5 Motivos que me levaram a cancelar a TAG livros.

Assinei a tag curadoria pela primeira fez em julho deste ano (2020). Queria entender como funcionava e como eram os livros. Recebi cinco caixinhas no total e aos poucos percebi que o modo como eles trabalham não funcionaria para mim. Nesses cinco meses me deparei com pequenas coisas que aos poucos se tornaram grandes. Além disso o valor da assinatura é alto e a experiência não é tão agradável quanto eu esperava.

5 motivos que me levaram a cancelar a TAG

1. Assinei o plano curadoria e veio um livro inédito.

Assinei o plano Curadoria esperando uma edição lindíssima de um livro que já existisse aqui no Brasil, mas o primeiro que recebi foi Sul da fronteira, oeste do sol um livro inédito. Apesar da edição ser muito bonita fiquei chateada com esta pequena mentira logo de cara, mas enfim, as expectativas eram minhas, então, continuei assinando.

2. Livros sem edição recente no Brasil

Como havia dito recebi cinco livros deles e apenas um tinha edição recente aqui: Tudo de bom vai acontecer da nigeriana Sefi Atta. Ou seja, apesar de não ser inédito, a única forma de ler algum desses livros é se associando a TAG. Na época eu estava fazendo resenhas dos recebidos (Sul da fronteira, oeste do sol, Afirma Pereira, Todos os nossos ontens) e senti que não fazia sentido falar sobre livros que apenas assinantes da TAG leriam. Senti que a curadoria pudesse ser um pouco enviesada fazendo com que as pessoas ficassem presas a eles. Ao meu ver também parece ser um laboratório para as editoras verem o que funciona para o mercado brasileiro.

3. Contato excessivo com ex associados.

Quando fui cancelar minha assinatura recebi uma enxurrada de e-mails e mensagens no WhatsApp perguntando se eu tinha certeza do cancelamento, tipo ex namorado que não aceitou o término. Não gosto de receber mensagens e e-mails deste tipo, primeiro porque se eu cancelei, o fiz porque quis, eles só pararam quando respondi que aquelas mensagens estavam me incomodando, depois de umas 10 recebidas.

4. Enviaram um livro que fala sobre abuso e violência sem avisar.

Em outubro eles enviaram Minha vida de rata, um livro cheio de abusos e violências que não foram avisados. Enviaram o livros às cegas podendo ativar gatilhos de pessoas que não sabiam o que havia ali dentro. Além disso, é um o livro ruim, não gostei da escrita e nem da edição. Não teria lido, nem comprado se não tivesse recebido em casa sem saber o que seria.

5. Precarização do trabalho

Meses atrás a TAG iniciou um programa de parceria que convidava páginas do Instagram a falarem sobre eles em troca de uma caixinha. Para ganhar este mimo nós teríamos que vender um número absurdo de assinaturas. Eles esqueceram que o que fazemos aqui é trabalhoso e complexo, e o que nos move é o amor que sentimos pelos livros. Além disso, só uma pessoa com uma conta grande conseguiria vender o tanto de assinatura que eles esperavam. Eles viram que ninguém se interessou e retiraram a proposta do ar.


Lembrando que essas conclusões são uma opinião minha e respeito quem pense de um modo diferente. Quando assinei a TAG em julho fiz como um teste, queria ver se esse tipo de clube funcionaria para mim. Não tive uma boa experiência com a TAG pois todo mês era uma decepção nova e um sentimento negativo que as caixinhas traziam, principalmente, depois de tentar cancelar pela primeira, continuei porque queria a edição de Tudo de bom vai acontecer, e cancelei definitivamente depois de Minha vida de rata.

Agora quero saber de vocês! Gostam da TAG?

A misoginia existe e existirá até darmos um basta – Resenha: Minha vida de rata de Joyce Carol Oates

Recebi este livro da TAG curadoria em outubro e não pretendia ler tão cedo. Primeiro porque achei um absurdo eles mandarem um livro cheio de gatilhos (já havia lido resenhas sobre ele) sem avisar, mostrando descaso com quem está lendo. Isto e outras pequenas coisas me fizeram cancelar a assinatura (vou falar sobre isto em breve). Segundo porque a Joyce Carol Oates é uma escritora estadunidense e eu não sou muito fã de escritores de lá. Só li porque estava companhia de amigas, Oli e Clarisse, e se não fosse isto não teria terminado.

Este foi meu primeiro contato com a obra da Joyce, que já foi cotada para o Nobel diversas vezes, e não gostei. Encontrei erros de construção gravíssimos e fiquei o tempo todo questionando: “Duas coisas acontecendo ao mesmo tempo?”, “Aquilo que Violet, a personagem principal, está registrando é sonho ou é real?”. Não temos como saber. Na verdade, muitas coisas que ela mostra no livro não acontecem, isto me deixou confusa, ela faz muitas insinuações que acabam não sendo verdades. Além disso a opinião da própria autora se sobrepõe na narrativa de Violet, opiniões contraditórias com a submissão da personagem. É uma leitura muito desagradável, não só pelas atrocidades que acontecem, mas também pelo modo como ela escreve.

Apesar disso, Minha vida de rata aborda assuntos importantíssimos, como a misoginia e o racismo, temas principais da obra. Violet é a filha mais nova de uma família irlandesa, o pai é um patriarca violento e abusivo, a mãe é uma mulher submissa e frustada, os filhos são cópias deles. Quando os irmãos mais velhos de Violet matam brutalmente um menino negro a família entra em crise. Ela é atacada dentro de casa e em um momento de fragilidade delata os irmãos. Assim começa sua vida de rata, é expulsa e vai morar com uma tia.

Violet é uma das muitas meninas que são desrespeitadas ao longo da vida, pelos pais, por assistentes sociais, por professores. Mostrando assim o descaso que a mulher sofre na sociedade. Foi nos imposto a submissão e o que pensamos não tem valor. Somos inferiores e isto está claro neste livro. Não somos educadas como deveríamos, como os meninos são, para serem fortes e contestadores. Por isso não nos amam como amam eles. Os meninos serão poderosos, nós não.

Violet também passa por abusos sexuais na adolescência e na vida adulta. Vive carregando o peso de ter dedurado os irmãos, quer ser perdoada e voltar para a família. Anseia pelo amor que lhe foi tirado. Passa uma vida querendo agradar, se anulando sem se impor. Vemos aqui como a socialização feminina é forte e está dentro de cada uma de nós. Corremos o risco de ser Violet, muitas de nós foram. Ao meu ver, este livro nos mostra que a socialização feminina não falha. Isto sempre será a coisa mais difícil de desconstruir. A misoginia existe e existirá até darmos um basta.

Você já pensou como a socialização feminina nos fere? Como ela nos criou para sermos bibêlozinhos que sempre dizem sim? Temos que conversar sobre isto!

O livro das coisas não ditas – Resenha: Todos os nossos ontens de Natalia Ginzburg

Natalia Ginzburg cresceu com um espírito insubordinado que herdou de seu pai, professor universitário, um judeu abertamente de esquerda, e que compartilhava com seus irmãos, que foram presos pelo regime facista de Mussolini, durante a perseguição dos nazistas aos judeus. Uma das maiores vozes da literatura italiana do século XX, Natalia nasceu em Palermo e viveu uma vida dedicada ao antifascismo. Perdeu o primeiro marido, torturado e morto pelo regime, e viveu os anos da segunda guerra mundial exilada, dentro do próprio pais, por ser judia.

Escreveu diversos romances, artigos jornalísticos, crônicas e ensaios. As reedições de suas obras no Brasil se deu pelo fenômeno Ferrante. Veio em um momento oportuno pois temos que retomar as lutas antifascistas e discutir sobre qual o mundo que queremos viver e como podemos recriá-lo da maneira mais justa possível. Ginzburg lutou ativamente no movimento antifascista e foi figura fundamental da resistência italiana.

“Emanuele voltava para sua casa e explicava a mamãe que a questão da Itália não era tão importante, porque na Polônia caíam bombas enquanto ela estava sentada tomando chá, na Polônia as casas desabavam e quando há casas que desabam não era importante saber se desabavam em um ponto ou outro do mundo.”

Todos os nossos ontens – Página 76

A obra de Natalia Ginzburg é permeada de um realismo que nos lembra os horrores da guerra pelos olhares inocentes de seus personagens. Logo no início conhecemos uma família de classe média italiana, composta pelo pai, que não sabemos o nome; os filhos: Concettina, Ipollito, Giustino e Anna; e a senhora Maria, que foi dama de companhia da avó, e depois da morte desta passou a cuidar dos afazeres domésticos. Cada personagem tem uma característica própria, o que nos faz ver o conturbado fim dos anos 30, durante o pré guerra, e o período da segunda guerra mundial, por diferentes olhares do mesmo provincianismo.

O pai é um comunista viúvo que passa seus últimos anos de vida escrevendo um livro de memórias que não mostra para ninguém. Concenttina é uma moça “namoradeira” que está sempre preocupada com a aparência, e ás vezes com a escola. Ippolito é o filho mais velho no qual o pai joga toda a responsabilidade e também a raiva que sente do mundo, diversas vezes vemos ele humilhando o menino sem motivo aparente. Anna é uma garota ingênua, que vive romantizando a revolução. Giustino é o irmão mais quieto mas o único que luta ativamente como partigiani. Por fim, a senhora Maria, que é uma velhinha teimosa e superficial que vive a recordar as grandes viagens que fizera com a avó.

“Não acreditava que a vitória já fosse dos alemães, essa era uma guerra na qual ninguém teria ganhado ou perdido, no final se veria que todo mundo teria perdido alguma coisa” 

Todos os nossos ontens – Página 160

Outros personagens também são apresentados como Cenzo Rena, um grande amigo do pai de Anna. Danilo, um dos namorados de Concettina, o único ali da classe trabalhadora, que se torna amigo de Ipollito e Emanuele, que juntos buscam formas de acabar com o fascismo. Os vizinhos da casa ao lado: os irmãos Emanuele, Giuma e Amalia, Franz, um alemão judeu que vivia com eles, e o pai e mãe, donos de uma fabrica de sabão. A vida de todos se entrelaçam e assim criam amizades, relacionamentos, discussões e ajuda mútua no período da guerra.

Todos os nossos ontens é narrado em terceira pessoa, mas não por um narrador onipresente, o filtro são os olhos de Anna, o único personagem que vemos os sentimentos mais profundos. Digo que este livro é o livro das coisas não ditas porque ao longo dele vemos os prenúncios de coisas que estão por acontecer, mas só temos certeza quando elas acontecem.

“Mas fazer a revolução para Cenzo Rena queria dizer ir até a prefeitura e retirar todos os velhos processos que apodreciam nas gavetas, e fazer com que a marquesa soltasse o dinheiro para arrumar o esgoto, e para montar um ambulatório, com um médico bom que não se deixasse apodrecer. “

Todos os nossos ontens – Página 179

Natalia Ginzburg escreveu um livro sobre a guerra pelos olhos do italiano médio, que ficava em casa esperando notícias, comida e retornos. Foi dividido em duas partes, o antes e o durante a guerra e assim conhecemos um pouco sobre as pessoas que viviam no interior da Itália, primeiro no norte, depois no sul. Ali os fascistas nem eram tão fascistas assim, como o sogro de Concettina. A revolução não era tão revolucionária assim, pois a luta antifascista se faz com ação e não com sonhos. Vemos, também, a perseguição aos judeus na Itália. Ginzburg escreveu este livro de uma forma muito sutil e repetitiva que às vezes chega a ser monótono mas não podemos esquecer que este é um livro permeado de medo, esperança, perdas, tristeza e luta, os personagens são como nós, pessoas comuns tentando sobreviver.

Um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar – Resenha: Afirma Pereira de Antonio Tabucchi

Afirma Pereira foi minha segunda experiência na TAG (A primeira foi Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami). A caixinha de agosto me surpreendeu, tanto pela beleza, quanto pelo conteúdo, a edição é linda e o livro tem uma simplicidade genial. Antonio Tabucchi é um italiano que viveu por anos em Lisboa, e desde que recebi a caixinha via coincidências com a minha própria vida por toda parte, ele nasceu em Vecchiano um pequeno vilarejo que eu costumava ir ano passado (2019) e onde tenho muitas recordações positivas, ele morou em Lisboa cidade que amo e escreve tanto em português quanto em italiano, minhas duas línguas do coração.

O livro, escrito na década de 90, está ambientado no final da década de 30 em Lisboa, um lugar oprimido pelo Estado Novo português, regime imposto por Salazar. A ditadura salazarista, um governo autoritário de inspiração fascista, durou até 74, ano em que aconteceu a Revolução dos Cravos, movimento militar que levou o país a democracia que existe hoje. Medo, repressão, censura e violência, esse é o contexto social que Pereira sem encontra quase sem querer.

Pereira é um jornalista obeso e apático que vive a vida da maneira mais mecânica possível. Todos os dias ele acorda e sai para trabalhar, é colunista de cultura de um jornal que apoia a ditadura, come omeletes, toma limonadas, traduz contos francês e conversa com o retrato de sua mulher morta. É católico e se vê como um bom cidadão, tem poucos amigos e uma saúde precária. Não apoia a ditadura mas também não faz nada para se envolver, pensa que aquilo não é problema seu.

Isso muda quando ele conhece Monteiro Rossi e o contrata para escrever necrológios. Logo de cara ele percebe que Rossi não tem talento, nem vontade de fazer aquilo. O que o menino quer, ou parece querer, é arranjar problemas políticos induzidos por sua namorada Marta que é claramente comunista, isso são palavras de Pereira, não minhas. Aos poucos vemos o personagem despertar, ele ajuda financeiramente Rossi sem esperar nada em troca, como se fosse um pai, e passa a ter conversas mais politizadas com pessoas a sua volta, como seu amigo Silva e o doutor Cardoso, dois personagens que tem opiniões diversas sobre o que está acontecendo.

As cento e cinquenta e sete páginas são narradas em forma de relato, e o que eu achei curioso é que Tabucchi usa o verbo “afirmar”, ao invés do comum “dizer”. Mostrando assim como podemos brincar com as palavras sem perder o conteúdo, além disso, encontrei muitas repetições que deixariam qualquer professor de Escrita Criativa de cabelo em pé. Isso afirma a genialidade de Tabucchi que construiu com simplicidade um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar.

O jazz é a trilha deste livro que está encoberto por uma névoa de mistérios – Resenha: Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami

Faz algum tempo que venho namorando as edições da TAG mas nunca me senti impelida a entrar nesse clube. Primeiro porque não queria perder meu poder de escolha, e segundo porque é um valor salgado para despender todos os meses em um livro que eu nem sabia qual seria. Não estou dizendo que não vale, na real, prefiro dar meu dinheiro para eles do que para gigantes como a Amazon, as edições são lindas e valem cada centavo, eu é que não estava disposta a gastar 70 reais por mês por essa experiência. Enfim, depois de muito pensar, e ver as edições anteriores eu por fim fiz minha assinatura mensal para ver “qual era” desse clube literário.

O primeiro livro que recebi foi em julho de 2020, mês que estavam comemorando cinco anos de TAG. Escolhi o plano curadoria mas naquele mês eles mandaram um livro inédito no Brasil: Sul da Fronteira, Oeste do Sol de Haruki Murakami. A edição com ilustrações da Sabrina Gevaerd é maravilhosa. Fiquei surpresa ao receber um livro do Murakami, pois há anos quero ler algo dele, então, foi uma boa oportunidade de me lançar nas suas histórias.

O livro começa na infância do personagem principal Hajime e nos conta a história de sua amizade com Shimamoto, sua vizinha, uma garota que como ele é filha única. Essa amizade se torna importante para os dois, e ele experimenta seu primeiro amor, mas se afastam ao longo do tempo devido a uma mudança. Depois que ela sai de sua vida Hajime se envolve com outras mulheres e passa a narrar sobre sua vida ao lado delas, os erros que cometeu, e como acabou sozinho por anos. Sempre se lembrando de Shimamoto, que para ele foi seu grande amor.

Isso me incomoda porque vemos um personagem que vive completamente dentro de suas idealizações de um possível amor que nunca existiu. Ele cresce, estuda, trabalha e passa por seus 20 anos estagnado, até conhecer Yukiko, que se tornaria sua esposa. Foi amor à primeira vista e logo eles se casam e tem duas filhas. Com o dinheiro da família de Yukiko, Hajime monta um bar de jazz e mantém uma vida estável acima da média. Lá ele reencontra Shimamoto, que está muito diferente do que ele lembrava, a partir daí os dois retomam a antiga relação de um modo incomum.

O jazz é a trilha deste livro que está encoberto por uma névoa de mistérios. O personagem, que não me agradou no começo (nem em boa parte do livro), tem a sua redenção no fim. Um livro rápido e fácil, sempre em primeira pessoa. Hajime conta a sua vida a sua maneira, e nos dá um final surpreendente para os acontecimentos. Além disso, Muramaki nos faz refletir sobre amor e relacionamentos, nos fazendo questionar sobre como lidamos com essas emoções tão complexas e bonitas. Os últimos capítulos foram intensos, li com ferocidade, cheia de sentimentos contraditórios sobre as sensações que estavam descritas. Uma leitura agradável e desagradável ao mesmo tempo.