50 FATOS SOBRE Simone de Beauvoir – Biografia, O Segundo Sexo, Os Mandarins, As Inseparáveis e mais!

Simone de Beauvoir foi uma pensadora muito importante para o século 20. Ela foi uma filósofa, uma escritora dedicada e uma estudiosa disciplinada. Ela questionou a sociedade em que vivia e quebrou diversos padrões de sua época, e levantou questões sobre a liberdade, o amor, o gênero e a sexualidade.

Simone de Beauvoir dando autógrafos no Brasil em 1960

Para fazer esse post eu li a Biografia dela escrita pela Kate Kirkpatrick, e ao longo dos anos eu li diversas obras da Simone de Beauvoir, como O Segundo Sexo, Os Mandarins, Mal-entendido em Moscou.

Também fiz um curso da revista Cult sobre a Simone com a Doutora em filosofia pela USP Juliana Oliva. Vocês viram que eu queria estar bem preparada pra fazer esse vídeo, né?

Dia 09 de janeiro foi o aniversário da Simone de Beauvoir que foi uma escritora e pensadora francesa.

Ela contribuiu não só para o pensamento feminista do século vinte mas também esteve na resistência francesa contra o nazismo em Paris. Foi uma intelectual extremamente culta e prolífica. Tem diversos livros, ensaios, textos jornalísticos públicados. Sua obra vai muito além de O Segundo Sexo, apesar de ser um livro importantíssimo tanto para a filosofia existêncialista, quanto para o movimento feminista que teria força mais de dez anos depois de seu lançamento.

Vi que tem muita desinformação sobre a Simone de Beauvoir na internet, então quis trazer 50 fatos sobre ela de fontes sólidas. Todas as fontes utilizadas para esse vídeo estão lá no fim do post, porque aqui a gente trabalha com fatos pesquisados e estudados.

Bora conhecer os 50 fatos sobre a Simone de Beauvoir?

  1. Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris, às 04 e meia da manhã no dia 09 de janeiro de 1908.
  2. Ela era filha de Georges Bertrand de Beauvoir um advogado que sonhava em ser ator e Françoise Brasseur, filha de um banqueiro bem sucedido, mas que nunca pagou o dote de Françoise porque perdeu tudo.
  3. Um dos antepassados aristocratas de Simone perdeu a cabeça na revolução francesa e depois disso as pretensões nobres da família perderam completamente a força.
  4. Ela e a irmã Hélène estudaram na Adéline Desir Institut, escola católica e privada exclusivamente para meninas.
  5. Desde nova ela já chamava a atenção de seus pais por seus estudos e inteligência. Ela sempre foi muito aplicada, era sempre a melhor da turma.
  6. Ela foi uma leitora precoce e devorava livro atrás de livro, e isso continuou ao longo de sua vida.
  7. Uma personagem literária que inspirou Simone na infância foi a Jo March de Little Women de Louisa May Alcott. Porque ela não queria se casar para seguir carreira literária.
  8. Teve uma infância rígida seguindo os moldes burgueses de uma mãe extremamente católica e um pai egoísta, preguiçoso e machista.
  9. Aos 9 anos Simone conhece a Zaza, Élisabeth Lacoin, que foi sua amiga mais próxima até a morte precoce de Zaza em 29. “As inseparáveis” livro recém lançado pela Record fala sobre essa amizade.
  10. Em 1925 ela foi aprovada no exame de acesso as universidades, de Matemática e Literatura, e licenciou-se nas duas matérias.
  11. Nesse período ela fez duas tentativas de escrita de um primeiro romance, mas nenhuma delas foi para frente. Seu sonho era ser escritora e colocar todas as suas perguntas filosóficas dentro da ficção.
  12. Ela também começou a trabalhar educando proletários do norte da França e depois no instituto em que estudou.
  13. Em 1927 ela obteve seu certificado em História, Filosofia, Filosofia geral e Grego na Sorbonne, ao lado de muitos outros pensadores que se tornariam famosos. Lembrando que as mulheres naquela época não tinham esse tipo de educação, elas nem podiam votar ou ter uma conta bancária.
  14. Foi nessa época que ela chegou a conclusão de que o casamento é “fundamentalmente imoral” já que ele é definido como algo eterno e as vontades podem mudar.
  15. O ano de 1929 foi de grande importância na vida da Simone. Ela se tornou a primeira mulher a dar aulas em um Liceu masculino,
  16. Conheceu Jean Paul Sartre em um grupo de estudos para se preparar para um exame importante. Ele se tornaria seu parceiro e amigo pelo resto da vida;
  17. Ela perdeu a amiga Zaza que morreu apaixonada por outro amigo e colega de Simone, Maurice Merleau-Ponty;
  18. Ao lado de Sartre Simone passou em um exame nacional chamado agregátion para se tornar professora vitalícia do sistema público francês, altamente prestigioso e competitivo.
  19. Aos 21 anos, ela foi a pessoa mais jovem de todos os tempos a passar nesse exame;
  20. Foi também nesse ano que ela e Sartre fizeram um pacto poliamoroso, ela tinha 21 anos e ele 24. Nesse pacto eles deveriam ser cem por cento honestos sobre suas conquistas e leais um com o outro.
  21. Segundo os diários de Simone, nessa época ela não estava apaixonada apenas por Sartre mas também por outros dois homens, René Maheu, amigo de ambos, e seu primo Jacques.
  22. O pacto deles provocou muita curiosidade dos moralistas e é motivo de especulação até os dias de hoje. Muito elogiado e também muito criticado.
  23. Uma curiosidade é que houve um ano em que Simone publicou em nome de Sartre e ninguém notou. A verdade é que essa relação ofuscou Simone, enquanto Sartre era ovacionado, e isso acontece até os dias de hoje.
  24. Entre 1931 e 1935 Simone viveu a vida de uma professora provinciana e morou em Marselha e Rouen para dar aulas.
  25. Voltou para Paris em 36 como professora no Liceu Molière.
  26. Nessa época Simone tinha 27 anos e teve casos famosos com três alunas, Olga que tinha 19 anos, Bianca que tinha 17 anos e Nathalie Sorokine que tinha 20. Olga nunca ficou com Sartre, mas Bianca sim. Elas continuaram amigas para o resto da vida.
  27. Simone também se apaixonou por Bost, ele por sua vez tinha um caso com Olga, e acabou se casando com ela, ele era aluno de Sartre. Uma bagunça né?
  28. Em 39 a Segunda Guerra Mundial começou. Sartre e Bost são convocados. Sartre foi trabalhar no corpo meteorológico e Bost seria soldado. Simone teve seu primeiro “colapso nervoso”, e isso foi se repetindo durante toda a guerra.
  29. Simone começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance A Convidada, que seria lançado em 43, inspirada em sua relação com Olga, Bost e Sartre. A filosofia desse livro pode ser comparada com O Ser e o Nada de Sartre que foi escrito depois.
  30. Em 40 Paris foi invadida pelos alemães, Simone fugiu para o interior com a família de Bianca, mas logo voltou a Paris. Bost foi baleado e evacuado do Front, mas sobreviveu. Sartre foi preso.
  31. Quando Sartre voltou a Paris em 41 eles se uniram com outros intelectuais na resistência francesa contra a ocupação nazista.
  32. Em 43 Simone perdeu seu cargo no sistema de ensino francês depois de uma acusação formal da mãe de uma de suas amantes: Nathalie Sorokine, mas ela negou as acusações contra Simone no tribunal dizendo que as relações entre elas eram consensuais e ela já era maior de idade, então, Simone não foi condenada. Mas ela perdeu o emprego porque suas relações com mulheres e seu relacionamento aberto com Sartre não combinavam com os ideias do governo alemão.
  33. Simone conseguiu um emprego na Rádio Vichy. Na época haviam duas rádios nacionais, a Rádio Paris, que era difundida pelos naziastas, e a Rádio Vichy, onde era possível trabalhar sem ser visto como um colaborador dependendo do que se fazia. Simone falava sobre música na Idade Média.
  34. Em 45 a Guerra acabou e Simone estava produzindo como nunca. Escreveu diversos artigos filosóficos e ensaísticos, fundou uma revista com Sartre e Ponty: Les Temps modernes, Tempos Modernos em português, escreveu uma peça, e dois romances que ficariam muito conhecidos: O sangue dos outros e Todos os homens são mortais. Ela também começou a pensar no livro O Segundo Sexo.
  35. Desde muito nova ela questionava com profundidade o que significava ser mulher para ela e para sociedade. E esse pensamento, junto com suas criticas sobre o que era liberdade dentro do existencialismo, foram a base para a criação de O Segundo Sexo.
  36. Publicado em 49, esse livro foi duramente criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda. Inclusive por seus colegas intelectuais como Camus.
  37. Ele não nasceu para ser um livro feminista. Ela o escreveu como um processo investigativo com dados concretos sobre a vida da mulher em sociedade, e também porque estava irritada com abre aspas “os volumes de idiotices” que eram lançados sobre as mulheres. (Tem resenha completa de O Segundo Sexo aqui)
  38. Simone era muito fã de Virginia Woolf e além de ter lido todos os seus livros ela também a considerava uma grande influência intelectual.
  39. Os Mandarins veio em 54, e esse livro foi muito elogiado pela crítica, ganhou até o prêmio Goncourt. Ele conta a história de um grupo de pessoas que tentavam retomar a vida depois da Segunda Guerra Mundial. Aqui ela mostra personagens fictícios que fazem parte da resistência, além de seus questionamentos em relação a união soviética. Inclusive crítica o governo russo, e propõe uma nova política de esquerda. (Também tem uma resenha completa dele aqui. EU AMEI ESSE LIVRO)
  40. Simone era uma viajante, conheceu o mundo inteiro, foi para Ásia, para a Africa, rodou a Europa inteira, foi para as Américas e desembarcou no Brasil em 1960.
  41. Ela e Sartre permaneceram dois meses aqui e conheceram o Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Fortaleza e Manaus. Essa visita foi organizada por ninguém menos que Jorge Amado e Zélia Gattai. Ela até conheceu o Juscelino Kubitschek.
  42. Em 60 Simone conhece Sylvie Le Bon, mulher que se tornaria sua amiga mais próxima até o fim de sua vida.
  43. Desde que Simone começou a trabalhar ela mandava dinheiro tanto para a irmã Helénè, quanto para mãe Françoise. Ela era a grande provedora da família
  44. E de alguns amigos, muitas vezes passou fome para poder ajudar todas as pessoas que estavam ao seu redor, inclusive suas amantes e as amantes de Sartre.
  45. Nesse período ela tinha 50 anos e lançou suas três biografias mais famosas: Memórias de uma moça bem comportada, em 58, na qual ela relembra sua juventude puritana; A força da idade, onde ela relembra uma Paris ocupada e dedica a sua relação com Sartre, Bost e Olga; e A força das coisas, em 63, onde ela comenta a vida que leva no pós guerra e suas publicações.
  46. Em 65 ela lança o livro Mal Entendido em Moscou, onde ela fala sobre as ambiguidades existentes na união soviética;
  47. Em 67 ela lança A mulher desiludida e logo depois, em 70, A velhice, com pensamentos que passavam por ela a décadas sobre o envelhecimento e a morte.
  48. Em 80 ela perde Jean Paul Sartre, e se vê sozinha, então ela adota Sylvie Le Bon, após passar um período no hospital e não ter ninguém que pudesse lhe acompanhar, já que a irmã estava em Portugal.
  49. Em 81 ela lança sua última biografia, A cerimônia do adeus, onde ela narra os últimos anos de Sartre e a sua vida na velhice.
  50. Simone de Beauvoir morreu em 86 de complicações de uma pneumonia, e seria lembrada por muitas décadas após sua morte. Os recém lançamentos de cartas e livros nunca publicados vieram do acervo de Sylvie Le Bon-de Beauvoir, que herdou tudo de Simone.

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Bom, esse foi o compilado de informações sobre essa autora tão famosa e importante! Os próximos serão sobre a Virginia Woolf e a Angela Davis. Me conta o que achou nos comentário!

Fontes:

CANDIANI, Heci Regina. Simone de Beauvoir. InBlogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia. [S. l.], 22 abr. 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/simone-de-beauvoir-2/. Acesso em: 4 jan. 2022.

KIRK PATRICK, Kate. Simone de Beauvoir: Uma vida. 1. ed. Brasil: Crítica, 2020. 553 p. v. 1.

JEAN Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: ISHAD, Vivien. Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/copy_of_noticias/jean-paul-sartre-e-simone-de-beauvoir-no-brasil-em-1960. Acesso em: 4 jan. 2022.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Brasil: Nova Fronteira, 2018. 936 p.

BEAUVOIR, Simone de. Os mandarins. ed. atual. Brasil: Nova Fronteira, 2017. 736 p.

BEAUVOIR, Simone de. Mal entendido em Moscou. Brasil: Nova Fronteira, 2015. 89 p.

A misoginia existe e existirá até darmos um basta – Resenha: Minha vida de rata de Joyce Carol Oates

Recebi este livro da TAG curadoria em outubro e não pretendia ler tão cedo. Primeiro porque achei um absurdo eles mandarem um livro cheio de gatilhos (já havia lido resenhas sobre ele) sem avisar, mostrando descaso com quem está lendo. Isto e outras pequenas coisas me fizeram cancelar a assinatura (vou falar sobre isto em breve). Segundo porque a Joyce Carol Oates é uma escritora estadunidense e eu não sou muito fã de escritores de lá. Só li porque estava companhia de amigas, Oli e Clarisse, e se não fosse isto não teria terminado.

Este foi meu primeiro contato com a obra da Joyce, que já foi cotada para o Nobel diversas vezes, e não gostei. Encontrei erros de construção gravíssimos e fiquei o tempo todo questionando: “Duas coisas acontecendo ao mesmo tempo?”, “Aquilo que Violet, a personagem principal, está registrando é sonho ou é real?”. Não temos como saber. Na verdade, muitas coisas que ela mostra no livro não acontecem, isto me deixou confusa, ela faz muitas insinuações que acabam não sendo verdades. Além disso a opinião da própria autora se sobrepõe na narrativa de Violet, opiniões contraditórias com a submissão da personagem. É uma leitura muito desagradável, não só pelas atrocidades que acontecem, mas também pelo modo como ela escreve.

Apesar disso, Minha vida de rata aborda assuntos importantíssimos, como a misoginia e o racismo, temas principais da obra. Violet é a filha mais nova de uma família irlandesa, o pai é um patriarca violento e abusivo, a mãe é uma mulher submissa e frustada, os filhos são cópias deles. Quando os irmãos mais velhos de Violet matam brutalmente um menino negro a família entra em crise. Ela é atacada dentro de casa e em um momento de fragilidade delata os irmãos. Assim começa sua vida de rata, é expulsa e vai morar com uma tia.

Violet é uma das muitas meninas que são desrespeitadas ao longo da vida, pelos pais, por assistentes sociais, por professores. Mostrando assim o descaso que a mulher sofre na sociedade. Foi nos imposto a submissão e o que pensamos não tem valor. Somos inferiores e isto está claro neste livro. Não somos educadas como deveríamos, como os meninos são, para serem fortes e contestadores. Por isso não nos amam como amam eles. Os meninos serão poderosos, nós não.

Violet também passa por abusos sexuais na adolescência e na vida adulta. Vive carregando o peso de ter dedurado os irmãos, quer ser perdoada e voltar para a família. Anseia pelo amor que lhe foi tirado. Passa uma vida querendo agradar, se anulando sem se impor. Vemos aqui como a socialização feminina é forte e está dentro de cada uma de nós. Corremos o risco de ser Violet, muitas de nós foram. Ao meu ver, este livro nos mostra que a socialização feminina não falha. Isto sempre será a coisa mais difícil de desconstruir. A misoginia existe e existirá até darmos um basta.

Você já pensou como a socialização feminina nos fere? Como ela nos criou para sermos bibêlozinhos que sempre dizem sim? Temos que conversar sobre isto!

O livro das coisas não ditas – Resenha: Todos os nossos ontens de Natalia Ginzburg

Natalia Ginzburg cresceu com um espírito insubordinado que herdou de seu pai, professor universitário, um judeu abertamente de esquerda, e que compartilhava com seus irmãos, que foram presos pelo regime facista de Mussolini, durante a perseguição dos nazistas aos judeus. Uma das maiores vozes da literatura italiana do século XX, Natalia nasceu em Palermo e viveu uma vida dedicada ao antifascismo. Perdeu o primeiro marido, torturado e morto pelo regime, e viveu os anos da segunda guerra mundial exilada, dentro do próprio pais, por ser judia.

Escreveu diversos romances, artigos jornalísticos, crônicas e ensaios. As reedições de suas obras no Brasil se deu pelo fenômeno Ferrante. Veio em um momento oportuno pois temos que retomar as lutas antifascistas e discutir sobre qual o mundo que queremos viver e como podemos recriá-lo da maneira mais justa possível. Ginzburg lutou ativamente no movimento antifascista e foi figura fundamental da resistência italiana.

“Emanuele voltava para sua casa e explicava a mamãe que a questão da Itália não era tão importante, porque na Polônia caíam bombas enquanto ela estava sentada tomando chá, na Polônia as casas desabavam e quando há casas que desabam não era importante saber se desabavam em um ponto ou outro do mundo.”

Todos os nossos ontens – Página 76

A obra de Natalia Ginzburg é permeada de um realismo que nos lembra os horrores da guerra pelos olhares inocentes de seus personagens. Logo no início conhecemos uma família de classe média italiana, composta pelo pai, que não sabemos o nome; os filhos: Concettina, Ipollito, Giustino e Anna; e a senhora Maria, que foi dama de companhia da avó, e depois da morte desta passou a cuidar dos afazeres domésticos. Cada personagem tem uma característica própria, o que nos faz ver o conturbado fim dos anos 30, durante o pré guerra, e o período da segunda guerra mundial, por diferentes olhares do mesmo provincianismo.

O pai é um comunista viúvo que passa seus últimos anos de vida escrevendo um livro de memórias que não mostra para ninguém. Concenttina é uma moça “namoradeira” que está sempre preocupada com a aparência, e ás vezes com a escola. Ippolito é o filho mais velho no qual o pai joga toda a responsabilidade e também a raiva que sente do mundo, diversas vezes vemos ele humilhando o menino sem motivo aparente. Anna é uma garota ingênua, que vive romantizando a revolução. Giustino é o irmão mais quieto mas o único que luta ativamente como partigiani. Por fim, a senhora Maria, que é uma velhinha teimosa e superficial que vive a recordar as grandes viagens que fizera com a avó.

“Não acreditava que a vitória já fosse dos alemães, essa era uma guerra na qual ninguém teria ganhado ou perdido, no final se veria que todo mundo teria perdido alguma coisa” 

Todos os nossos ontens – Página 160

Outros personagens também são apresentados como Cenzo Rena, um grande amigo do pai de Anna. Danilo, um dos namorados de Concettina, o único ali da classe trabalhadora, que se torna amigo de Ipollito e Emanuele, que juntos buscam formas de acabar com o fascismo. Os vizinhos da casa ao lado: os irmãos Emanuele, Giuma e Amalia, Franz, um alemão judeu que vivia com eles, e o pai e mãe, donos de uma fabrica de sabão. A vida de todos se entrelaçam e assim criam amizades, relacionamentos, discussões e ajuda mútua no período da guerra.

Todos os nossos ontens é narrado em terceira pessoa, mas não por um narrador onipresente, o filtro são os olhos de Anna, o único personagem que vemos os sentimentos mais profundos. Digo que este livro é o livro das coisas não ditas porque ao longo dele vemos os prenúncios de coisas que estão por acontecer, mas só temos certeza quando elas acontecem.

“Mas fazer a revolução para Cenzo Rena queria dizer ir até a prefeitura e retirar todos os velhos processos que apodreciam nas gavetas, e fazer com que a marquesa soltasse o dinheiro para arrumar o esgoto, e para montar um ambulatório, com um médico bom que não se deixasse apodrecer. “

Todos os nossos ontens – Página 179

Natalia Ginzburg escreveu um livro sobre a guerra pelos olhos do italiano médio, que ficava em casa esperando notícias, comida e retornos. Foi dividido em duas partes, o antes e o durante a guerra e assim conhecemos um pouco sobre as pessoas que viviam no interior da Itália, primeiro no norte, depois no sul. Ali os fascistas nem eram tão fascistas assim, como o sogro de Concettina. A revolução não era tão revolucionária assim, pois a luta antifascista se faz com ação e não com sonhos. Vemos, também, a perseguição aos judeus na Itália. Ginzburg escreveu este livro de uma forma muito sutil e repetitiva que às vezes chega a ser monótono mas não podemos esquecer que este é um livro permeado de medo, esperança, perdas, tristeza e luta, os personagens são como nós, pessoas comuns tentando sobreviver.

5 Livros importantes para você que quer estudar sobre feminismo!

Sinto que sou feminista desde que era novinha, porque não entendia porque existiam coisas de menino e coisas de menino. Achava a vida dos meninos tão mais legal, os jogos emocionantes, as brincadeiras ao ar livre, os esportes de risco, as grandes estrelas do rock que eram sempre homens. Olhava para os lados procurando personalidades para me identificar e não encontrava, até porque, sempre me entendi como mulher, mas a representação do feminino me incomodava. Via a maquiagem como uma máscara e os apetrechos sufocantes. Isso que eu nem tinha 12 anos. Mas desde sempre busquei minha própria voz, gostava de imaginar que eu era uma estrela do rock, mesmo sabendo que mulheres, neste meio, eram sempre as tietes, ou modelos, que corriam atrás das estrelas, e eu não suportava ser isso. Queria ser uma mulher importante e não um bibelô.

Porém, todas essas ideias que eu considerava feministas estavam só na minha cabeça, não tive contato com nenhuma teoria até meus 21, 22 anos, e quando o fiz senti que minha cabeça explodiria. Li O Segundo Sexo, O Mito da Beleza, Woman Hating, ensaios da Emma Goldman, discursos da Angela Davis, tudo em pdfs que ia achando em grupos feministas. Aos poucos compreendi a complexidade do que é ser mulher e ser socializada como mulher.

Bom, estou dizendo tudo isso para trazer para vocês os livros feministas que estou relendo/lendo neste momento. Alguns eu li há muitos anos e guardo na memória com carinho como Um Teto Todo Seu. Outros que li e não coloquei na lista, pois faz tanto tempo que preciso revisitar como Mulheres, Cultura e Politíca da Angela Davis e Os Homens Explicam Tudo Para Mim da Rebecca Solnit.

Os cinco que trouxe hoje são os que eu considero mais importante agora, e espero que possamos trocar ideias sobre eles e estudarmos juntas esses assuntos. Até porque, minha vida literária é baseada em ler o máximo de mulheres possível e disseminar a palavras delas pelo mundo! 💕

Um teto todo seu – Virginia Woolf

Um grande ensaio de Virginia Woolf que com uma perspicácia incrível nos mostra como as portas do conhecimento foram fechadas para as mulheres que não podiam entrar nas Universidades, nem nas bibliotecas, éramos ensinadas a cuidar da casa e dos filhos e só. Não tínhamos um espaço nosso para nos dedicarmos a escrita, por isso muitas não o fizeram. Virginia tem uma sacada interessante: Se Shakespeare tivesse uma irmã tão talentosa quanto ele, como seria o futuro dela?

Quem tem medo do feminismo negro? Djamila Ribeiro

Quem tem medo do feminismo negro de Djamila Ribeiro: este livro eu ganhei de uma grande amiga que respeito muito, eu, como branca, sempre me identifiquei com feministas brancas, primeiro porque este conteúdo é mais disseminado e segundo porque para mim a luta era mesma, uma menina bobinha. O primeiro contato que tive com questões de raça foi com Angela Davis em seus artigos e discursos, mas sentia que eram muito distante de mim por estarem relacionados com a cultura americana. Depois a Djamila apareceu mostrando com eficácia como o racismo é estrutural e debilitante. Este é um livro com vários artigos compilados e essencial para a luta feminista como um todo.

Calibã e a bruxa – Silvia Federici

Um livro de explodir a cabeça, ele explica à fundo o que foi a caça as bruxas, qual era o contexto social, religioso e laboral que as mulheres estavam submetidas naquela época. Aborda diversos assuntos de extrema importância, tanto para luta de classe, quanto para o feminismo: a colonização, a cristianização, a acumulação de capital, a propriedade privada. É um grande livro de história, que além de falar sobre a caça as bruxas também nos mostra como foi a transição do feudalismo para o capitalismo e como isto um processo sangrento. 

O mito da beleza – Naomi Wolf

Esse foi o primeiro que me impactou forte, ele nos mostra como a cultura da beleza nos oprimem tanto no trabalho, quanto na vida pessoal, fazendo com que tenhamos que estar sempre belas, arrumadas, gastando rios de dinheiro para subir na carreira, e na vida. Faz refletir sobre várias inseguranças que temos em relação ao nosso corpo e nos faz entender o porque gastamos mais do que devíamos com cosméticos e intervenções estéticas. Aprendemos como esses padrões são destrutivos e cansativos.

O segundo sexo, volume 1 – Simone de Beauvoir

Já fiz uma resenha dele (que você encontra no post abaixo), mas quis trazer ele aqui de novo. Ele é um grande resumo de todas as pautas feministas que estão nos livros anteriores. Fala da mulher como propriedade privada, nos dá um panorama histórico da condição feminina desde os primórdios até os dias atuais, nos mostrada dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras, investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas.