Patti me enche de sentimentos bons, e inspira a poeta que existe dentro de mim – Resenha: Devoção de Patti Smith.

Patti Smith que nasceu em Chicago, cresceu em Nova Jersey e se estabeleceu em Nova Iorque no fim dos anos 60 (como vimos em Só Garotos), nos conta, em Devoção, sobre uma de suas viagens a Paris, de uma maneira delicada e sensível que só a Patti Smith sabe fazer.

Devoção é um livro sobre a necessidade de escrever, sobre processos criativos. É sobre a ansia de colocar vida no papel, é sobre referências. Dividido em três partes o pequeno livro é repleto de influências francesas, que vão desde Rimbaud até Marguerite Duras. Além disso, trechos poéticos passeiam por algumas páginas: uma surpresa agradável para aqueles de alma sonhadora.

Na primeira parte Patti nos conta sobre alguns de seus dias na França e das suas andanças por lá, esteve na rua em que Picasso pintou Guernica e no cemitério onde Paul Valéry está enterrado. Viaja, então, para a Inglaterra em busca do túmulo de Simone Weil, da qual estava lendo a biografia.

A segunda parte do livro é o conto que ela criou durante a viagem e nele estarão as referências que ela pescou durante aquele período: como a lembrança de assistir patinação no gelo com o pai pela televisão. O conto conta a história do “relacionamento” de uma adolescente apaixonada por patinação do gelo e um homem rico mais velho que ela (o que me lembrou muito o livro O Amante da China do Norte de Marguerite Duras). A menina só queria patinar e ele deu tudo que ela precisava para fazer tal coisa, mas era extremamente controlador. Ou seja, quando ela teve a oportunidade de crescer na patinação ele tirou isso dela. O conto tem uma reviravolta interessante e sombria.

Na última parte do livro Patti se questiona “o que nos impele a escrever?”. Ela volta para a França e parte para o interior a convite da filha de Camus, para conhecer o manuscrito de “Primeiro Homem”, o livro que o autor nunca acabou. Dormiu no quarto dele e participou das refeições com a família. Ali Patti volta a se questionar e a atribuir lembranças sobre a escrita, tentando achar respostas para as perguntas do início do parágrafo.

As respostas foram encontradas mas de uma maneira muito pessoal e única. Patti responde por ela, e apenas por ela, cada um deve buscar em si respostas para tais questões. Li devoção em um dia, suas 127 páginas são mágicas e não me deixaram fugir. Fiquei vidrada no modo como ela contou a sua própria história e mostrou seus pensamentos. Patti me enche de sentimentos bons, e inspira a poeta que existe dentro de mim. Eu, realmente, amei Devoção.

Conhecendo a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos – Resenha: Só Garotos, Patti Smith.

Patti Smith é de uma sensibilidade absurda, poucas pessoas tem o poder de encantar e inspirar como ela. Sua escrita é sonhadora e cheia de referências significativas. Antes de musicista Patti foi poeta, artista  e atriz. Sua vida em Nova Iorque no fim dos anos 60 foi eletrizante, esteve ao lado de ícones de uma geração como Janis Joplin, Sam Shepard e Allen Ginsberg. 

Foi para a cidade sem nenhum tostão no bolso e viveu por algumas semanas como uma sem teto, quando conheceu Robert Mapplethorpe as coisas mudaram. Eles criaram um laço que durou a vida inteira, foram amantes, amigos e companheiros inseparáveis. Passaram por altos e baixos, em um certo momento não tinham nem o que comer. Só garotos é sobre essa relação, neste livro ela mostra como duas crianças inocentes que tinham uma vocação em comum se tornaram os grandes artistas que foram (no caso da Patti: a grande artista que é). 

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

Só garotos é uma das mais belas autobiografias que já li. Patti é poética e sua escrita se cerca de uma humildade que me comove. Uma grande amante de prosa poética francesa do século dezenove trata seu poeta preferido Rimbaud como verdadeiro deus. Patti ama da maneira mais pura e sincera Robert, seus amigos, ícones e pequenos objetos que mesmo parecendo insignificantes são o mundo para ela.

Patti Smith tem o dom da palavra, ela escreve de maneira fluida e simples mas usa certos termos que deixam sua prosa poética (Mais sobre isso na resenha de Devoção). O livro está localizado bem no meio do olho do furacão do cenário artístico de Nova York dos anos 70, uma cidade suja e perigosa. Uma época e lugar que muita coisa aconteceu, muitos artistas surgiram e, também, morreram.

Fotos de Robert Mapplethorpe

Robert Mapplethorpe foi um grande fotógrafo, se descobriu homossexual quando ainda estava em um relacionamento com Patti e morreu de AIDS no fim dos anos 80. Antes de sua morte Patti prometeu escrever este livro para ele, e assim o fez, da maneira mais bonita e crua possível. Patti se tornou uma grande punk e vive até hoje inspirando gerações, inclusive a mim. Robert deixou um legado de fotos provocantes e fortes e é admirado até hoje. Foi uma delicia conhecer a vida desses dois seres iluminados desde o início, quando ainda eram só garotos.