O não romance surrealista mais importante da America Latina – Resenha de: O jogo da amarelinha de Julio Cortázar

“De que serve um escritor se não for para destruir a literatura?”

O jogo da Amarelinha – Página 417

Julio Cortázar é um dos grandes nomes da literatura latino americana, escreveu diversos contos e romances que foram traduzidos no mundo inteiro. Ele foi um argentino que nasceu em Bruxelas, onde os pais trabalhavam, em 1914, mas viveu, praticamente, toda sua juventude na Argentina. Lá foi criado por três mulheres, sua mãe, sua tia e sua avó, estudou letras e foi professor de literatura por anos até se opor ao regime de Perón. Ficou mais alguns anos na Argentina até ir para Paris, onde ganhou uma bolsa de estudos. Por lá ficou e trabalhou muitos anos como tradutor na UNESCO.

Engajado politicamente, foi considerado um subversivo perigoso pela CIA, e também, um notório a gente do imperialismo pela KGB. Julio apoiou a revolução cubana, mas também a criticou quando colegas poetas foram presos pelo regime. Foi um ativista de esquerda que deu seu total apoio a luta pelos direitos humanos, participando de comissões e congressos em apoio às vitimas das ditaduras latino americanas. Apresentou suas obras, tanto nos Estados Unidos, quanto em Cuba.

“Quero escrever outro (romance), mais ambicioso, que será, temo eu, bastante ilegível; quero dizer que não será o que em geral se entende por romance, e sim, uma espécie de resumo de muitos desejos, muitas ideias, muitas esperanças e também, porque não, de muitos fracassos.”

Julio Cortázar sobre o que seria O jogo da amarelinha em uma carta a Jean Barnabé, 17 de dezembro de 1958.

O Jogo da amarelinha, sua obra prima, foi lançada em 63, e é considerado o primeiro livro surrealista da literatura argentina. Criado para ser um não romance, com personagens irritantes que usam palavras bonitas, este é um livro é complexo e difícil, que às vezes parece ser apenas uma casca do que poderia ser. Entre passagens geniais, e outras nem tanto, vemos um argentino, Horácio Oliveira, flanando pelas ruas de Paris à procura de Maga, sua namorada e contraponto.

O livro é dividido em três partes: do lado de lá, do lado de cá e capítulos prescindíveis. A primeira parte conta a história de Horácio em Paris, seu relacionamento com Maga e sua amizade com um grupo que se auto intitula: o grupo da serpente. Oliveira e seus amigos, todos artistas e, a maioria, imigrantes (do leste europeu, da China, dos Estados Unidos, do Uruguai, etc) se reúnem para escutar jazz e entrar em discussões metafísicas que não os levarão a lugar nenhum.

“Os surrealistas acreditavam que a verdadeira linguagem e a verdadeira realidade estavam censuradas e relegadas pela estrutura racionalista e burguesa do Ocidente.”

O jogo da Amarelinha – Página 416

Já na segunda parte, do lado de cá, Horácio volta para a Argentina e reencontra um antigo amigo, Traveler, que é casado com Talita. De volta para sua terra natal, Horácio, que além de ver Maga em outras mulheres, passa por situações inusitadas, como trabalhar em um circo e depois em um hospício. Nesta parte lemos a passagem mais famosa do livro: uma cena onde Talita fica suspensa por duas tábuas de madeira entre seu apartamento e o de Horácio, que são em blocos diferentes. Cortázar diz que se inspirou em um acontecimento real e escreveu todo livro à partir disto.

Os capítulos prescindíveis, são, como o nome já diz: prescindíveis. Eles não alteram a história e a maioria é desnecessária. Mas é nesta parte que se encontra passagens incríveis com reflexões pertinentes. Dizem que O jogo da amarelinha é um livro que se pode ler de diversas maneiras, mas isto não é verdade. Cortázar nos deu duas opções para descobrir o mesmo livro, e a única coisa que difere é que você pode escolher ler o livro com as incursões filosóficas ou não. E para isso existe um tabuleiro, que te leva de um capítulo a outro. Alguns desses capítulos enriquece a história, como os de Morelli, personagem criado para representar a crítica sobre a literatura, e outros não.

A leitura foi cansativa e demorada. O personagem principal é uma pessoa desagradável e egocêntrica que parece estar estagnada dentro de si. Cortázar escreveu diversas passagens em inglês, francês e italiano, que a editora fez questão de não traduzir, ou seja, ou ficamos sem saber o que estava sendo dito ali, ou temos que traduzir por conta própria. Quando questionado sobre isso Cortázar disse que o fez por puro pedantismo. Ao meu ver este é um livro que propõe uma construção complexa que não é entregue com maestria. Mesmo assim, eu acredito que é uma leitura importante, não só pelo contexto histórico, mas pela importante figura de Cortázar que é um latino americano, como nós, que alcançou o mundo.

Um dos mais importantes livros feministas já escritos – Resenha de: O segundo sexo de Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo não foi escrito para ser um livro feminista. Simone de Beauvoir não tinha esta pretensão, mas ele se tornou um grande símbolo da segunda onda do feminismo burguês europeu/americano. Há alguns dias escrevi uma resenha sobre Os Mandarins, livro posterior ao Segundo Sexo, grande romance de Beauvoir. Lá, também, escrevi uma pequena biografia sobre está magnífica escritora, que também foi professora, filósofa, participante da resistência francesa contra a ocupação Alemã, abertamente bissexual e extremamente politizada.

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Simone de Beauvoir por Cartier Bresson

Publicado em 49, poucos anos após a segunda guerra mundial o livro foi criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda (diferente de Os Mandarins, de 54, que seria bem aceito), mas vendeu mais de 22 mil cópias na primeira semana de seu lançamento. Simone nos diz em seu livro de memória, a Força das Coisas, que a idéia para escrever um livro sobre a condição feminina veio de uma conversa com Sartre, que a perguntou se ela já havia se questionado sobre o que é ser mulher. Simone conta, então, que isto nunca fora uma questão pois ela não sentira obstáculos por seu sexo, nem para escrever, nem para trabalhar.

O volume 1 do Segundo Sexo é dividido em três partes: Destino, História e Mitos. Cada uma serve como introdução ao pensamento de Beauvoir que virá no volume 2. A primeira parte investiga dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras. Nos mostra que nos animais não existe o feminino como nós conhecemos: a fantasia de ser mulher. Ela também investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas, e que alguns valores diferem de acordo com contexto social e econômico de cada mulher.

Esses dados biológicos são de extrema importância (…). Mas o que recusamos é a ideia de que constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definir uma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 60.

Tanta força inspira aos homens um respeito misturado de terror e que se reflete em seu culto. Nela se resume toda a Natureza estranha.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 104.

A Segunda Parte é onde Beauvoir estuda a história pregressa da mulher desde o surgimento da agricultura. Aqui ela identifica as diferenças femininas e masculinas nos primórdios, começando pelos nômades ela passa pelos gregos, romanos, beduínos, muçulmanos, Europa cristã, até o fim dos anos 40. A mulher ficou em casa pois as tarefas domésticas eram mais próximas da maternidade, ou seja, a mulher não produzia nada novo e não alimentava sua independência saindo para caçar como os homens. Apesar disso o trabalho doméstico era muito mais cansativo e trabalhoso. Simone analisa o Mito Feminino da deusa e mostra como os homens tinham medo da maternidade e como endeusavam mulheres pois viam misticidade no parto. Mesmo deusa quem comandava e liderava eram homens.

A terceira e última parte é dedicada aos mitos criados sobre a mulher: a virgem, a mãe, a boa esposa. Cada sociedade tem o seu tipo de mulher ideal, e todos eles impõem algo a mulher que a impede de transcender a espécie. Sempre propriedade, anexada ao homem ela o reflete perante a sociedade. Simone analisa profundamente a obra de cinco escritores: Motherlant, D.H. Lawrence, Claudel, Breton e Stendhal. Cada um com sua própria convicção e olhar sob a feminilidade e o papel da mulher no mundo, o que pode ser maçante para quem não conhece esses escritores, meu caso. Ela nos dá panorama interessante sobre o que estava sendo produzido na França e como algumas obras influenciaram o modo como as mulheres, e a feminilidade, eram vistas em um contexto coletivo.

Resenhar o Segundo Sexo, assim como lê-lo, não foi uma tarefa fácil, o livro é cheio de referências históricas e culturais, toda página tem algum grifo interessante ou um dado importante. Por ser um grande artigo de investigação tentei resumir o que estava escrito para mostra a idéia geral do contexto no qual este livro foi escrito. Este não é um livro com viés politico, nem datado. Simone é imparcial e escreveu uma obra prima que analisa a condição feminina de diversas classes sociais. Para mim, este é um dos maiores livros que o academicismo francês nos deu.

Uma mistura do feminino e do masculino transforma este livro em uma obra prima do pós guerra – Resenha: Os Mandarins de Simone de Beauvoir

“As paredes giravam, mas eu me sentia muito lúcida, muito mais lúcida do quando sóbria. Quando sóbria, a gente tem muitas defesas, dá um jeito de não saber o que sabe.”

Os Mandarins – Página: 49

Simone de Beauvoir nasceu na primeira década do século vinte e dedicou sua vida a projetos filosóficos e literários. Filha da alta burguesia, como a maioria dos intelectuais da época, estudou em um colégio católico até seus dezessete anos, depois estudou matemática, línguas e, por fim, filosofia, na Sorbonne, matéria que lhe deu destaque, onde conheceu muitos de seus companheiros intelectuais.

É, realmente, difícil para mim, uma mera mortal, falar dessa grande mulher e de sua filosofia, mas tentarei resumir um pouco do que sua obra representa, não só para nós mulheres, mas para todo o pensamento ocidental. Para isso, me inscrevi em um curso da Revista Cult, ministrado por Juliana Oliva, estudiosa da obra de Beauvoir. Simone foi um expoente importante da corrente filosófica existencialista. Filosofia que acredita que as escolhas próprias definem a vida de um ser, o ser humano é o que ele faz e é livre para escolher.

A obra de Simone é permeada por investigações do ser a partir da existência, e ela passa sua vida escrevendo ensaios, livros e autobiografias em busca da sua transcendência: fazer algo além da espécie. Sua obra é extensa, e o seu livro mais conhecido é o Segundo Sexo, um grande ensaio sobre a condição da mulher na sociedade ocidental. Aos poucos ela encontra barreiras, como a segunda guerra mundial, época em que Paris fora ocupada pelos alemães. Nesta época Simone faz parte da resistência francesa e escreveu seu livro Os Mandarins com base no período final da guerra.

Simone de Beauvoir por Cartier-Bresson

“É preciso muita confiança no futuro para crer que a vida toda possa ter sentido.” 

Os Mandarins – Página: 241

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Os Mandarins não é um livro fácil, suas 732 páginas estão inundadas de uma politica, já obsoleta, do pós segunda guerra mundial em uma Paris falida. As discussões mais importantes que permeiam o livro são a nova política da esquerda, que não chega a ser um comunismo mas também é, totalmente, contra ao capitalismo americano. Confesso que achei essas discussões maçantes e muito masculinas, esperava que o livro tratasse mais da condição feminina, o que faz, é certo. Porém esses questionamentos políticos, que os intelectuais burgueses fizeram no meio do século, são centrais neste romance. Algumas questões que discutem são ínfimas perto das injustiças que ocorrem no mundo, isto me enfastiou e fez com que eu demorasse muito para ler o livro inteiro.

O personagem protagonista destas discussões é Henri, um escritor e jornalista, diretor de um jornal que fora importante para a resistência francesa. Seguimos lendo sobre sua vida que envolve: lutas diárias para manter o jornal em pé, romances com diversas mulheres, como Paule e Nadine, e suas amizades, principalmente com o casal Dubreuilh, Anne e Robert, que são, também, pais de Nadine. A história de Henri nos é entregue por um narrador em terceira pessoa onisciente, ou seja, vemos o que acontece com ele sem muito sentimentalismo. Apesar disso ele é um personagem cheio de questões existências profundas, dúvidas e esperanças.

A intriga central do romance é o rompimento e a reconciliação entre Henri e Robert, mas em paralelo a isto vemos a história de Anne ser contada em primeira pessoa. Simone dedica, um capítulo a Henri e depois um a Anne, e segue este formato até o fim. Anne é, também, protagonista neste livro, e na minha opinião suas questões são muito mais interessantes que as de Henri. Pois ela se questiona em um nível pessoal, enquanto Henri se questiona em um nível político, ou moral.

“Que significa o fato de que o homem não para de falar de si? E por que certos homens resolvem falar em nome de outros?”

Os Mandarins – Página: 282

Anne é mulher, casada, mãe e psiquiatra, ela cresceu em uma família católica, como Simone, e se casou com Robert, vinte anos mais velho. Tiveram uma filha, Nadine, que também tem seus momentos fortes no romance, a construção desta personagem, e de todos os outros, tem uma profundeza assustadora pois as emoções que Simone descreve vão desde a alegria do fim da guerra, até o luto por aqueles que morreram. Ela cria mulheres profundas, que não são heroínas feministas pelas quais poderíamos esperar depois de ler o Segundo Sexo. Simone diz que escreve o que vê e nunca viu uma mulher liberta de todas as imposições do gênero feminino.

Neste livro vemos três mulheres importantes: Anne, que seria a mais liberta, mas passiva, vive um relacionamento aberto com Robert e se apaixona por um escritor americano, Lewis, com o qual vive uma história de amor intensa. Esta parte do livro é muito bonita mas também sufocante, pois este amor não é um amor seguro e saudável. Nadine é uma mulher que se masculinizou e se sexualizou para poder ser aceita no grupo de amigos, homens, que está envolvida, ela foge das feminilidades e sentimentalismos, é agressiva, mas no fundo vemos que é apenas uma menina imatura que não sabe ao certo como se impor, ou, nas palavras de Simone: transcender. Por fim, Paule, a mulher apaixonada que deu tudo de si para seu amor, Henri, e vive apenas por ele sem perceber que este relacionamento chegou ao fim, ela é insistente e vive completamente fora da realidade.

Bom, como disse no início, este não é um livro simples, nem de ler, nem de resenhar. É um livro forte, cheio de nuances, e complexidades, por isso recomendo uma leitura consistente e devagar. Ganhou o prêmio Goncourt, um dos maiores prêmios literários da França e foi bem aceito tanto pela direita, quanto pela esquerda. A grande mistura de personagens tanto feminino quanto masculino mostram a grande diversidade de olhares e a beleza do existencialismo em forma de literatura. Os Mandarins é uma obra prima escrito por uma mulher genial.