobre uma de suas viagens a Paris, de uma maneira delicada e sensível que só a Patti Smith sabe fazer.

Devoção é um livro sobre a necessidade de escrever, sobre processos criativos. É sobre a ansia de colocar vida no papel, é sobre referências. Dividido em três partes o pequeno livro é repleto de influências francesas, que vão desde Rimbaud até Marguerite Duras. Além disso, trechos poéticos passeiam por algumas páginas: uma surpresa agradável para aqueles de alma sonhadora.

Na primeira parte Patti nos conta sobre alguns de seus dias na França e das suas andanças por lá, esteve na rua em que Picasso pintou Guernica e no cemitério onde Paul Valéry está enterrado. Viaja, então, para a Inglaterra em busca do túmulo de Simone Weil, da qual estava lendo a biografia.

A segunda parte do livro é o conto que ela criou durante a viagem e nele estarão as referências que ela pescou durante aquele período: como a lembrança de assistir patinação no gelo com o pai pela televisão. O conto conta a história do “relacionamento” de uma adolescente apaixonada por patinação do gelo e um homem rico mais velho que ela (o que me lembrou muito o livro O Amante da China do Norte de Marguerite Duras). A menina só queria patinar e ele deu tudo que ela precisava para fazer tal coisa, mas era extremamente controlador. Ou seja, quando ela teve a oportunidade de crescer na patinação ele tirou isso dela. O conto tem uma reviravolta interessante e sombria.

Na última parte do livro Patti se questiona “o que nos impele a escrever?”. Ela volta para a França e parte para o interior a convite da filha de Camus, para conhecer o manuscrito de “Primeiro Homem”, o livro que o autor nunca acabou. Dormiu no quarto dele e participou das refeições com a família. Ali Patti volta a se questionar e a atribuir lembranças sobre a escrita, tentando achar respostas para as perguntas do início do parágrafo.

As respostas foram encontradas mas de uma maneira muito pessoal e única. Patti responde por ela, e apenas por ela, cada um deve buscar em si respostas para tais questões. Li devoção em um dia, suas 127 páginas são mágicas e não me deixaram fugir. Fiquei vidrada no modo como ela contou a sua própria história e mostrou seus pensamentos. Patti me enche de sentimentos bons, e inspira a poeta que existe dentro de mim. Eu, realmente, amei Devoção.

Conhecendo a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos – Resenha: Só Garotos, Patti Smith.

Patti Smith é de uma sensibilidade absurda, poucas pessoas tem o poder de encantar e inspirar como ela. Sua escrita é sonhadora e cheia de referências significativas. Antes de musicista Patti foi poeta, artista  e atriz. Sua vida em Nova Iorque no fim dos anos 60 foi eletrizante, esteve ao lado de ícones de uma geração como Janis Joplin, Sam Shepard e Allen Ginsberg. 

Foi para a cidade sem nenhum tostão no bolso e viveu por algumas semanas como uma sem teto, quando conheceu Robert Mapplethorpe as coisas mudaram. Eles criaram um laço que durou a vida inteira, foram amantes, amigos e companheiros inseparáveis. Passaram por altos e baixos, em um certo momento não tinham nem o que comer. Só garotos é sobre essa relação, neste livro ela mostra como duas crianças inocentes que tinham uma vocação em comum se tornaram os grandes artistas que foram (no caso da Patti: a grande artista que é). 

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

Só garotos é uma das mais belas autobiografias que já li. Patti é poética e sua escrita se cerca de uma humildade que me comove. Uma grande amante de prosa poética francesa do século dezenove trata seu poeta preferido Rimbaud como verdadeiro deus. Patti ama da maneira mais pura e sincera Robert, seus amigos, ícones e pequenos objetos que mesmo parecendo insignificantes são o mundo para ela.

Patti Smith tem o dom da palavra, ela escreve de maneira fluida e simples mas usa certos termos que deixam sua prosa poética (Mais sobre isso na resenha de Devoção). O livro está localizado bem no meio do olho do furacão do cenário artístico de Nova York dos anos 70, uma cidade suja e perigosa. Uma época e lugar que muita coisa aconteceu, muitos artistas surgiram e, também, morreram.

Fotos de Robert Mapplethorpe

Robert Mapplethorpe foi um grande fotógrafo, se descobriu homossexual quando ainda estava em um relacionamento com Patti e morreu de AIDS no fim dos anos 80. Antes de sua morte Patti prometeu escrever este livro para ele, e assim o fez, da maneira mais bonita e crua possível. Patti se tornou uma grande punk e vive até hoje inspirando gerações, inclusive a mim. Robert deixou um legado de fotos provocantes e fortes e é admirado até hoje. Foi uma delicia conhecer a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos.