Simone de Beauvoir: Uma vida – de Kate Kirkpatrick | Resenha da biografia do ícone feminista e escritora do século 20!

A vida de Simone de Beauvoir é um retrato claro da posição da mulher na sociedade. Ela teve uma carreira brilhante, passou pelos exames de filosofia mais difíceis da França, estudou e leu muito. Até hoje ela é lembrada como a seguidora de Sartre, a mulher que esteve ao seu lado toda a vida e que reproduziu suas ideias. Mas a vida de Simone de Beauvoir vai muito além de seu relacionamento com Sartre. Ela foi uma intelectual prolífica, amou muitas pessoas e foi uma feminista engajada.

Kate Kirkpatrick

A biógrafa Kate Kirkpatrick nos mostra isso na biografia Simone de Beauvoir: Uma vida. Hoje vou fazer uma resenha sobre esse livro!

Eu não poderia começar essa resenha sem antes comentar a vida e obra de Kate Kirkpatrick, que é professora da Kings College em Londres. Em entrevista para Quatro cinco um ela disse que não tinha ambições de escrever uma biografia, ela é uma filósofa e pesquisadora de Jean-Paul Sartre, e acreditava que para estudar a filosofia dele deveria entender o contexto intelectual francês no qual ele estava inserido. Então, lia Simone Beauvoir, e fez um estudo detalhado das cartas que os dois trocaram quando eram jovens.

Kirkpatrick também analisou as cartas que Beauvoir trocava com seus amantes e amigos, ela também estudou afundo os diários de Simone. Para assim entender qual eram as nuances de seus relacionamentos e estudos. Escreveu de forma lúcida sobre a vida da moça bem comportada que se tornou ícone, odiada pela maioria que insiste em não entender a sua obra, mas aclamada por mulheres que se sentiram representadas por seus livros.

“Em conversa em um café em Londres, Kirkpatrick explicou, de maneira clara e contundente, que a razão principal que a levou a escrever Simone de Beauvoir: uma vida (Crítica/Planeta) foi a confirmação, através de um cuidadoso estudo de diários e cartas de Beauvoir que foram publicados recentemente, de uma suspeita que tinha havia anos: a maneira como Beauvoir foi retratada ao longo da história, inclusive em biografias anteriores, não fazia jus à sua contribuição à filosofia ocidental.”

Mariana Schiller para a Quatro cinco um.

Em dezessete capítulos Kirkpatrick traz a vida de Simone, e revela as discordâncias entre suas cartas e autobiografias. Conta sobre os relacionamentos nunca mencionados por Simone em seus textos autobiográficos. Desmente acusações inconcebíveis sobre seu posicionamento politico e sexual. E principalmente: mostra a Simone que deveria ser conhecida por todos, a filosofa dedicada, que tinha suas próprias opiniões e criticava com afinco a sociedade em que vivia.

Kirkpatrick também trouxe uma nova visão sobre o relacionamento de Simone e Sartre. Ela os coloca em uma relação de iguais e tira a centralidade dele de sua vida. Simone amou Sartre, mas não era um amor único e incondicional.

Sartre era o “amigo incomparável de seus pensamentos” como a Simone sempre dizia, mais que um relacionamento amoroso, eles tiveram uma bela amizade. Sartre deu diversas entrevistas onde dizia que Simone criticava todas as suas obras, e ele nunca publicava nada sem ela ter lido e comentado. Eles trabalharam juntos, na obra de ambos, e levavam em consideração a opinião um do outro. Por isso, eu acredito que não dá para falar sobre Sartre sem falar sobre Simone.

Simone amou muito! Teve diversos amantes, homens e mulheres, e acreditava na liberdade sexual e amorosa. Ela viveu apenas com um deles, Claude Lanzmann e o ajudou intelectualmente e financeiramente, ele era um intelectual judeu, e cineasta, seu primeiro filme sobre o holocausto foi financiado por Beauvoir. Ela respeitava as ideias de todos eles, que eram a família dela, e continuaram amigos para o resto da vida.

Entre os membros dessa família estão: Olga e Wanda Kosakiewicz, elas irmãs, e Simone teve um caso com Olga e Sartre com Wanda; Jacques-Laurent Bost, que teve um caso com Simone e Olga ao mesmo tempo, mas não juntos, e ele acabou se casando com Olga. Claude Lanzmann, que viveu com Simone no mesmo teto por anos. Bianca Lamblin, que apesar das polêmicas ficou ao lado de Simone, como amiga, para o resto da vida. Nathalie Sorokine que foi amante da Simone quando ambas eram jovens (Simone 27 e Nathalie 20). Sorokine se mudou para os Estados Unidos e abriu as portas de sua casa para Simone sempre que ela ia pra la. E Nelson Algren, que podemos dizer que foi o romance mais intenso de Simone, mesmo com um oceano de distância. O curioso é que Sartre nunca escreveu uma palavra ruim sobre Simone, mas Nelson sim, diversas vezes.

Mas ela se arrependeu de muitas coisas que fez em sua juventude, principalmente os relacionamentos com as alunas. Ela tinha 26/27 quando começou a ficar com alguma delas. Seu relacionamento com Sartre às vezes machucava as terceiras partes, principalmente quando ele resolvia seduzir as amantes de Simone, já que ele era um sedutor incontrolável. Então, com o passar dos anos ela refletiu sobre isso, sobre o amor, e sobre a liberdade. Simone foi uma mulher de reflexões, primeiro sobre a filosofia que lia incansavelmente, Hegel, Kierkegaard, Marx, Freud, Descartes e muitos outros. Depois sobre a condição da mulher na sociedade, e sofreu muitos ataques depois que sua obra O segundo sexo foi lançado. Ela era a bruxa, amarga que não sabia amar, e isso nos atravessa até os dias de hoje. A uma mulher não é permitido pensar, refletir e seguir uma vida de intelectual.

Além disso ela foi veemente contra a ocupação nazista, participou da resistência francesa contra a ocupação alemã, escreveu um livro inteiro sobre isso, Os mandarins. Acreditava que políticas progressistas de esquerda deveriam ser apoiadas, principalmente quando se referia as escolhas da mulher e do aborto. Foi para a União Soviética diversas vezes com o Sartre, já que ele tinha uma amante lá, e criticava as ambiguidades do regime comunista. Esteve no Brasil, na China, nos Estados Unidos, em Cuba e em muitos outros lugares, como já disse nos 50 fatos sobre a Simone, ela era uma viajante. Lutou contra a ocupação francesa na Argélia e no seus últimos anos apoiou diversas causas libertárias.

Recebeu cartas de mulheres que leram a sua obra e se identificaram. Essas mulheres queriam fugir de sua vida, porque quando jovens elas acreditavam que maternidade e o matrimonio seriam cheios de amor, mas que anos depois se viram sozinhas, e descobriam que não construíram nada de significativo e libertador. Simone respondia o máximo de cartas que conseguia e ao longo de sua vida escreveu sobre seus privilégios, sobre a velhice e sobre politica. Kate Kirkpatrick consegue resumir todos os anos de vida Simone de Beauvoir em 553 páginas, em uma narrativa que te prende e te estimula a ler cada vez mais até o fim do livro e da vida de Simone, que foi extremamente interessante e cheia de nuances, como as nossas.

Eu recomendo a leitura desse livro para você descobrir a vida dessa grande mulher!

50 FATOS SOBRE Simone de Beauvoir – Biografia, O Segundo Sexo, Os Mandarins, As Inseparáveis e mais!

Simone de Beauvoir foi uma pensadora muito importante para o século 20. Ela foi uma filósofa, uma escritora dedicada e uma estudiosa disciplinada. Ela questionou a sociedade em que vivia e quebrou diversos padrões de sua época, e levantou questões sobre a liberdade, o amor, o gênero e a sexualidade.

Simone de Beauvoir dando autógrafos no Brasil em 1960

Para fazer esse post eu li a Biografia dela escrita pela Kate Kirkpatrick, e ao longo dos anos eu li diversas obras da Simone de Beauvoir, como O Segundo Sexo, Os Mandarins, Mal-entendido em Moscou.

Também fiz um curso da revista Cult sobre a Simone com a Doutora em filosofia pela USP Juliana Oliva. Vocês viram que eu queria estar bem preparada pra fazer esse vídeo, né?

Dia 09 de janeiro foi o aniversário da Simone de Beauvoir que foi uma escritora e pensadora francesa.

Ela contribuiu não só para o pensamento feminista do século vinte mas também esteve na resistência francesa contra o nazismo em Paris. Foi uma intelectual extremamente culta e prolífica. Tem diversos livros, ensaios, textos jornalísticos públicados. Sua obra vai muito além de O Segundo Sexo, apesar de ser um livro importantíssimo tanto para a filosofia existêncialista, quanto para o movimento feminista que teria força mais de dez anos depois de seu lançamento.

Vi que tem muita desinformação sobre a Simone de Beauvoir na internet, então quis trazer 50 fatos sobre ela de fontes sólidas. Todas as fontes utilizadas para esse vídeo estão lá no fim do post, porque aqui a gente trabalha com fatos pesquisados e estudados.

Bora conhecer os 50 fatos sobre a Simone de Beauvoir?

  1. Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris, às 04 e meia da manhã no dia 09 de janeiro de 1908.
  2. Ela era filha de Georges Bertrand de Beauvoir um advogado que sonhava em ser ator e Françoise Brasseur, filha de um banqueiro bem sucedido, mas que nunca pagou o dote de Françoise porque perdeu tudo.
  3. Um dos antepassados aristocratas de Simone perdeu a cabeça na revolução francesa e depois disso as pretensões nobres da família perderam completamente a força.
  4. Ela e a irmã Hélène estudaram na Adéline Desir Institut, escola católica e privada exclusivamente para meninas.
  5. Desde nova ela já chamava a atenção de seus pais por seus estudos e inteligência. Ela sempre foi muito aplicada, era sempre a melhor da turma.
  6. Ela foi uma leitora precoce e devorava livro atrás de livro, e isso continuou ao longo de sua vida.
  7. Uma personagem literária que inspirou Simone na infância foi a Jo March de Little Women de Louisa May Alcott. Porque ela não queria se casar para seguir carreira literária.
  8. Teve uma infância rígida seguindo os moldes burgueses de uma mãe extremamente católica e um pai egoísta, preguiçoso e machista.
  9. Aos 9 anos Simone conhece a Zaza, Élisabeth Lacoin, que foi sua amiga mais próxima até a morte precoce de Zaza em 29. “As inseparáveis” livro recém lançado pela Record fala sobre essa amizade.
  10. Em 1925 ela foi aprovada no exame de acesso as universidades, de Matemática e Literatura, e licenciou-se nas duas matérias.
  11. Nesse período ela fez duas tentativas de escrita de um primeiro romance, mas nenhuma delas foi para frente. Seu sonho era ser escritora e colocar todas as suas perguntas filosóficas dentro da ficção.
  12. Ela também começou a trabalhar educando proletários do norte da França e depois no instituto em que estudou.
  13. Em 1927 ela obteve seu certificado em História, Filosofia, Filosofia geral e Grego na Sorbonne, ao lado de muitos outros pensadores que se tornariam famosos. Lembrando que as mulheres naquela época não tinham esse tipo de educação, elas nem podiam votar ou ter uma conta bancária.
  14. Foi nessa época que ela chegou a conclusão de que o casamento é “fundamentalmente imoral” já que ele é definido como algo eterno e as vontades podem mudar.
  15. O ano de 1929 foi de grande importância na vida da Simone. Ela se tornou a primeira mulher a dar aulas em um Liceu masculino,
  16. Conheceu Jean Paul Sartre em um grupo de estudos para se preparar para um exame importante. Ele se tornaria seu parceiro e amigo pelo resto da vida;
  17. Ela perdeu a amiga Zaza que morreu apaixonada por outro amigo e colega de Simone, Maurice Merleau-Ponty;
  18. Ao lado de Sartre Simone passou em um exame nacional chamado agregátion para se tornar professora vitalícia do sistema público francês, altamente prestigioso e competitivo.
  19. Aos 21 anos, ela foi a pessoa mais jovem de todos os tempos a passar nesse exame;
  20. Foi também nesse ano que ela e Sartre fizeram um pacto poliamoroso, ela tinha 21 anos e ele 24. Nesse pacto eles deveriam ser cem por cento honestos sobre suas conquistas e leais um com o outro.
  21. Segundo os diários de Simone, nessa época ela não estava apaixonada apenas por Sartre mas também por outros dois homens, René Maheu, amigo de ambos, e seu primo Jacques.
  22. O pacto deles provocou muita curiosidade dos moralistas e é motivo de especulação até os dias de hoje. Muito elogiado e também muito criticado.
  23. Uma curiosidade é que houve um ano em que Simone publicou em nome de Sartre e ninguém notou. A verdade é que essa relação ofuscou Simone, enquanto Sartre era ovacionado, e isso acontece até os dias de hoje.
  24. Entre 1931 e 1935 Simone viveu a vida de uma professora provinciana e morou em Marselha e Rouen para dar aulas.
  25. Voltou para Paris em 36 como professora no Liceu Molière.
  26. Nessa época Simone tinha 27 anos e teve casos famosos com três alunas, Olga que tinha 19 anos, Bianca que tinha 17 anos e Nathalie Sorokine que tinha 20. Olga nunca ficou com Sartre, mas Bianca sim. Elas continuaram amigas para o resto da vida.
  27. Simone também se apaixonou por Bost, ele por sua vez tinha um caso com Olga, e acabou se casando com ela, ele era aluno de Sartre. Uma bagunça né?
  28. Em 39 a Segunda Guerra Mundial começou. Sartre e Bost são convocados. Sartre foi trabalhar no corpo meteorológico e Bost seria soldado. Simone teve seu primeiro “colapso nervoso”, e isso foi se repetindo durante toda a guerra.
  29. Simone começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance A Convidada, que seria lançado em 43, inspirada em sua relação com Olga, Bost e Sartre. A filosofia desse livro pode ser comparada com O Ser e o Nada de Sartre que foi escrito depois.
  30. Em 40 Paris foi invadida pelos alemães, Simone fugiu para o interior com a família de Bianca, mas logo voltou a Paris. Bost foi baleado e evacuado do Front, mas sobreviveu. Sartre foi preso.
  31. Quando Sartre voltou a Paris em 41 eles se uniram com outros intelectuais na resistência francesa contra a ocupação nazista.
  32. Em 43 Simone perdeu seu cargo no sistema de ensino francês depois de uma acusação formal da mãe de uma de suas amantes: Nathalie Sorokine, mas ela negou as acusações contra Simone no tribunal dizendo que as relações entre elas eram consensuais e ela já era maior de idade, então, Simone não foi condenada. Mas ela perdeu o emprego porque suas relações com mulheres e seu relacionamento aberto com Sartre não combinavam com os ideias do governo alemão.
  33. Simone conseguiu um emprego na Rádio Vichy. Na época haviam duas rádios nacionais, a Rádio Paris, que era difundida pelos naziastas, e a Rádio Vichy, onde era possível trabalhar sem ser visto como um colaborador dependendo do que se fazia. Simone falava sobre música na Idade Média.
  34. Em 45 a Guerra acabou e Simone estava produzindo como nunca. Escreveu diversos artigos filosóficos e ensaísticos, fundou uma revista com Sartre e Ponty: Les Temps modernes, Tempos Modernos em português, escreveu uma peça, e dois romances que ficariam muito conhecidos: O sangue dos outros e Todos os homens são mortais. Ela também começou a pensar no livro O Segundo Sexo.
  35. Desde muito nova ela questionava com profundidade o que significava ser mulher para ela e para sociedade. E esse pensamento, junto com suas criticas sobre o que era liberdade dentro do existencialismo, foram a base para a criação de O Segundo Sexo.
  36. Publicado em 49, esse livro foi duramente criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda. Inclusive por seus colegas intelectuais como Camus.
  37. Ele não nasceu para ser um livro feminista. Ela o escreveu como um processo investigativo com dados concretos sobre a vida da mulher em sociedade, e também porque estava irritada com abre aspas “os volumes de idiotices” que eram lançados sobre as mulheres. (Tem resenha completa de O Segundo Sexo aqui)
  38. Simone era muito fã de Virginia Woolf e além de ter lido todos os seus livros ela também a considerava uma grande influência intelectual.
  39. Os Mandarins veio em 54, e esse livro foi muito elogiado pela crítica, ganhou até o prêmio Goncourt. Ele conta a história de um grupo de pessoas que tentavam retomar a vida depois da Segunda Guerra Mundial. Aqui ela mostra personagens fictícios que fazem parte da resistência, além de seus questionamentos em relação a união soviética. Inclusive crítica o governo russo, e propõe uma nova política de esquerda. (Também tem uma resenha completa dele aqui. EU AMEI ESSE LIVRO)
  40. Simone era uma viajante, conheceu o mundo inteiro, foi para Ásia, para a Africa, rodou a Europa inteira, foi para as Américas e desembarcou no Brasil em 1960.
  41. Ela e Sartre permaneceram dois meses aqui e conheceram o Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Fortaleza e Manaus. Essa visita foi organizada por ninguém menos que Jorge Amado e Zélia Gattai. Ela até conheceu o Juscelino Kubitschek.
  42. Em 60 Simone conhece Sylvie Le Bon, mulher que se tornaria sua amiga mais próxima até o fim de sua vida.
  43. Desde que Simone começou a trabalhar ela mandava dinheiro tanto para a irmã Helénè, quanto para mãe Françoise. Ela era a grande provedora da família
  44. E de alguns amigos, muitas vezes passou fome para poder ajudar todas as pessoas que estavam ao seu redor, inclusive suas amantes e as amantes de Sartre.
  45. Nesse período ela tinha 50 anos e lançou suas três biografias mais famosas: Memórias de uma moça bem comportada, em 58, na qual ela relembra sua juventude puritana; A força da idade, onde ela relembra uma Paris ocupada e dedica a sua relação com Sartre, Bost e Olga; e A força das coisas, em 63, onde ela comenta a vida que leva no pós guerra e suas publicações.
  46. Em 65 ela lança o livro Mal Entendido em Moscou, onde ela fala sobre as ambiguidades existentes na união soviética;
  47. Em 67 ela lança A mulher desiludida e logo depois, em 70, A velhice, com pensamentos que passavam por ela a décadas sobre o envelhecimento e a morte.
  48. Em 80 ela perde Jean Paul Sartre, e se vê sozinha, então ela adota Sylvie Le Bon, após passar um período no hospital e não ter ninguém que pudesse lhe acompanhar, já que a irmã estava em Portugal.
  49. Em 81 ela lança sua última biografia, A cerimônia do adeus, onde ela narra os últimos anos de Sartre e a sua vida na velhice.
  50. Simone de Beauvoir morreu em 86 de complicações de uma pneumonia, e seria lembrada por muitas décadas após sua morte. Os recém lançamentos de cartas e livros nunca publicados vieram do acervo de Sylvie Le Bon-de Beauvoir, que herdou tudo de Simone.

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Bom, esse foi o compilado de informações sobre essa autora tão famosa e importante! Os próximos serão sobre a Virginia Woolf e a Angela Davis. Me conta o que achou nos comentário!

Fontes:

CANDIANI, Heci Regina. Simone de Beauvoir. InBlogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia. [S. l.], 22 abr. 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/simone-de-beauvoir-2/. Acesso em: 4 jan. 2022.

KIRK PATRICK, Kate. Simone de Beauvoir: Uma vida. 1. ed. Brasil: Crítica, 2020. 553 p. v. 1.

JEAN Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: ISHAD, Vivien. Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Brasil em 1960. [S. l.], 1 fev. 2019. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/copy_of_noticias/jean-paul-sartre-e-simone-de-beauvoir-no-brasil-em-1960. Acesso em: 4 jan. 2022.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Brasil: Nova Fronteira, 2018. 936 p.

BEAUVOIR, Simone de. Os mandarins. ed. atual. Brasil: Nova Fronteira, 2017. 736 p.

BEAUVOIR, Simone de. Mal entendido em Moscou. Brasil: Nova Fronteira, 2015. 89 p.

5 Livros importantes para você que quer estudar sobre feminismo!

Sinto que sou feminista desde que era novinha, porque não entendia porque existiam coisas de menino e coisas de menino. Achava a vida dos meninos tão mais legal, os jogos emocionantes, as brincadeiras ao ar livre, os esportes de risco, as grandes estrelas do rock que eram sempre homens. Olhava para os lados procurando personalidades para me identificar e não encontrava, até porque, sempre me entendi como mulher, mas a representação do feminino me incomodava. Via a maquiagem como uma máscara e os apetrechos sufocantes. Isso que eu nem tinha 12 anos. Mas desde sempre busquei minha própria voz, gostava de imaginar que eu era uma estrela do rock, mesmo sabendo que mulheres, neste meio, eram sempre as tietes, ou modelos, que corriam atrás das estrelas, e eu não suportava ser isso. Queria ser uma mulher importante e não um bibelô.

Porém, todas essas ideias que eu considerava feministas estavam só na minha cabeça, não tive contato com nenhuma teoria até meus 21, 22 anos, e quando o fiz senti que minha cabeça explodiria. Li O Segundo Sexo, O Mito da Beleza, Woman Hating, ensaios da Emma Goldman, discursos da Angela Davis, tudo em pdfs que ia achando em grupos feministas. Aos poucos compreendi a complexidade do que é ser mulher e ser socializada como mulher.

Bom, estou dizendo tudo isso para trazer para vocês os livros feministas que estou relendo/lendo neste momento. Alguns eu li há muitos anos e guardo na memória com carinho como Um Teto Todo Seu. Outros que li e não coloquei na lista, pois faz tanto tempo que preciso revisitar como Mulheres, Cultura e Politíca da Angela Davis e Os Homens Explicam Tudo Para Mim da Rebecca Solnit.

Os cinco que trouxe hoje são os que eu considero mais importante agora, e espero que possamos trocar ideias sobre eles e estudarmos juntas esses assuntos. Até porque, minha vida literária é baseada em ler o máximo de mulheres possível e disseminar a palavras delas pelo mundo! 💕

Um teto todo seu – Virginia Woolf

Um grande ensaio de Virginia Woolf que com uma perspicácia incrível nos mostra como as portas do conhecimento foram fechadas para as mulheres que não podiam entrar nas Universidades, nem nas bibliotecas, éramos ensinadas a cuidar da casa e dos filhos e só. Não tínhamos um espaço nosso para nos dedicarmos a escrita, por isso muitas não o fizeram. Virginia tem uma sacada interessante: Se Shakespeare tivesse uma irmã tão talentosa quanto ele, como seria o futuro dela?

Quem tem medo do feminismo negro? Djamila Ribeiro

Quem tem medo do feminismo negro de Djamila Ribeiro: este livro eu ganhei de uma grande amiga que respeito muito, eu, como branca, sempre me identifiquei com feministas brancas, primeiro porque este conteúdo é mais disseminado e segundo porque para mim a luta era mesma, uma menina bobinha. O primeiro contato que tive com questões de raça foi com Angela Davis em seus artigos e discursos, mas sentia que eram muito distante de mim por estarem relacionados com a cultura americana. Depois a Djamila apareceu mostrando com eficácia como o racismo é estrutural e debilitante. Este é um livro com vários artigos compilados e essencial para a luta feminista como um todo.

Calibã e a bruxa – Silvia Federici

Um livro de explodir a cabeça, ele explica à fundo o que foi a caça as bruxas, qual era o contexto social, religioso e laboral que as mulheres estavam submetidas naquela época. Aborda diversos assuntos de extrema importância, tanto para luta de classe, quanto para o feminismo: a colonização, a cristianização, a acumulação de capital, a propriedade privada. É um grande livro de história, que além de falar sobre a caça as bruxas também nos mostra como foi a transição do feudalismo para o capitalismo e como isto um processo sangrento. 

O mito da beleza – Naomi Wolf

Esse foi o primeiro que me impactou forte, ele nos mostra como a cultura da beleza nos oprimem tanto no trabalho, quanto na vida pessoal, fazendo com que tenhamos que estar sempre belas, arrumadas, gastando rios de dinheiro para subir na carreira, e na vida. Faz refletir sobre várias inseguranças que temos em relação ao nosso corpo e nos faz entender o porque gastamos mais do que devíamos com cosméticos e intervenções estéticas. Aprendemos como esses padrões são destrutivos e cansativos.

O segundo sexo, volume 1 – Simone de Beauvoir

Já fiz uma resenha dele (que você encontra no post abaixo), mas quis trazer ele aqui de novo. Ele é um grande resumo de todas as pautas feministas que estão nos livros anteriores. Fala da mulher como propriedade privada, nos dá um panorama histórico da condição feminina desde os primórdios até os dias atuais, nos mostrada dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras, investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas.

Um dos mais importantes livros feministas já escritos – Resenha de: O segundo sexo de Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo não foi escrito para ser um livro feminista. Simone de Beauvoir não tinha esta pretensão, mas ele se tornou um grande símbolo da segunda onda do feminismo burguês europeu/americano. Há alguns dias escrevi uma resenha sobre Os Mandarins, livro posterior ao Segundo Sexo, grande romance de Beauvoir. Lá, também, escrevi uma pequena biografia sobre está magnífica escritora, que também foi professora, filósofa, participante da resistência francesa contra a ocupação Alemã, abertamente bissexual e extremamente politizada.

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Simone de Beauvoir por Cartier Bresson

Publicado em 49, poucos anos após a segunda guerra mundial o livro foi criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda (diferente de Os Mandarins, de 54, que seria bem aceito), mas vendeu mais de 22 mil cópias na primeira semana de seu lançamento. Simone nos diz em seu livro de memória, a Força das Coisas, que a idéia para escrever um livro sobre a condição feminina veio de uma conversa com Sartre, que a perguntou se ela já havia se questionado sobre o que é ser mulher. Simone conta, então, que isto nunca fora uma questão pois ela não sentira obstáculos por seu sexo, nem para escrever, nem para trabalhar.

O volume 1 do Segundo Sexo é dividido em três partes: Destino, História e Mitos. Cada uma serve como introdução ao pensamento de Beauvoir que virá no volume 2. A primeira parte investiga dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras. Nos mostra que nos animais não existe o feminino como nós conhecemos: a fantasia de ser mulher. Ela também investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas, e que alguns valores diferem de acordo com contexto social e econômico de cada mulher.

Esses dados biológicos são de extrema importância (…). Mas o que recusamos é a ideia de que constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definir uma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 60.

Tanta força inspira aos homens um respeito misturado de terror e que se reflete em seu culto. Nela se resume toda a Natureza estranha.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 104.

A Segunda Parte é onde Beauvoir estuda a história pregressa da mulher desde o surgimento da agricultura. Aqui ela identifica as diferenças femininas e masculinas nos primórdios, começando pelos nômades ela passa pelos gregos, romanos, beduínos, muçulmanos, Europa cristã, até o fim dos anos 40. A mulher ficou em casa pois as tarefas domésticas eram mais próximas da maternidade, ou seja, a mulher não produzia nada novo e não alimentava sua independência saindo para caçar como os homens. Apesar disso o trabalho doméstico era muito mais cansativo e trabalhoso. Simone analisa o Mito Feminino da deusa e mostra como os homens tinham medo da maternidade e como endeusavam mulheres pois viam misticidade no parto. Mesmo deusa quem comandava e liderava eram homens.

A terceira e última parte é dedicada aos mitos criados sobre a mulher: a virgem, a mãe, a boa esposa. Cada sociedade tem o seu tipo de mulher ideal, e todos eles impõem algo a mulher que a impede de transcender a espécie. Sempre propriedade, anexada ao homem ela o reflete perante a sociedade. Simone analisa profundamente a obra de cinco escritores: Motherlant, D.H. Lawrence, Claudel, Breton e Stendhal. Cada um com sua própria convicção e olhar sob a feminilidade e o papel da mulher no mundo, o que pode ser maçante para quem não conhece esses escritores, meu caso. Ela nos dá panorama interessante sobre o que estava sendo produzido na França e como algumas obras influenciaram o modo como as mulheres, e a feminilidade, eram vistas em um contexto coletivo.

Resenhar o Segundo Sexo, assim como lê-lo, não foi uma tarefa fácil, o livro é cheio de referências históricas e culturais, toda página tem algum grifo interessante ou um dado importante. Por ser um grande artigo de investigação tentei resumir o que estava escrito para mostra a idéia geral do contexto no qual este livro foi escrito. Este não é um livro com viés politico, nem datado. Simone é imparcial e escreveu uma obra prima que analisa a condição feminina de diversas classes sociais. Para mim, este é um dos maiores livros que o academicismo francês nos deu.

Uma mistura do feminino e do masculino transforma este livro em uma obra prima do pós guerra – Resenha: Os Mandarins de Simone de Beauvoir

“As paredes giravam, mas eu me sentia muito lúcida, muito mais lúcida do quando sóbria. Quando sóbria, a gente tem muitas defesas, dá um jeito de não saber o que sabe.”

Os Mandarins – Página: 49

Simone de Beauvoir nasceu na primeira década do século vinte e dedicou sua vida a projetos filosóficos e literários. Filha da alta burguesia, como a maioria dos intelectuais da época, estudou em um colégio católico até seus dezessete anos, depois estudou matemática, línguas e, por fim, filosofia, na Sorbonne, matéria que lhe deu destaque, onde conheceu muitos de seus companheiros intelectuais.

É, realmente, difícil para mim, uma mera mortal, falar dessa grande mulher e de sua filosofia, mas tentarei resumir um pouco do que sua obra representa, não só para nós mulheres, mas para todo o pensamento ocidental. Para isso, me inscrevi em um curso da Revista Cult, ministrado por Juliana Oliva, estudiosa da obra de Beauvoir. Simone foi um expoente importante da corrente filosófica existencialista. Filosofia que acredita que as escolhas próprias definem a vida de um ser, o ser humano é o que ele faz e é livre para escolher.

A obra de Simone é permeada por investigações do ser a partir da existência, e ela passa sua vida escrevendo ensaios, livros e autobiografias em busca da sua transcendência: fazer algo além da espécie. Sua obra é extensa, e o seu livro mais conhecido é o Segundo Sexo, um grande ensaio sobre a condição da mulher na sociedade ocidental. Aos poucos ela encontra barreiras, como a segunda guerra mundial, época em que Paris fora ocupada pelos alemães. Nesta época Simone faz parte da resistência francesa e escreveu seu livro Os Mandarins com base no período final da guerra.

Simone de Beauvoir por Cartier-Bresson

“É preciso muita confiança no futuro para crer que a vida toda possa ter sentido.” 

Os Mandarins – Página: 241

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Os Mandarins não é um livro fácil, suas 732 páginas estão inundadas de uma politica, já obsoleta, do pós segunda guerra mundial em uma Paris falida. As discussões mais importantes que permeiam o livro são a nova política da esquerda, que não chega a ser um comunismo mas também é, totalmente, contra ao capitalismo americano. Confesso que achei essas discussões maçantes e muito masculinas, esperava que o livro tratasse mais da condição feminina, o que faz, é certo. Porém esses questionamentos políticos, que os intelectuais burgueses fizeram no meio do século, são centrais neste romance. Algumas questões que discutem são ínfimas perto das injustiças que ocorrem no mundo, isto me enfastiou e fez com que eu demorasse muito para ler o livro inteiro.

O personagem protagonista destas discussões é Henri, um escritor e jornalista, diretor de um jornal que fora importante para a resistência francesa. Seguimos lendo sobre sua vida que envolve: lutas diárias para manter o jornal em pé, romances com diversas mulheres, como Paule e Nadine, e suas amizades, principalmente com o casal Dubreuilh, Anne e Robert, que são, também, pais de Nadine. A história de Henri nos é entregue por um narrador em terceira pessoa onisciente, ou seja, vemos o que acontece com ele sem muito sentimentalismo. Apesar disso ele é um personagem cheio de questões existências profundas, dúvidas e esperanças.

A intriga central do romance é o rompimento e a reconciliação entre Henri e Robert, mas em paralelo a isto vemos a história de Anne ser contada em primeira pessoa. Simone dedica, um capítulo a Henri e depois um a Anne, e segue este formato até o fim. Anne é, também, protagonista neste livro, e na minha opinião suas questões são muito mais interessantes que as de Henri. Pois ela se questiona em um nível pessoal, enquanto Henri se questiona em um nível político, ou moral.

“Que significa o fato de que o homem não para de falar de si? E por que certos homens resolvem falar em nome de outros?”

Os Mandarins – Página: 282

Anne é mulher, casada, mãe e psiquiatra, ela cresceu em uma família católica, como Simone, e se casou com Robert, vinte anos mais velho. Tiveram uma filha, Nadine, que também tem seus momentos fortes no romance, a construção desta personagem, e de todos os outros, tem uma profundeza assustadora pois as emoções que Simone descreve vão desde a alegria do fim da guerra, até o luto por aqueles que morreram. Ela cria mulheres profundas, que não são heroínas feministas pelas quais poderíamos esperar depois de ler o Segundo Sexo. Simone diz que escreve o que vê e nunca viu uma mulher liberta de todas as imposições do gênero feminino.

Neste livro vemos três mulheres importantes: Anne, que seria a mais liberta, mas passiva, vive um relacionamento aberto com Robert e se apaixona por um escritor americano, Lewis, com o qual vive uma história de amor intensa. Esta parte do livro é muito bonita mas também sufocante, pois este amor não é um amor seguro e saudável. Nadine é uma mulher que se masculinizou e se sexualizou para poder ser aceita no grupo de amigos, homens, que está envolvida, ela foge das feminilidades e sentimentalismos, é agressiva, mas no fundo vemos que é apenas uma menina imatura que não sabe ao certo como se impor, ou, nas palavras de Simone: transcender. Por fim, Paule, a mulher apaixonada que deu tudo de si para seu amor, Henri, e vive apenas por ele sem perceber que este relacionamento chegou ao fim, ela é insistente e vive completamente fora da realidade.

Bom, como disse no início, este não é um livro simples, nem de ler, nem de resenhar. É um livro forte, cheio de nuances, e complexidades, por isso recomendo uma leitura consistente e devagar. Ganhou o prêmio Goncourt, um dos maiores prêmios literários da França e foi bem aceito tanto pela direita, quanto pela esquerda. A grande mistura de personagens tanto feminino quanto masculino mostram a grande diversidade de olhares e a beleza do existencialismo em forma de literatura. Os Mandarins é uma obra prima escrito por uma mulher genial.